Brasil é o único entre as grandes seleções a decepcionar na data Fifa

Esperava-se mais, muito mais, da seleção brasileira na data Fifa, a pausa nas competições de cada país para partidas de seus respectivos selecionados, que se encerrou nesta quarta (11).

Nos amistosos nos EUA contra Colômbia e Peru, um empate e uma derrota (2 a 2 e 1 a 0, respectivamente), o que se viu foi um futebol aquém, mas muito aquém do esperado pela equipe que há dois meses conquistou a Copa América. Decepcionante, sem dúvida.

Enquanto isso, as demais forças do futebol foram muito bem (ou pelo menos bem), obrigado. Pode-se asseverar que todas saíram contentes do período de pouco mais de uma semana em que estiveram reunidas.

Sem Messi, a Argentina empatou sem gols com o Chile e goleou o México por 4 a 0. Sem Suárez e sem Cavani, mas com De Arrascaeta, o Uruguai ganhou da Costa Rica (2 a 1) e empatou com os EUA (1 a 1).

Na Europa, em confrontos pelas eliminatórias da Eurocopa, França, Itália, Inglaterra, Espanha, Portugal, Holanda, Bélgica… todos ganharam os dois jogos disputados.

A Croácia, atual vice-campeã mundial, ganhou um e empatou outro. A Alemanha foi a única que perdeu, para a forte Holanda, recuperando-se três dias depois ao vencer a Irlanda do Norte fora de casa.

“Ah, mas o Brasil foi mal em amistosos, jogos que não valem nada, deixe de ser rígido”, dirá o leitor fleumático.

Não valem nada mesmo? Em termos.

Além de servirem para testar jogadores, o que o técnico Tite nem sempre faz (há convocados que jogam escassos minutos ou nem sequer entram em campo), eles deveriam mostrar se o time está evoluindo nos quesitos estratégia coletiva e rendimento individual.

Seleção brasileira antes do amistoso (2 a 2) com a Colômbia em Miami; futebol aquém do esperado para um time individualmente gabaritado (Michael Reaves – 6.set.2019/AFP)

Contra Colômbia e Peru, o Brasil não demonstrou capacidade mínima para envolver os rivais – claramente inferiores no papel –, permitindo-lhes inclusive se sentir donos das ações em vários momentos, especialmente os colombianos, que chegaram a estar vencendo o jogo por 2 a 1 até o Brasil achar a igualdade com Neymar.

Não se viu nesses dois amistosos a seleção brasileira fazer o básico para desmontar as sempre muito fechadas defesas adversárias. Nada de ultrapassagens dos laterais, nada de triangulações, nada de jogadas ensaiadas. Nada de nada.

Em relação aos jogadores escalados, com raras exceções (Casemiro e Richarlison, notadamente), o nível de técnica, de criatividade, de desempenho, de vontade, todos essenciais para uma performance digna, esteve baixíssimo.

Ao se vestir a camisa da seleção pentacampeã, cada um deles deveria atuar, do início ao fim, como se fosse a partida mais importante da vida, não interessa se vale taça, se vale pontos, se é por competição ou se é contra a arquirrival Argentina. Amistoso deveria ser encarado como final de campeonato.

Infelizmente, alguns pareciam estar ali só para fazer número, longe que estiveram do conhecido e inúmeras vezes enaltecido padrão de qualidade que lhes é peculiar. Cito nomes: Philippe Coutinho, Roberto Firmino, Alex Sandro, Marquinhos.

Daniel Alves e Neymar, sem brilho apesar da combinação para um gol, jogaram somente para o gasto. Podem render no mínimo 100% a mais do que renderam.

Menos badalados, o zagueiro Éder Militão, que falhou no gol do Peru (e já tinha falhado no gol do Panamá no 1 a 1 em março, também em lance de bola parada), e os volantes Fabinho e Allan mostraram-se claudicantes, parecendo-lhes pesada a camisa amarela.

O zagueiro Abram ganha de Militão e antecipa-se ao goleiro Ederson para fazer de cabeça Peru 1 x 0 Brasil, resultado final do amistoso nos EUA (Kevork Djansezian – 10.set.2019/AFP)

Em relação à tática, a responsabilidade é do treinador, que está lá justamente para isso. Escolher 11, dar uma camisa para cada um e dizer “vamos lá, vamos ganhar”, o Zagallo fazia e ainda poderia fazer, mesmo com quase 90 anos.

Se Tite não consegue elaborar uma ou duas jogadas que sejam para surpreender o oponente, vamos mal. Se nos treinos isso é planejado, mas na partida os atletas não executam, vamos igualmente mal.

Sobre as fracas atuações individuais, cabe da mesma forma a Tite a cobrança pela excelência (que lhe é tão cara no discurso), além de cada jogador fazer uma autoanálise rigorosa – não é aceitável perder do Peru e achar normal.

Atualmente, em plena vigência da época do “não tem mais bobo no futebol”, com seleções inferiores equilibrando duelos à base do preparo físico e de ferrolhos, o talento (o drible desconcertante, o passe milimétrico, a finalização inesperada) é definidor de partidas.

Talento no futebol o brasileiro tem, mais que os outros, é notório. Está no DNA. O que não se pode é permitir que ele adormeça. Pois, desacordado, vale tanto quanto a inépcia.