Seleção de Tite, no papel, é torta para a esquerda no ataque

Na semana passada, Tite convocou a seleção brasileira para os amistosos deste mês contra o Panamá (dia 23, no Porto) e a República Tcheca (dia 26, em Praga), que servirão de testes para definir os jogadores que disputarão a Copa América no Brasil, em junho e julho.

Chamou-me a atenção a ausência de um atacante, ou meia-atacante, que esteja habituado a avançar, a agredir (com dribles e arrancadas), os adversários pela direita.

Nas três listas anteriores, o treinador incluiu em duas Willian (Chelsea) e/ou Douglas Costa (Juventus), que estiveram na Copa do Mundo da Rússia, no ano passado. Ambos, o primeiro destro, o segundo canhoto, jogam (e geralmente bem) por esse setor do campo.

Agora, Tite optou por meia dúzia que atua quase sempre, em seus respectivos clubes, do lado esquerdo.

Philippe Coutinho joga pela esquerda no Barcelona (Pau Barrena – 6.fev.2019/AFP)
Lucas Paquetá joga pela esquerda no Milan (Waleed Ali – 16.jan.2019/Reuters)

São eles: Philippe Coutinho (Barcelona), Felipe Anderson (West Ham) e Lucas Paquetá (Milan), mais recuados, alternando a armação com a chegada na área; Everton (Grêmio), Richarlison (Everton) e Vinicius Junior (Real Madrid), mais avançados, abertos pela ponta.

Teoricamente, isso causaria um desequilíbrio na equipe, que teria de ser corrigido com improviso.

Tite tem por hábito escalar a seleção em um 4-3-3, sendo o ataque formado por um atacante pela direita, um pelo centro e um pela esquerda. Na Copa, foram Willian (ou Douglas Costa), Gabriel Jesus (ou Roberto Firmino) e Neymar (sempre).

Assim sendo, nos próximos amistosos, a não ser que modifique a formação tática, ele terá de adaptar um dos citados à ponta direita.

Pode ser Coutinho, que já jogou nessa função com Tite. No Mundial russo, porém, ele foi meio-campista pela esquerda, ao lado de Paulinho, que atuou mais pela direita, e à frente de Casemiro ou Fernandinho (este no jogo da eliminação, diante da Bélgica).

Pode ser Richarlison, que às vezes cai pela direita na equipe azul de Liverpool, pode ser Felipe Anderson, outro que defende um clube inglês – neste caso, de Londres.

Richarlison joga pela esquerda no Everton (David Klein – 9.fev.2019/Reuters)
Felipe Anderson joga pela esquerda no West Ham (Ian Kington – 12.jan.2019/AFP)

Paquetá, Everton e Vinicius Junior, mesmo os dois últimos sendo destros (como também são Coutinho, Richarlison e Felipe Anderson), têm pouquíssimas incursões pela direita do ataque.

Menos provável, mas não impossível, é Gabriel Jesus, que sempre rendeu muito mais como atacante centralizado, ser inserido na ponta.

Elencadas as alternativas, mesmo que haja alguns treinos antes das partidas (são sempre poucos, dois ou três), é bem possível que qualquer um que seja deslocado para a nova posição não se sinta confortável.

Consequência? A chance de o rendimento desse jogador cair aumenta. Consequência dessa consequência? A chance de o rendimento da seleção cair aumenta – tudo o que Tite, na busca obsessiva e incessante por desempenho, não quer.

No entanto, pode ser que o acaso “corrija” a falta de um ponta-direita na seleção.

Vinicius Junior machucou, sozinho, o tornozelo em Real Madrid 1 x 4 Ajax, na terça (5), pela Liga dos Campeões da Europa e, infelizmente para o jovem de 18 anos, não se recuperará a tempo de atuar nos amistosos.

Ele será cortado, e Tite convocará um substituto, que pode ser Willian, em temporada decente, e não será Douglas Costa, que se recupera de lesão muscular.

Como o treinador já conhece muito bem o futebol de ambos, caso queira testar, com tempo de treino (e, espero, de jogo), alguém acostumado com a direita do ataque, pode recorrer aos velozes e dribladores Lucas Moura ou Malcom. Contra os dois pesa o momento: estão na reserva de Tottenham e Barcelona, respectivamente.

Uma alternativa caseira? Pedrinho, do Corinthians, com 20 anos, é o único jovem que vejo como promissor, por ora. Porém ainda não é titular do time, o que pela lógica o afasta da seleção.

Se a opção for “manter a coerência” e convocar mais um ponta-esquerda, que seria tão estreante na seleção adulta como Vinicius Junior, não é preciso ir além do mencionado jogo na Champions League.

O ex-são-paulino David Neres, de 22 anos, cujo futebol não me encanta, tem sido titular do Ajax e fez gol na partida que eliminou o poderoso Real do badalado interclubes europeu.

Independentemente dessa escolha, farei uma aposta, supondo que Tite não mude o esquema tático, para a escalação do meio para a frente contra o Panamá: volante 1 (Casemiro ou Allan), volante 2 (Arthur ou Fabinho) e Philippe Coutinho; Richarlison (como ponta-direita), Firmino e Everton. A conferir.

Everton joga pela esquerda no Grêmio (Matthew Childs – 12.dez.2017/Reuters)

Em tempo: O corpulento Joelinton, do Hoffenheim, da Alemanha, mereceria ser lembrado, pois faz temporada muito boa (11 gols e seis assistências, somando Bundesliga, Copa da Alemanha e Champions League), mas ele não é ponta, e sim centroavante. Tem 22 anos.