Nomes para Sempre – Hardlife

A vida pode ser difícil, bem difícil para um jogador de futebol.

Há as lesões, há as longas viagens, há os treinamentos exaustivos, há a falta de valorização (não ser relacionado para o jogo ou ser relegado à reserva) após as longas viagens e os treinamentos exaustivos.

Está jogando? Há os apupos da torcida do próprio time (quando a fase é ruim), há os xingamentos da torcida adversária (sempre).

Há os baixos salários (só uma minoria ganha bem, e só uma minoria dessa minoria ganha muito bem), há o não salário (desemprego).

Tem um jogador, inclusive, que poderia personificar as dificuldades da profissão ao pé da letra: Hardlife Zvirekwi.

Nascido no Zimbábue, país que está entre os 25 mais pobres do mundo (de acordo com o Fundo Monetário Internacional), o nome do lateral direito, em uma tradução do inglês (uma das línguas oficiais da nação do sul da África), é “vida dura”.

Hardlife, desde março do ano passado, teria um grande motivo para se inserir nesse contexto.

Ele voltava para casa de carro em Harare, a capital zimbabuana, quando, conforme relato do próprio jogador, uma Kombi cruzou à sua frente, e houve uma forte batida.

Preso às ferragens, Hardlife percebeu, ao ser socorrido, que não conseguia mover a mão esquerda. Ela tinha se quebrado de um jeito não passível de restauração, e os médicos constataram que os danos foram tão severos que não restava saída a não ser a amputação.

Seria o fim da carreira de Hardlife, então com 30 anos, capitão de seu time, o CAPS United, na primeira divisão do Zimbábue, eleito o melhor jogador do país na temporada em 2016 e titular da seleção zimbabuana na Copa das Nações Africanas em 2017?

Para quem toma par da situação e desconhece o jogador, a resposta provável é sim. Se já é difícil jogar profissionalmente nas melhores condições físicas, como imaginar alguém indo a campo para atuar em alto nível (considerando, logicamente, o patamar do Zimbábue, 114º colocado no ranking da Fifa) em uma condição de inferioridade?

No mínimo, a questão psicológica é uma tremenda barreira.

Hardlife, contudo, não esmoreceu. Com o apoio de amigos e da família, superou a dor e o trauma. Reabilitou-se e retomou os treinos.

Em foto de julho de 2018, Hardlife posa com o volante Willard Katsande, ex-colega na seleção zimbabuana (Reprodução/Instagram de Hardlife Zvirekwi)

Quatro meses depois do gravíssimo acidente, voltou a atuar pelo CAPS United, entrando em campo aos 42 minutos do segundo tempo no empate por 0 a 0 com o Harare City, no estádio Rufaro, no dia 7 de julho de 2018.

“Na vida, quando você passa por uma situação de calamidade, o que lhe fortalece é cultivar a energia positiva e ter muita fé de que algo grande se extrairá dessa situação trágica”, disse Hardlife à rede BBC. “Agradeço demais ao Todo-Poderoso por ter possibilitado que eu voltasse a jogar, por ter tornado possível o impossível.”

É um feito, ao que sei, inédito. Não tenho conhecimento de um futebolista que tenha jogado profissionalmente com a mão amputada. O caminho natural, não menos honroso (apesar de minimamente valorizado e divulgado), seria o esporte paraolímpico.

Um feito que, por ter chamado a atenção de veículos de comunicação de alguns países (a BBC, da Inglaterra, o UOL, do Brasil, e a revista Kickoff, da África do Sul, publicaram vídeo e/ou texto sobre o caso), causou indignação a um jornalista local.

Robson Sharuko, editor da seção de esportes do diário The Herald, de Harare, publicou no começo do mês passado um artigo intitulado “A volta do herói que nós escolhemos esquecer”.

Em seu texto, ele narra o acidente e a recuperação de Hardlife e se diz inconformado com os dirigentes esportivos do Zimbábue, que na tradicional premiação Astro do Futebol no Ano, realizada desde 1969, não fizeram uma menção sequer ao atleta.

Escreceu Sharuko:

“Em uma liga doméstica carente de heróis genuínos, na qual os níveis de performance afundaram e a oferta de grandeza foi escassa, restou a Zvirekwi protagonizar a história que encantou o mundo.

“Não consideraram lhe dar uma comenda de reverência, como ‘O Retorno do Ano’. Considerando que esta foi uma temporada dominada pela mediocridade, em que sua história rendeu mais manchetes ao redor do planeta que todos os jogadores locais somados, um prêmio desse seria apropriado.

“Mas eles nem citaram seu nome, como se seu drama jamais tivesse ocorrido”.

Uma constatação/reclamação pertinente, pois a história de Hardlife é dessas raras, senão únicas, no esporte de alto rendimento – mesmo sendo no Zimbábue, país de duríssima vida no terreno futebolístico: disputou apenas 3 das 31 edições da Copa Africana de Nações (caindo sempre na primeira fase) e jamais esteve em uma Copa do Mundo.

Eleito o melhor jogador do ano no Zimbábue em 2016, Hardlife exibe troféus (Reprodução/Instagram de Hardlife Zvirekwi)

Em tempo 1: Hardlife Zvirekwi pretende ir além. Sua próxima meta é voltar aos Guerreiros, como é apelidada a seleção do Zimbábue. “Não me aposentei internacionalmente ainda. Se o Todo-Poderoso desejar, eu quero quebrar mais uma barreira e representar meu país, na minha atual condição, para servir de inspiração a outras pessoas. Mostrar que o impossível pode ser alcançado se você trabalhar duro e for determinado”, afirmou à BBC. Caso consiga, merecerá mais do que todos os colegas ser chamado de guerreiro.

Em tempo 2: Os dois jogadores considerados os melhores da história do Zimbábue são o ex-goleiro Bruce Grobbelaar (que nasceu na África do Sul mas cresceu na Rodésia, atual Zimbábue, tendo nacionalidade zimbabuana), que defendeu o Liverpool em 628 partidas, de 1981 a 1994, ganhando uma Liga dos Campeões da Europa, em 1984, e seis Campeonatos Ingleses; e o ex-atacante Peter Ndlovu, com passagens por Coventry, Birmingham, Huddersfield e Sheffield United, todos da Inglaterra, nos anos 1990 e 2000, maior artilheiro da história da seleção do Zimbábue, a qual defendeu por 13 anos, com 38 gols em uma centena de partidas.

Leia também: Nomes para Sempre – Filigrana

Leia também: Nomes para Sempre – Nelson Mandela

Leia também: Nomes para Sempre – Festa

Leia também: Retrospectiva 2018 – Posts para ler ou reler