Ex-capitão da Holanda apimenta discussão sobre desigualdade salarial

“Para mim, é ridículo.”

Com essas palavras Frank de Boer, um dos melhores zagueiros que a Holanda e o mundo já tiveram, atualmente técnico do Atlanta United, dos EUA, resumiu sua opinião sobre homens e mulheres terem salários similares no futebol.

Lideranças femininas no esporte, especialmente na seleção norte-americana, que no mês passado ganhou pela quarta vez a Copa do Mundo (metade do total de edições), têm feito campanhas para que as mulheres sejam mais bem remuneradas e valorizadas.

“Se 500 milhões de pessoas, ou algo assim, assistem à final da Copa do Mundo [masculina], e 100 milhões veem a final feminina, há uma diferença. Então não é a mesma coisa”, declarou De Boer, capitão da Holanda no Mundial de 1998, em entrevista ao jornal The Guardian, da Inglaterra.

“Se fossem tão populares quanto os homens, chegariam lá, porque as rendas e a publicidade permitiriam. Mas não é assim, então por que têm que ganhar o mesmo? Considero ridículo e não entendo isso. É claro que elas merecem ser pagas pelo que elas merecem, não menos. Mas apenas pelo que realmente merecem.”

De Boer também deu a entender que as mulheres não fazem jus a serem igualmente remuneradas porque são menos fortes fisicamente.

“Penso que tudo começou [as reclamações das atletas] porque as mulheres estavam ganhando menos em posições administrativas. Se você tem um gerente em um banco ou algo assim, a mulher tem que receber o mesmo que o homem porque não há exigência física, apenas mental.”

Os dirigentes do futebol do país de De Boer, entretanto, pensam diferente.

A federação local já assegurou que as holandesas, que se sagraram vice-campeãs mundiais neste ano, terão a mesma remuneração que os holandeses no período em que defenderem a seleção.

Não será já, mas a promessa é a de que até 2023, com aumentos paulatinos, ano a ano, os ganhos sejam equivalentes.

Nos EUA, as jogadoras da seleção, incluindo as estrelas Megan Rapinoe, Alex Morgan e Carli Lloyd, entraram com uma ação judicial contra a federação norte-americana, alegando discriminação de gênero devido à diferença de tratamento, não apenas salarial mas também nas condições de trabalho.

Justificam, além disso, que a seleção feminina é mais vitoriosa que a masculina – o que é verdade, já que os norte-americanos, em Copas do Mundo, chegaram no máximo às quartas de final, em 2002.

Houve a instauração de um processo de mediação, que, no entanto, fracassou, escancarando ainda mais a contenda entre as partes. Um tribunal federal deverá decidir quem está com a razão.

As declarações de De Boer, divulgadas por veículos de comunicação de grande alcance nos EUA (The New York Times, USA Today e ESPN, entre outros), não repercutiram bem, resultando inclusive na reação do presidente do Atlanta United.

“Quero deixar claro que essa é uma opinião particular de Frank e não reflete a posição do clube”, declarou Darren Eales a uma rádio da cidade. “Ele usou a palavra ‘ridículo’, que ocupou as manchetes, de forma imprópria. Como o inglês é seu segundo ou terceiro idioma, às vezes suas palavras são mal interpretadas. De todo modo, ele foi imprudente e terá que se explicar.”

E foi o que De Boer tentou fazer, depois de certamente ter tomado um sonoro pito de seus superiores.

Por meio de um comunicado no diário Atlanta Journal-Constitution, buscou explicar o que, para muitos (eu entre esses), não era mais explicável.

“Em um contexto completo, minha posição é a de respeitar e apoiar totalmente o futebol feminino. Estou empolgado com seu crescimento, tanto nos EUA como internacionalmente. Acredito que, em relação ao lado financeiro, como a popularidade continua em ascensão, isso levará a uma receita maior e a maiores salários para elas, o que é fantástico e é o que todos queremos ver.”

De Boer por enquanto continua empregado no Atlanta United, até porque seria complicado demitir por declarações tidas como politicamente incorretas alguém que acaba de conduzir o time à conquista de um campeonato – venceu por 3 a 2 o América do México na quarta (14) para faturar a Copa dos Campeões, jogo entre o campeão da MLS (Major League Soccer) e o supercampeão mexicano.

Só é recomendável não dar muito as caras nas ruas, pois a população de Atlanta – se não toda, a feminina sem dúvida – não distribuirá sorrisos a ele, e sim miradas e vocábulos de reprovação.

Frank de Boer reclama durante jogo da Inter de Milão; ele dirigiu o time italiano por três meses, três anos atrás (Giuseppe Cacace – 21.ago.2016/AFP)

Em tempo: Como treinador, Frank de Boer tenta reeditar no Atlanta United o sucesso que teve no Ajax, pelo qual foi tetracampeão do Campeonato Holandês (2011 a 2014). Nos outros clubes que comandou, Inter de Milão (2016) e Crystal Palace (2017), naufragou de forma retumbante, sendo demitido de ambos por maus resultados – na equipe inglesa, durou irrisórios cinco jogos, com uma vitória e quatro derrotas.