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Argentina está de luto pela morte de Brown, e eu também

Só há uma certeza na vida: a morte. Para mim, para você e para todos, é 100% garantido, um dia ela virá.

Na noite desta segunda (12), ela veio para José Luis Brown, aos 62 anos, vítima de Alzheimer, uma doença degenerativa.

Quem nasceu há mais de 40 anos e é muito fã de futebol está de luto. Eu me incluo nesse rol.

Lembro-me vivamente de Brown por ter formado com Ruggieri a zaga da Argentina na Copa do Mundo de 1986, no México.

Foi a segunda Copa que acompanhei atentamente, depois da de 1982, na Espanha.

Aos 13 anos, torci pelo Brasil intensamente – o time de Telê Santana era muito bom, com Sócrates, Júnior, Careca, o capitão Edinho, Müller, Alemão e o surpreendente Josimar – até a injusta queda nas quartas de final, nos pênaltis, para a França.

Superada a decepção, a simpatia passou a ser pela Argentina, por ser o sul-americano vivo na competição e por ter o genial Diego Maradona, que brilhava fazendo até gol de mão – o famigerado VAR (árbitro assistente de vídeo) era um recurso impensável à época.

Na final, Argentina x Alemanha Ocidental, no lendário estádio Azteca, mesmo palco de Brasil 4 x 1 Itália na decisão da Copa de 1970, eu só não vesti a camisa alviceleste porque não tinha uma.

E vibrei quando ele, o zagueirão Brown, camisa 5 às costas, depois de uma saída bisonha do goleiro Schumacher em falta batida por Burruchaga, antecipou-se a Maradona (meio que atropelou El Diez, que caiu) e cabeceou firme para as redes, fazendo 1 a 0.

Correu para o canto esquerdo do campo, ajoelhou-se, ergueu as mãos e levou-as ao rosto antes de ser festejado pelos companheiros. Ainda beijou a bola, levada até ele pelo lateral Cuciuffo (que a pegou dentro do gol alemão), para depois retornar para sua posição.

A capa do caderno Folha da Copa, do dia 30 de junho de 1986, destaca a comemoração de Brown ao abrir o placar para a Argentina contra a Alemanha na final na Cidade do México (Reprodução)

O primeiro a abraçar Brown depois do gol, o volante Batista, soube da notícia da morte de Brown ao vivo, durante um programa esportivo, e não conteve as lágrimas, em cena emocionante. Abalado, teve que deixar a mesa de debates.

Maradona, que passou por recente cirurgia no joelho direito e está em recuperação, registrou suas condolências em uma rede social.

“Sentiremos muito sua falta, Tata [apelido de Brown]. Não sabe o quanto eu lamento, irmão. Nós, que desfrutamos sua amizade, nunca vamos esquecer. Fez um gol na final de um Mundial, jogou com o ombro deslocado, e sabe o quanto significa uma Copa. Descanse em paz.”

Maradona faz homenagem a Brown, seu companheiro na Copa do Mundo de 1986, em rede social (Reprodução/Instagram de Diego Armando Maradona)

No segundo tempo da final contra a Alemanha, em um choque com Norbert Eder na área argentina, Brown levou a pior e deslocou o ombro direito.

Isso aos 4 minutos do segundo tempo, com muito jogo pela frente. O médico examinou-o e queria que ele fosse substituído, mas o zagueiro se recusou.

“O bíceps, a articulação, era uma dor insuportável. Mas eu disse ao doutor: nem pense em me tirar, ou te mato”, declarou Brown em mais de uma entrevista.

Ele fez um furo com os dentes na frente da camisa, colocou o polegar nele, improvisando uma espécie de tipoia para o braço, e prosseguiu até o fim do confronto, dificílimo, vencido pela Argentina por 3 a 2.

Ídolo do Estudiantes de La Plata, pelo qual foi campeão em 1982 (Campeonato Metropolitano) e em 1983 (Campeonato Nacional), Brown era visto com desconfiança pela imprensa de seu país no início da Copa, quando foi incumbido pelo técnico Carlos Bilardo de substituir o consagrado Daniel Passarella, afastado devido a uma úlcera no estômago.

Jogou todos os minutos de todos os jogos, tendo encerrado a final, afora o ombro estropiado, manquitolando devido a uma pancada na canela.

A Argentina, invicta (seis vitórias e um empate), sagrou-se bicampeã mundial, e Brown tornou-se aos 29 anos um dos heróis da história das Copas do Mundo, sendo o primeiro dos dois únicos zagueiros a fazer gol na final – o outro é o italiano Marco Materazzi, em 2006.

Foi seu único gol pela Argentina. Solitário, porém eterno.

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