Tite e o jogo dos sete erros

“Quando não se faz gol, parece que está tudo errado.”

O experiente zagueiro Thiago Silva, titular da seleção brasileira, tentou minimizar, em entrevista à TV Globo, o frustrante 0 a 0 com a Venezuela, em Salvador, pela segunda rodada da Copa América.

Em outros tempos, não tão distantes assim, era praxe o Brasil derrotar com imensa facilidade a Venezuela.

De 1969 a 2005, houve 17 duelos entre as seleções principais dos dois países, com 17 vitórias brasileiras, incluindo um 7 a 0, quatro 6 a 0 e três 5 a 0.

Desde então, em oito confrontos, foram quatro vitórias do Brasil, três empates e um inédito triunfo venezuelano.

Pode-se recorrer ao velho chavão “não há mais bobo no futebol”, e é fato que o jogo da Venezuela evoluiu neste século.

Mas é fato também que não fazer gol na seleção vinho tinto (alusão à cor da camisa) deixa mesmo a impressão de que está tudo errado.

E está? Não, mas é preciso cuidado para que essa impressão não se torne constante.

Na sexta-feira (14), no Morumbi, diante da Bolívia, seleção tão ou mais limitada que a da Venezuela, o Brasil teve muita dificuldade para furar a retranca vestida de verde.

Conseguiu abrir o placar somente depois de um pênalti assinalado com a ajuda do VAR (árbitro assistente de vídeo), e o 3 a 0 foi consolidado com um belo gol de um inspirado Everton Cebolinha.

Na Bahia, o mesmo VAR atuou contra o Brasil, que teve dois gols anulados por impedimento no segundo tempo – corretamente, no meu entendimento – pelo árbitro de campo, o chileno Julio Bascuñán, após a revisão dos lances pela equipe de videoarbitragem.

Com a tecnologia implantada e cada vez mais consolidada (inclusive a demora insuportável nas verificações), fica-se sujeito a isso, a mudanças nas marcações, que na Arena Fonte Nova significaram decepção para os torcedores e para o locutor Galvão Bueno.

A impressão de estar tudo errado deve-se muito às atitudes de Tite, o treinador da seleção, que a meu ver contribuíram para que o Brasil não fosse mais capaz ofensivamente – leia-se fazer gols.

Foram pelo menos sete erros, na minha análise.

Primeiro: não começou com Everton Cebolinha, o cara do momento depois do golaço em São Paulo contra os bolivianos.

Segundo: tirou no intervalo Richarlison, que fazia boa partida atuando pela ponta direita. O atacante mostrava-se agressivo (no sentido de partir para cima da defesa adversária) e objetivo (obrigou o goleiro Fariñez a fazer defesa difícil, o que ninguém mais conseguiu).

Terceiro: ao tirar Richarlison, não pôs Everton Cebolinha, mas Gabriel Jesus.

Quarto: colocou Gabriel Jesus para atuar na esquerda, sendo sabido que ele rende mais como centroavante, pois adora finalizar; na ponta, fica mais longe do gol.

Gabriel Jesus, centroavante de ofício, jogou na ponta esquerda ao substituir Richarlison no segundo tempo da partida contra a Venezuela, pela Copa América, na Arena Fonte Nova (Rodolfo Buhrer – 18.jun.2019/Reuters)

Quinto: precisando agredir mais o adversário, queimou a segunda substituição com a entrada de Fernandinho (um volante) no lugar de Casemiro (um volante). Seis por meia dúzia. Fazendo isso, não teria mais como colocar em campo dois homens ofensivos (havia, além de Everton Cebolinha, Lucas Paquetá e Willian como opções), mas apenas um.

Sexto: ao enfim dar chance a Everton Cebolinha, depois de a torcida gritar o nome do gremista, isso com mais da metade do segundo tempo percorrida, tirou David Neres, que fora deslocado da esquerda para a direita do ataque. Parecia óbvio que quem deveria sair era Roberto Firmino, em noite nada inspirada – teve ainda o azar de ser o “culpado” nos dois gols anulados do Brasil.

Sétimo: sem Neres nem Richarlison, a seleção ficou totalmente torta, atacando apenas pela esquerda, com Everton Cebolinha, especialmente, e participações de Philippe Coutinho – outro que jogou mal – e Gabriel Jesus. Tornou o time mais previsível.

Escrevo sem saber as razões das trocas, provavelmente Tite tem explicações para todas, porém duvido que sejam 100% convincentes.

Nesse cenário, a torcida baiana foi até muito complacente ao emitir apenas algumas vaias em sinal de reprovação à equipe e ao treinador.

Se o jogo tivesse sido realizado em uma praça com torcedores mais exigentes/impacientes, Tite teria sido tachado de “burro”, em uníssono, ao lançar Fernandinho.

Agora sob desconfiança, o Brasil volta a jogar no sábado (22), contra o Peru, regressando a São Paulo para decidir seu futuro na competição.

Será no Itaquerão, estádio do Corinthians, palco querido por Tite, ex-treinador da equipe alvinegra.

Porém os paulistanos costumam ser bem pouco tolerantes com um futebol pouco efetivo e com decisões duvidosas em relação à escalação.

Tite precisa até lá rever conceitos (não só na escalação mas também taticamente, pois o Peru, algoz da seleção na Copa América de 2016, jogará igualmente retrancado) e tratar de impedir que a impressão de estar tudo errado deixe de ser uma mera impressão.

É necessário enxergar algumas obviedades, ou há enorme risco de ser escrachado pela pauliceia.