Golear por 8 a 0 é muito, mas está bem longe de ser demais

O Manchester City, atual bicampeão inglês sob a batuta de Pep Guardiola, aplicou um sonoro 8 a 0 no Watford, no sábado (21), pelo Campeonato Inglês.

O resultado comprova a tremenda força ofensiva de uma equipe que tem no elenco, do meio para a frente, jogadores do quilate de Agüero (maior artilheiro da história do clube),  Sterling, De Bruyne, Bernardo Silva, Mahrez, David Silva, Gabriel Jesus e Sané – este último está lesionado.

Todos devidamente entrosados – nenhum deles chegou ao clube nesta temporada –, são capazes de criar um sem número de chances de gol a cada partida.

Não raro, e em um esquema no qual o time consegue manter a posse de bola por 60% do tempo, elas chegam a mais de 20 por jogo – nos primeiros seis jogos do atual Campeonato Inglês, a média de finalizações é de 21,7.

Na partida no Etihad Stadium, a arena do Man City, balançaram a rede o português Bernardo Silva (três vezes), o belga De Bruyne, o argentino Agüero, o espanhol David Silva, o argelino Mahrez e até o zagueiro argentino Otamendi.

O primeiro gol saiu com menos de 1 minuto e, aos 18 minutos, o placar já marcava 5 a 0 para o time que veste azul-celeste.

Essa vantagem, com tanto jogo pela frente, fez o goleiro do Watford, o experiente Ben Foster, de 36 anos, temer por um vexame de proporção gigante.

“Estava sendo uma carnificina, e eu pensei: ‘Meu Deus, poderão ser mais de dez’. As chances se multiplicavam diante dos nossos olhos. Fiquei feliz da vida quando fomos para o intervalo com 5 a 0. Poderia ter sido um placar de críquete.”

No críquete, esporte pouco praticado no Brasil, as equipes costumam fazer mais de 200 pontos por jogo.

Não seria para tanto, mas, felizmente para Foster e seus companheiros, o Man City não manteve o ritmo – se mantivesse, teria marcado 25 gols.

O goleiro do Watford, Ben Foster, fica desolado ao sofrer o sétimo gol, marcado por Bernardo Silva; o Man City ainda faria o oitavo (Phil Noble – 21.set.2019/Reuters)

Goleadas por cinco ou mais gols não são raridade para o Man City na era Guardiola. Citarei as mais recentes.

O mesmo Watford levou de 6 a 0 na final da Copa da Inglaterra, em maio deste ano. Nesse duelo, o goleiro não foi Foster, e sim o brasileiro Gomes.

O Schalke, da Alemanha, tomou de 7 a 0, pela Liga dos Campeões da Europa, em março, e o Chelsea, de 6 a 0 no Campeonato Inglês, em fevereiro. As vítimas em janeiro foram o Burnley (5 a 0 no Inglês), o Rotherham United (7 a 0 na Copa da Inglaterra) e o Burton Albion (9 a 0 na Copa da Liga Inglesa).

Ou seja, o 8 a 0 não foi nem o resultado mais dilatado do Man City sob o comando do espanhol, comprovadamente um dos melhores técnicos do mundo.

Na história, a goleada recorde do clube aconteceu no século 19: 12 a 0 no Liverpool Stanley, pela Copa da Inglaterra, no dia 4 de outubro de 1890.

Desse modo, um 8 a 0, apesar de saltar aos olhos e de não ser nada fácil de ser registrado, está muito distante de figurar entre as maiores goleadas vistas no futebol.

Questionei a Fifa a respeito do assunto, e a entidade respondeu não ter “o registro completo de todas as partidas”, podendo oferecer “apenas as dez maiores goleadas em competições da Fifa”.

A maior delas é uma acachapante vitória da Austrália sobre a Samoa Americana no dia 11 de abril de 2001: 31 a 0, pelas eliminatórias da Oceania para a Copa do Mundo de 2002, na cidade australiana de Coffs Harbour.

A Austrália goleou a Samoa Americana por 31 a 0 nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2002; clique e veja (Reprodução/YouTube)

Nos duelos entre clubes, vários veículos especializados em futebol relatam que o recorde pertence ao A.S. Adema, de Madagascar, que derrotou por 149 a 0 (isso mesmo, 149 a 0) o Stade Olympique L’Ermyne (SOE), pelo campeonato nacional do país, no dia 31 de outubro de 2002.

O curioso é que nenhum gol foi feito pelos atletas do Adema, que nem sequer tocaram na bola na partida. Todos os 149, média de 1,66 por minuto, foram contra.

Ordem do treinador Ratsimandresy Ratsarazaka, que decidiu dessa forma protestar em relação ao que ocorreu no jogo anterior do SOE, no qual o árbitro, ao marcar um pênalti supostamente inexistente contra o time, tirou-lhe a chance de conquistar o título.

Esse placar, 149 a 0, ganha disparado de qualquer outro.

A segunda maior goleada da história é recente. Ocorreu há pouco mais de três anos, no dia 23 de maio de 2016, na terceira divisão do Campeonato Equatoriano: Pelileo 44 x 1 Indi Native.

O artilheiro dessa partida foi Ronny Medida, com 18 gols.

A terceira maior goleada não é nada recente. Aconteceu no dia 12 de setembro de 1885, pela Copa da Escócia.

O time da casa, o Arbroath, massacrou o Bon Accord sem piedade: 36 a 0.

John Petrie, de 18 anos, balançou as redes 13 vezes, o mesmo número do australiano Archie Thompson no maior placar registrado pela Fifa – o mencionado 31 a 0.

Nesse 36 a 0, reporta o site londrino Tifo, o Bon Accord sofreu com a ausência de seu goleiro e de mais um integrante do time, que não apareceram para jogar.

Não havia reservas, e dois espectadores foram convidados para completar a equipe, tendo o zagueiro Andrew Lorne assumido a posição de guarda-metas.

O time do Arbroath que goleou impiedosamente o também escocês Bon Accord em 1885 (Reprodução/Site do Arbroath FC)

O incrível dá as caras quando a quarta maior goleada, também entre dois clubes escoceses, é apresentada: Dundee Harp 35 x 0 Aberdeen Rovers.

Por que incrível? Porque ela aconteceu no mesmo dia, no mesmíssimo dia, do 36 a 0 do Arbroath no Bon Accord.

Os relatos dão conta de que o árbitro de Dundee x Aberdeen, perdido em meio à avalanche de gols, anotou 37 para o Dundee, sendo entretanto corrigido pelo estafe do time vencedor, que contabilizara dois a menos.

Completa o top 5 das mais portentosas goleadas a da Austrália na Samoa Americana (31 a 0).

Voltando à Inglaterra, o Man City, com seu admirável 8 a 0, ficou muitíssimo distante da goleada mais elástica no país: Preston North End 26 x 0 Hyde FC, pela Copa da Inglaterra, no dia 15 de outubro de 1887.

No Brasil, consta que o Botafogo é o dono da vitória pela maior margem de gols em uma partida oficial. Trazem essa informação sites como Acervo da Bola e Campeões do Futebol, entre outros.

No dia 30 de maio de 1909, pelo Campeonato Carioca, o Fogão humilhou o Mangueira, 24 a 0, com nove gols do atacante Gilbert Hime.

Erramos: o texto foi alterado