Em que posição Tite escalará Neymar na Copa América?

A Copa América, que será disputada apenas pela quinta vez no Brasil – as anteriores foram em 1919, 1922, 1949 e 1989 –, aproxima-se (começa daqui a 20 dias), e uma pergunta a ser feita é: “Em que posição Tite escalará Neymar?”.

Problemas comportamentais recentes à parte, como o soco que deu em um torcedor e as críticas feitas aos jovens do Paris Saint-Germain depois da derrota na final da Copa da França, o camisa 10 é, não de hoje, o melhor jogador que o treinador tem à disposição.

Recuperado da segunda lesão no intervalo de um ano no quinto metatarso do pé direito, Neymar é tido como peça essencial para que o Brasil não passe pela decepção de pela primeira vez não ganhar a Copa América em casa.

O questionamento em relação à posição dele em campo deve-se ao fato de nesta temporada o treinador do PSG, o alemão Thomas Tuchel, tê-lo situado não na ponta esquerda, como atuou em quase toda a carreira, mas como um meia-atacante.

Nessa função, Neymar jogou mais centralizado e constantemente recuou até o meio-campo para receber a bola de um volante ou de um lateral e decidir o que fazer.

Sabedor de sua habilidade, e confiante nela, optou várias vezes pela jogada individual, por “partir para cima” – o que não é novidade, já era assim antes. Mas passou a alternar essa opção com a de armar o jogo.

Os que as estatísticas mostram?

Que a mudança de posição resultou em uma redução tanto na quantidade de dribles como na de faltas sofridas pelo atacante.

Na sua primeira temporada pelo PSG (2017/2018), Neymar driblou, em média, 7,1 vezes por partida no Campeonato Francês e foi parado com falta 5,2 vezes, de acordo com o site WhoScored.

Em 2018/2019, esses números caíram para 4,4 dribles e 3,4 faltas.

Ou seja, como meia-atacante Neymar conseguiu prender menos a bola, o que se comprova pela redução nas fintas, e, consequência disso, ser menos caçado pelos adversários.

Paralelamente, tendo assumido um papel de condutor das empreitadas ofensivas, era de se esperar que Neymar fosse menos artilheiro e mais assistente. Não ocorreu, configurando-se um paradoxo.

Em 2017/18, ele marcou 19 gols em 20 jogos no Francês; em 2018/19, fez 15 em 17 – perto de um gol por partida nas duas temporadas.

As assistências, no entanto, diminuíram quase pela metade, de 13 para 7. A média caiu de 0,65 passe para gol por partida para 0,41.

Minha explicação: Neymar, agora centralizado, recebe a bola longe do gol, avança com ela o necessário para “abrir” a defesa rival, a entrega a um companheiro em uma das pontas e corre para a área.

É esse colega (Di María, Daniel Alves, Draxler) quem dá o último passe para o gol (geralmente de Mbappé, de Cavani e do próprio Neymar).

Antes ponteiro, Neymar recebia a bola e, seguindo pela ponta ou fechando para o meio, buscava a finalização, tentando enfileirar com dribles os marcadores. Quando não dava para chutar, era ele o cara da assistência – para, via de regra, Cavani ou Mbappé.

Neymar comemora com Philippe Coutinho gol contra o México na Copa da Rússia; os dois podem inverter suas posições na seleção na Copa América (Eduardo Knapp – 2.jul.2018/Folhapress)

Na seleção, como Neymar é titularíssimo, há espaço para que ele:

– jogue no meio, tendo à frente Richarlison (ou David Neres) na ponta direita, Firmino (ou Gabriel Jesus) como centroavante e Philippe Coutinho (ou Everton) na ponta esquerda;

– jogue na ponta esquerda, como na Copa de 2018, com Coutinho sendo o terceiro homem de meio-campo.

Eu tenho a convicção de que Neymar gostou de jogar como meia-armador-atacante, por ter mais a bola nos pés, e que indicará a Tite que é ali que ele quer atuar.

Particularmente, prefiro Neymar na ponta, onde brilhou no Santos e no Barcelona.

Mas não para pegar a bola longe do gol e ter de recorrer aos dribles contra dois ou três rivais, que irão derrubá-lo sempre que conseguirem.

E sim para receber um ótimo passe que o deixe no “um contra um” – situação que, para ser viabilizada, precisa ser muito bem treinada.

No mano a mano, Neymar é um dos melhores do mundo. Estando no mano a mano perto do gol, então, é batata que vai sair coisa boa.

Análise feita e opinião dada, não há resposta imediata para a pergunta do início deste texto.

Serão os treinos em Teresópolis e os amistosos em Brasília (contra o Qatar, no dia 5) e em Porto Alegre (contra Honduras, no dia 9) que a darão.

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