Obina não foi melhor que Eto’o; Salah poderá ser?

Obina certamente não foi melhor que Eto’o, contrariamente ao que a torcida do Flamengo cantava (“Ôôôô, Obina é melhor que Eto’o”) para homenagear o atacante baiano que fez muitos gols pelo time carioca em meados dos anos 2000.

Lembrei-me muito de Samuel Eto’o neste setembro porque o camaronês anunciou sua aposentadoria dos gramados no dia 6, aos 38 anos.

Há o entendimento quase unânime na mídia esportiva de que Eto’o é o melhor futebolista que a África já forjou, superando ícones como seu compatriota Roger Milla (que atuou dos anos 1970 aos anos 1990 e tem cinco gols em Copas do Mundo, contra três de Eto’o), o liberiano George Weah (dono de um troféu de melhor jogador do mundo, o único africano a conseguir a façanha, em 1995, e que hoje é presidente da Libéria) e o marfinense Didier Drogba (decisivo no inédito título europeu do Chelsea em 2012), todos centroavantes como ele.

Vi Eto’o jogar, especialmente por Barcelona e Inter de Milão – times em que viveu seu auge –, e ele era definitivamente espetacular. Velocidade, agilidade e precisão nas finalizações foram suas principais qualidades.

Na equipe espanhola, que defendeu de 2004 até o meio de 2009, marcou 152 gols em 234 partidas, de acordo com informações do clube.

Conquistou com a camisa azul e grená dez títulos, entre os quais duas Ligas dos Campeões da Europa (Champions League), em 2006 e em 2009. E fez gol nessas duas decisões do principal interclubes da Europa, a primeira contra o Arsenal, a segunda diante do Manchester United.

Muitos consideram que um dos erros da carreira do supertécnico Pep Guardiola foi ter permitido que o camaronês fosse negociado com a Inter de Milão. Eto’o, aliás, guarda mágoa do treinador espanhol. Considera que ele não o valorizou como merecia.

Eto’o comemora gol pelo Barcelona na Champions League, contra o Stuttgart, no estádio Camp Nou (Josep Lago – 12.dez.2007/AFP)

Na Itália, Eto’o, que mede 1,80 m e pesa 75 kg, manteve-se goleador e vencedor.

Tornou-se, com a vitória da Inter sobre o Bayern de Munique em 2010, apenas o quarto jogador na história a triunfar na Champions em anos seguidos por dois times diferentes.

Os outros são o zagueiro-volante francês Desailly (Olympique de Marselha-1993 e Milan-1994), o meio-campista português Paulo Sousa (Juventus-1996 e Borussia Dortmund-1997) e o zagueiro Piqué (Manchester United-2008 e Barcelona-2009).

Na temporada 2009/2010, Eto’o ainda conquistou o Campeonato Italiano, a Copa da Itália e o Mundial de Clubes.

Também registrou feitos pela seleção camaronesa – da qual é o maior artilheiro (56 gols) – que o colocam à frente de Milla, Weah e Drogba: dois títulos da Copa Africana de Nações (2000 e 2002) e o ouro olímpico em Sydney-2000, quando Camarões eliminou nas quartas de final o Brasil de Ronaldinho Gaúcho.

Eto’o foi ainda eleito quatro vezes pela Confederação Africana de Futebol o melhor jogador do continente (2003 a 2005 e 2010), ante três de Weah e duas de Drogba e Milla.

Escrito tudo isso, questiono: o craque egípcio Mohamed Salah, de 27 anos, atacante do Liverpool e mais badalado jogador africano há um par de anos, pode ser tão bom a ponto de se tornar melhor que Eto’o?

O que ele já fez/tem na carreira?

O egípcio Mohamed Salah atua pelo Liverpool diante do Napoli na Liga dos Campeões da Europa, no estádio San Paolo (Andrew Couldridge – 17.set.2019/Reuters)

Não muito, na comparação com Eto’o. Ganhou uma Champions League pelo Liverpool, neste ano, e dois troféus de melhor jogador da África (2017 e 2018).

Como profissional, Salah tem perto de 200 gols. Eto’o – que além de Barcelona e Internazionale atuou por Real Madrid (no início da carreira), Leganés, Espanyol, Mallorca, Anzhi (Rússia), Chelsea, Everton, Sampdoria, Antalyaspor (Turquia), Konyaspor (Turquia) e Qatar SC – marcou mais de 400.

Assim, percebe-se, o egípcio até aqui fez muito pouco para destronar até mesmo Drogba, quiçá Eto’o.

Algo então a favor dele? Sim. Está em plena atividade e em um dos melhores times do mundo na atualidade, o Liverpool, que é dirigido pelo alemão Jürgen Klopp, vencedor nesta semana do prêmio The Best, da Fifa, de melhor treinador do mundo em 2018/2019.

O excelente Salah, que não é mais um garoto (tem 27 anos), precisará brilhar intensamente, com muitos gols e conquistas relevantes, tanto pelo clube como pela seleção, nos próximos três ou quatro anos – depois, pela idade, seu rendimento tende a cair – para poder disputar em condições adequadas o título de melhor futebolista africano de todos os tempos com o sensacional Eto’o.

Em tempo 1: Pouca gente sabe, mas Eto’o tem no currículo um quarto título de Champions League, o da temporada 1999/2000, quando era jogador do Real Madrid. Ainda um teen (18 anos), jogou apenas 53 minutos na vitoriosa campanha. Mas, em entrevista ao jornalista espanhol Graham Hunter, da ESPN, à época em que defendia o Barcelona, o atacante citou essa conquista como uma das mais importantes de sua carreira.  

O atacante Obina, hoje aposentado, posa durante treino do Palmeiras (Almeida Rocha – 7.ago.2012/Folhapress)

Em tempo 2: E Manuel de Brito Filho, o Obina, mencionado no início deste texto, que fim levou? Teve seu último momento de brilho em 2014, quando defendeu o América-MG e anotou duas dezenas de gols. Depois foi para o futebol do Japão, onde sofreu com lesões e pouco atuou. Pendurou as chuteiras em agosto do ano passado, aos 35 anos.