Sede da Copa-2022, Qatar sai vencedor da Copa da Ásia mesmo antes da final

Sede da Copa do Mundo de 2022, na qual estreará em um Mundial, e um dos convidados da Copa América deste ano, no Brasil, o Qatar faz bonito na Copa da Ásia.

Muito longe de ser considerada favorita, a seleção qatariana ganhou todos os seis jogos que fez, os três da primeira fase, o das oitavas de final, o das quartas de final e a semifinal.

Derrubou, nesta ordem, Líbano (2 a 0), Coreia do Norte (6 a 0), Arábia Saudita (2 a 0), Iraque (1 a 0), Coreia do Sul (1 a 0) e Emirados Árabes Unidos (4 a 0), país anfitrião do torneio.

Sauditas e sul-coreranos, ressalte-se, estiveram na Copa do Mundo da Rússia, no ano passado.

A passagem à decisão é uma façanha. Jamais o Qatar tinha ido além do quinto lugar (em 1984 e em 1988) em suas nove participações na mais importante competição do continente.

Mais que isso, detém o melhor ataque (16 gols marcados) e a melhor defesa (nenhum gol sofrido).

Jogadores do Qatar comemoram com o técnico Félix Sánchez Bas (de preto) o quarto e último gol da goleada sobre o anfitrião Emirados Árabes, em Abu Dhabi (Rosian Rahman – 29.jan.2019/AFP)

Pelo que fez até agora, chegará à final desta sexta (1º), ao meio-dia no horário de Brasília, não como azarão, mas em condições de fazer uma partida de igual para igual com o Japão, nação mais vezes campeã da Copa da Ásia, quatro vezes (1992, 2000, 2004 e 2011).

Na semifinal, diante da seleção local, os qatarianos tiveram mais problemas com a ira da torcida (38.646 torcedores estiveram no estádio Mohammed Bin Sayed) do que com o oponente.

Houve sonora vaia ao hino do Qatar, antes do início da partida desta terça (29), em Abu Dhabi. Motivo: os países não têm boas relações diplomáticas. Desde 2017, os Emirados Árabes boicotam comercialmente o Qatar, acusado de dar suporte a ações terroristas.

Os visitantes, entretanto, não se abalaram e abriram 2 a 0 no primeiro tempo, gols de Boualem Khoukhi, em falha do goleiro Khalid Eisa, e do artilheiro Almoez Ali (seu oitavo na competição).

Na celebração, Ali se dirigiu à torcida emiradense e fez um gesto pedindo silêncio. Relato da agência de notícias Reuters diz que houve uma chuva de sandálias na direção dele, atiradas pelos revoltados torcedores.

Eisa, goleiro dos Emirados Árabes, recolhe calçados atirados no campo depois do segundo gol do Qatar (Thaier Al-Sudani – 29.jan.2019/Reuters)

O lançamento de objetos no gramado (além de calçados, garrafas e copos), com intuito de atingir os atletas do Qatar, repetiu-se no segundo tempo, depois dos gols do capitão Hassan Al-Haydos, aos 35 minutos, e de Hamid Ismail, nos acréscimos – ambos festejaram batendo no peito e exibindo o escudo da seleção.

Uma imagem mostra o volante Salem Al Hajri no chão, depois de ter sido supostamente atingido por uma garrafa.

A provocação dos jogadores do Qatar, especialmente a de Ali, aos torcedores adversários não é elogiável, mas as atitudes desprezíveis, de tentativa de agressão (lembraram-me de jogos no interior de São Paulo e na Vila Belmiro, em Santos, no início dos anos 1980, quando eram arremessados chinelos e radinhos de pilha no campo) são bem mais censuráveis.

O caso deve ser analisado pela Confederação Asiática de Futebol, e os Emirados Árabes provavelmente sofrerão alguma sanção.

Jogadores dos Emirados Árabes pedem à torcida que pare de atirar objetos no gramado, enquanto atletas do Qatar demonstram indignação (Giuseppe Cacace – 29.jan.2019/AFP)

Voltando à bola, os qatarianos fazem, volto a salientar, uma campanha digna de registro.

O resultado ante os Emirados Árabes levou centenas de pessoas à noite às ruas de Doha, capital do país, para festejar a classificação à final, como se fosse um título.

A verdade é que o Qatar, mesmo que não supere o Japão (que é o outro convidado da Copa América, que começa em junho), a não ser que sofra uma goleada vexatória, algo improvável, sairá muito por cima da Copa da Ásia.

Pois até o vice-campeonato será considerado o melhor resultado da história da seleção de futebol do país, cujas maiores conquistas são três Copas do Golfo (1992, 2004 e 2014), torneio de relevância limitada disputado pelos países do Golfo Pérsico.

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Em tempo: O Qatar tem como técnico desde 2017 o espanhol Félix Sánchez Bas, de 43 anos, que treinou as categorias de base do Barcelona antes de se aventurar no país do Oriente Médio, em 2006. Lá, ingressou em programa de desenvolvimento do futebol qatariano e, a partir de 2013, comandou a seleção sub-19, a seleção sub-20 e a seleção sub-23 do país até ser convidado para dirigir a equipe principal.