O fair play é bonito, mas não deve ser banalizado

Aconteceu em Leeds United x Aston Villa, jogo da reta final da disputadíssima Championship, a divisão de acesso do futebol inglês.

Era uma partida, a de domingo (28), bastante importante, entre duas equipes de muita camisa que estão na luta para regressar à Premier League.

Com uma vitória, o Leeds manteria a chance de chegar em segundo lugar na Championship, posição que assegura o acesso direto, sem a necessidade de jogar um quadrangular, que oferta a terceira e última vaga e cujos participantes são o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto colocados na tabela.

Na metade do segundo tempo, 0 a 0 no placar, em uma dividida no meio-campo, Jonathan Kodjia, do Aston Villa, ficou no chão. O árbitro Stuart Attwell não viu falta e deixou o jogo prosseguir.

Os companheiros de Kodjia então ergueram as mãos, pedindo com insistência ao Leeds, que estava com a bola, que a colocasse para fora, exercendo o chamado fair play (jogo limpo), para que o marfinense pudesse se restabelecer.

Até porque minutos antes o Aston Villa havia feito isso para que Forshaw, do Leeds, fosse atendido.

Pareceu que isso ocorreria. Mas Roberts decidiu dar sequência à jogada e acionou Klich na ponta esquerda.

O polonês invadiu a área e chutou no canto do goleiro Steer: Leeds 1 a 0.

Imediatamente, grande confusão estabeleceu-se. Três ou quatro atletas do Aston Villa confrontaram Klich, com empurrões. Outros mantiveram discussões acaloradas, com pequenos embates físicos.

O entrevero verbal estendeu-se aos bancos de reservas, até o ponto em que Marcelo “Loco” Bielsa, o argentino que treina o Leeds, determinou, mesmo que parecesse discordar: se acham que faltou fair play, que abram caminho para que empatem a partida.

Decisão corajosa. Jogo decisivo, vitória necessária, mais de 36 mil torcedores no estádio Elland Road, a maioria absoluta do Leeds.

Jogo reiniciado no círculo central, Adomah avançou com a bola, passando sem problemas entre os jogadores do time da casa, que pareciam bastante desconfortáveis. Até que ocorreu uma cena imprevista.

O zagueiro sueco Jansson, ou por não ter entendido a mensagem de Bielsa ou por se contrapor a ela, tentou obstruir a passagem do ganense. Não conseguiu, e a bola acabou nas redes: 1 a 1.

Esse foi o resultado final, que alijou do Leeds a chance de acesso direto – ficará atrás de Norwich e Sheffield United.

Jogadores do Leeds dão sequência ao jogo, ignorando pedidos de fair play do Aston Villa; veja esse e outros lances da partida (Reprodução/Leeds United TV)

Contada a história, fica a ponderação: fair play ou não fair play, eis a questão.

Ele não existe na regra, então ninguém tem obrigação de jogar a bola para fora para que o adversário seja atendido.

É um gesto de gentileza, que deveria ser muito bem dosado – afinal, o jogo de futebol é um confronto no qual cada lado defende suas cores, não é uma confraternização de amigos –, mas que se tornou uma banalização.

Não deveria. Cabe ao árbitro, e somente a ele, avaliar se há necessidade de paralisar o jogo. Caso constate que houve uma contusão grave – dificilmente isso não é percebido –, ele ergue os braços, interrompe a partida e aciona os médicos. Do contrário, o jogo tem que seguir.

Até porque, na minha percepção, de cada cinco vezes que alguém cai no chão após contato com um rival, em quatro não é nada.

Geralmente o cara que fica lá quer ganhar tempo, pois o resultado de momento é bom para sua equipe. Basta ele ver que o jogo não foi interrompido para rapidamente se colocar de pé e voltar a correr.

Assim, eu defendo que cabe ao time do atleta que estaria contundido se apressar em parar o jogo, tomando a bola do oponente (há inclusive o recurso da falta para isso) e colocando-a para fora do campo, em vez de suplicar ao adversário que o faça.

Fair play é bacana, é bonito, houve vários exemplos famosos no futebol que são enaltecedores. Mas, convenhamos, caminhou para o trivial – andança que pode levar, facilmente, ao descrédito.

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Em tempo: Classificados para o quadrangular da Championship, Leeds e Aston Villa podem em breve se reencontrar. Aí, com a animosidade recente, quero ver se haverá fair play.