A Libertadores maculada

Se o futebol fosse sério, a partida decisiva da final da Libertadores de 2018, entre River Plate e Boca Juniors, talvez a maior rivalidade futebolística do planeta Terra, não deveria ser realizada. Mas, tudo indica, será.

Se o futebol fosse sério, o estádio Monumental de Núñez, do River Plate, não deveria receber esse jogo decisivo – o de ida, na Bombonera, terminou 2 a 2. Mas, tudo indica, receberá.

Se o futebol fosse sério, o River Plate, mandante do maior superclássico da história entre os arquirrivais de Buenos Aires, deveria jogar com portões fechados por, vá lá, uns seis meses. Mas, tudo indica, não jogará.

Se o futebol fosse sério, as autoridades do esporte que tanto amamos mostrariam pulso firme para que a Argentina e o mundo tomasse ciência de que certos comportamentos sujos, de gente ignóbil, não são tolerados. Mas, tudo indica, não mostrarão.

É um tremendo absurdo que, depois das cenas de violência brutal vistas nos arredores do Monumental, a Conmebol (entidade que comanda o futebol na América do Sul) tenha tido a insensatez de querer realizar o jogo deste sábado (24), previsto inicialmente para as 18 horas (de Brasília), no próprio sábado.

E, depois de várias idas e vindas e intensas negociações políticas, remarcá-lo para este domingo (25), também às 18 horas – 17 horas no horário local.

Para os desinformados, resumo, e para os informados, relembro o que aconteceu.

Na chegada do ônibus do Boca ao estádio adversário, torcedores do River, armados de paus, pedras e garrafas, atacaram o veículo.

Janelas foram quebradas, e os estilhaços atingiram alguns jogadores do Boca, ferindo-os. O capitão do Boca, o meio-campista Pablo Pérez, teve o olho esquerdo afetado e precisou ser levado a um hospital para atendimento.

Para tentar dispersar os agressores, a polícia disparou gás de pimenta (que irrita os olhos e provoca lágrimas e dor), que se espalhou inclusive pelo ônibus da equipe visitante.

O abalo psicológico é grande numa situação dessa. O atacante Carlitos Tevez, conhecidíssimo no Brasil por sua passagem pelo Corinthians na década passada, declarou que não havia condição de o Boca ir a campo.

Mesmo assim, a Conmebol insistia.

Com o Monumental tomado por mais de 60 mil “hinchas”, inclusive por penetras que burlaram a segurança, e a presença nas tribunas do presidente da Fifa, Gianni Infantino – o vencedor da Libertadores disputa o Mundial do órgão máximo do futebol –, remarcou três vezes o reinício da partida.

Seus corpo médico observou Pablo Pérez, que voltara com o diagnóstico de médicos particulares de que não estava clinicamente apto a jogar, e o liberou para jogar.

O único que parecia lúcido do lado vermelho e branco era o treinador do River, Marcelo Gallardo, que solidarizou-se com o “inimigo” e defendeu a suspensão do confronto.

O quanto teve influência a palavra de Gallardo, ou a insistência da direção e dos jogadores do Boca, não se sabe, porém a Conmebol recuou e postergou a aclamada “maior final da história” em um dia – revoltados por deixar o Monumental sem ver a bola rolar, torcedores do River ainda partiram para o confronto com a polícia.

Aliás, sabe-se lá se a decisão vai mesmo acontecer, pois o Boca cogitava, segundo o diário argentino Olé, fazer valer regras escritas pela Conmebol que tratam de punição ao clube mandante que não preza pela segurança dentro e nos arredores de sua arena.

Há entre as sanções a desclassificação da competição, e o Boca estudava entrar com uma ação para eliminar o River. Sim, o tapetão poderia entrar no jogo.

Enfim, nesse contexto execrável, se o futebol fosse sério, essa Libertadores pararia por aqui, sem ter uma final nem um final.

Odeiam-se tanto boquenses (quem é pró-Boca) e milionários (quem é pró-River), a ponto de jogo após jogo, ano após ano, digladiarem-se sem dó – nem partida com torcida única, como ocorre há alguns anos, resolve –, que nenhum merece ser campeão no mata-mata (perdão pelo uso do termo, que dadas as circunstâncias acaba até sendo o mais adequado) mais esperado de suas centenárias histórias.

O problema é que o futebol não é sério. E, tudo indica, nunca será.

Tratam-se cenas de barbárie como triviais. Uma lamentação aqui, um espanto ali, uma queixa acolá, e a vida segue, à espera da próxima ocorrência deplorável e enojante. Ninguém faz nada.

Não verei o jogo e, ultrajado que estou, deixo meu vilipêndio a todos os envolvidos.

Independentemente do resultado, a decisão da Libertadores de 2018 será lembrada eternamente como a Libertadores maculada – pela violência, pelo descaso e pela insanidade.

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