Pontaria ruim é decisiva para seleção de Tite ser decepcionante

“Contra o Panamá, [o Brasil] jogou mal e empatou. A projeção e a expectativa do técnico era jogar bem e vencer.”

Com essas palavras, na véspera do amistoso desta terça (26), às 16h45 (de Brasília), em Praga, contra a República Tcheca, o treinador da seleção brasileira, Tite, quis “deixar claro”, nas palavras dele, a conclusão que tirou do 1 a 1 diante do Panamá, dois dias antes.

Todos que assistiram a essa partida, imagino, tiveram a sensação de que o Brasil foi muito mal, inclusive eu.

Empatar com o Panamá, que apesar de ter estado na Copa do Mundo da Rússia – fez nela sua primeira participação em um Mundial, assim como a Islândia – é uma seleção repleta de limitações, soa como um vexame para o país pentacampeão mundial.

A mídia nacional não perdoou e recorreu a adjetivos como “tropeço” e “fiasco”, em relação ao resultado, e “apático” e “decepcionante”, em referência à seleção.

Philippe Coutinho, em especial, foi bastante criticado – e é verdade que o meia-atacante, desde que trocou o Liverpool (onde era chamado de Pequeno Mágico) pelo Barcelona, no começo do ano passado, caiu demais de produção.

Mas, passadas algumas horas, analisando-se com mais frieza esse amistoso e levando-se em consideração os números, é injusto afirmar que o Brasil jogou tão mal quanto propagado.

Pelas estatísticas da BBC, a equipe de Tite teve 78% da posse de bola (mais do que costuma ter o Mancheter City de Pep Guardiola), 12 escanteios a favor (contra um dos panamenhos) e 17 finalizações (o rival, um terço disso).

Tite, insatisfeito no amistoso contra o Panamá; o Brasil domina e cria chances, mas a bola teima em não entrar (Pedro Nunes – 23.mar.2019/Reuters)

O domínio da seleção canarinha foi escancarado. O Panamá, e não há surpresa nenhuma nisso, só se defendeu, vivendo de contra-ataques esporádicos e bolas espirradas.

O gol da equipe centro-americana saiu de uma falta, na qual a bola, lançada na área, foi desviada de cabeça para as redes de Ederson. Havia impedimento (por centímetros, e por isso difícil de ser marcado), a arbitragem não viu. Acontece.

O erro do Brasil nesse lance foi fazer a chamada “linha burra” – que dispensa explicação – sabendo que a partida não tinha o VAR (árbitro de vídeo).

Levar um gol do Panamá, ainda mais constatando-se depois que o autor, o zagueiro Machado, estava em posição irregular, não é nenhum horror.

O horror para a seleção está, e abordei isso anteriormente, na falta de competência nos arremates a gol.

Repetindo: o Brasil finalizou 17 vezes contra a meta defendida por Mejía. Somente quatro tiveram a direção correta – a do gol, de Lucas Paquetá, foi uma delas. As demais, ou bateram no travessão (duas vezes) ou foram para fora.

Firmino errou, Richarlison errou, Arthur errou, Coutinho errou, Fágner errou, Casemiro errou, Militão errou… Com a cabeça ou com os pés, a mira não estava boa.

O volante Arthur teve boa atuação na armação e na marcação diante dos panamenhos, porém chutou para fora suas duas tentativas a gol (Miguel Riopa – 23.mar.2019/AFP)

Quando se fala em pontaria, é necessário analisar os porquês de ela ser (ou estar) ruim.

O primeiro motivo é óbvio: é necessário mais precisão, mais capricho, dos jogadores de primeiríssimo nível que são os da seleção. Eles têm que ter um aproveitamento maior.

O segundo é não tão óbvio: as conclusões a gol, quase todas, ou foram de longa distância ou em jogadas com os rivais marcando em cima, no corpo a corpo.

Isso é um problema. O Brasil não conseguiu dar um jeito de entrar na retranca panamenha de modo que seus atletas ficassem em condições claras de sucesso.

O fato é que, sem transformar quantidade em qualidade (e qualidade aqui significa gols), a seleção voltará a correr o risco de tropeçar mesmo sendo superior.

A eliminação nas quartas de final da Copa de 2018, contra a Bélgica (2 a 1), é o maior exemplo a ser recordado. Foram 26 tentativas a gol do Brasil, e 17 (65%) não tiveram o endereço certo.

Diante do Panamá, a porcentagem de erro bateu em 76%. É muito alta.

Assim, terminando este texto comentando seu início, discordo do que afirmou Tite: o Brasil não deixou de vencer o Panamá porque jogou mal; deixou de vencer porque finalizou mal.

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Em tempo: Além de Philippe Coutinho, Firmino e Gabriel Jesus (que entrou no segundo tempo) não foram nada bem contra o Panamá. O resto do time até que agradou, em especial  Richarlison, pela impetuosidade, sem medo de partir para cima, com dribles, dos adversários. Coletivamente e individualmente, todavia, faltou (muitíssima) criatividade.