Messi escancara o que o diferencia de Cristiano Ronaldo

Aos 31 anos, Messi fez contra o Betis, no domingo (17), um dos gols mais bonitos de sua carreira profissional.

Com dois tentos dele e um de Suárez, o Barcelona ganhava o duelo contra o Betis pelo Campeonato Espanhol, em Sevilha, por 3 a 1, no segundo tempo, faltando cinco minutos para o fim do tempo regulamentar.

O jogo estava controlado, “ganho” (como muitos gostam de dizer, às vezes precocemente). Não era, entretanto, motivo suficiente para Messi desacelerar.

Com a bola dominada perto da meia-lua da área do Betis, em movimento, como ele costuma quase sempre estar ao ter a posse dela, Messi serviu Rakitic na esquerda.

O croata então usou o pé esquerdo duas vezes. Amorteceu a bola com um toque e a rolou de volta para o capitão do Barça.

Messi, já dentro da grande área, fez o que ninguém esperava – pois o esperado era uma pancada. Deu uma cavadinha, dali mesmo, de bem longe para uma cavadinha.

A bola, em curva, viajou por dois segundos. Foi o tempo necessário para encobrir o goleiro Pau López e, já em queda, tirar uma casquinha do travessão antes de morrer (de alegria) nas redes.

Pau López se estica para tentar evitar o gol por cobertura de Messi; veja os gols da partida (Reprodução/La Liga TV)

Braços abertos, uma marca sua ao festejar gols, Messi celebrou sem efusividade, como se tivesse feito algo trivial. Não fez.

Tanto que o jovem zagueiro Lenglet, de 23 anos, em sua primeira temporada no Barcelona, imediatamente após o gol levou as mãos à cabeça, talvez pensando, incrédulo: “O que esse cara acaba de fazer?!”.

Tanto que a torcida rival, em atitude rara no futebol, embasbacada com o que acabara de presenciar, levantou-se e curvou-se ao argentino, literalmente – reverenciado, teve o nome gritado e foi aplaudidíssimo.

Tanto que a mídia esportiva destacou, a Folha inclusive, a obra de arte do camisa 10, cinco vezes eleito o melhor do mundo.

Para a ESPN, o poeta, músico e jornalista Musa Okwonga escreveu que Messi é interestelar. Se ele quis dizer que o craque “se situa entre as estrelas”, no sentido de ser uma delas, a definição é mais que perfeita.

É esse tipo de gol, aliás, que diferencia Messi do outro grande nome do futebol neste século, Cristiano Ronaldo.

O gol por cobertura no estádio Benito Villamarín, uma pintura para ser vista e revista, mostra com exatidão o que Messi foi, o que Messi é, e o que Messi possivelmente será até o fim da carreira: magia.

Quando a bola chega a ele (e chega muito, parece que o procura; mas na verdade são os companheiros de time que sabem a quem procurar), pode-se esperar maravilhas.

Com ela grudada nos pés, arrancadas recheadas de dribles, sempre em direção ao gol, que culminam em uma finalização precisa ou em um passe açucarado. Regozijo para os olhos.

Não entro na discussão se essa qualidade (a magia) faz de Messi mais jogador que Cristiano Ronaldo – talvez um dia eu, que reluto em fazê-lo, crie coragem para elaborar essa comparação.

Sem contabilizar gols e títulos, restringindo-me à observação, o CR7, também eleito cinco vezes o melhor do mundo, é tão extraordinário quanto a Pulga. Em outro estilo.

Uma palavra para definir Cristiano Ronaldo? Explosão.

Apenas cinco dias antes do sensacional gol de Messi, o português de 34 anos teve uma das mais memoráveis atuações de sua carreira.

Em Turim, contra o Atlético de Madri, a Juventus precisava reverter o placar desfavorável de 2 a 0 da partida de ida das oitavas de final da Champions League.

Ganhou por 3 a 0. Com três gols de Cristiano Ronaldo.

Contratado a peso de ouro do Real Madrid (€ 100 milhões), em busca de um novo desafio na reta final da carreira, ele, como dizem, “entregou” o que dele se esperava, e quando era mais necessário.

Mostrando em dois dos gols, os dois primeiros, ambos de cabeça, a mencionada definição.

A impulsão, o ímpeto, a potência, a energia, a vontade… Esses elementos combinados, inerentes a ele em todo instante em que ataca, ávido sempre pelo gol, fazem do CR7 uma explosão viva e vívida.

Até mesmo quando faz um gol lindíssimo, a exemplo do que fez Messi, Cristiano Ronaldo mostra essa característica.

Assim foi pelo Real Madrid, contra a Juventus que hoje defende, ao marcar de bicicleta no primeiro semestre do ano passado – oportunidade, vale lembrar, na qual teve seu momento de ovação da torcida adversária. Mesmo na jogada plástica, ele finaliza com vigor, impiedoso.

E suas comemorações? Via de regra, ardorosas, como se pusesse para fora uma fúria de entusiasmo que estava aprisionada em seu peito.

Relembre o gol de bicicleta de Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid contra a Juventus, seu atual time (Reprodução/Uefa TV)

Fica ao gosto do freguês: Cristiano Ronaldo é força; Messi é jeito.

Ambos, inconteste, entre os melhores da história.