Artilheiro na Itália usa videogame para conhecer colegas de time

Jogar em um grande centro do futebol mundial é o sonho de todo jogador brasileiro, a partir do momento em que se estabelece em um time por aqui.

Por “grande centro do futebol mundial” leia-se Alemanha, Espanha, Inglaterra e Itália – em uma escala menor, a França. São os países que possuem as ligas mais badaladas e endinheiradas.

O sonho não costuma ser diferente entre os futebolistas não brasileiros.

Por exemplo, na Polônia, os jovens bons de bola também almejam disputar uma competição bem mais gabaritada que a Ekstraklasa (a liga polonesa).

Jogar no Legia Varsóvia, no Lech Poznan, no Wisla Cracóvia ou em um dos demais 13 clubes da primeira divisão pode até ser uma realização para um atleta local, porém o objetivo maior é estar em um Barcelona, em um Real Madrid, em um Milan, em uma Juventus, em um Manchester (City ou United), em um Bayern de Munique.

Se não der, que seja em uma equipe menos poderosa, desde que dispute um dos grandes campeonatos – se não der para jogar com Messi ou Cristiano Ronaldo, contra eles será igualmente entusiasmante.

Aconteceu com Krzysztof Piatek, centroavante do KS Cracóvia. Depois de uma temporada 2017/2018 goleadora (21 gols em 36 partidas), o jogador de 22 anos (hoje tem 23) chamou a atenção de uma equipe da primeira divisão da Itália.

Não era a Juventus. Nem o Milan. Nem o Napoli. Nem a Roma. Nem a Inter de Milão. A proposta trazida por seus empresários era do Genoa.

Tudo bem, deve ter pensado Piatek. O importante é estar em uma vitrine mais nobre – e com uma remuneração melhor.

E além disso, viria a saber o atacante, o Genoa tem muita tradição. Fundado em 1893, foi o primeiro campeão italiano, em 1898, e acumula nove títulos – é o quarto maior vencedor, atrás só de Juventus (34), Inter e Milan (ambos 18).

Ok, a última conquista na Série A data de 1924, há quase um século. Mas, para começar na Itália, o Genoa parecia bom.

Uma chance de sair da obscuridade do futebol polonês e quiçá dar o passo inicial para fazer fama, como conseguiu o compatriota Robert Lewandowski, em 2010 um desconhecido no Lech Poznan e hoje uma estrela do alemão Bayern.

Autor do único gol do duelo Genoa x Bologna, pelo Campeonato Italiano, o polonês Piatek festeja no estádio Luigi Ferraris, em Gênova (Reprodução/Site do Genoa Cricket and Football Club)

Piatek aceitou a transferência no meio deste ano. Não sem detectar, entretanto, um incômodo.

Jogaria com quem?

Se fosse para a Juventus, saberia que lá estariam Cristiano Ronaldo, Dybala e seu compatriota Szczesny (goleiro). O Milan tem Higuaín e Donnarumma. O Napoli, Hamsik, Mertens e seu compatriota Milik (atacante). A Roma, De Rossi e Dzeko. A Inter, Icardi. Gente de muito ou algum renome.

Leia também: De Bruyne, Martial, Wijnaldum, Fejsa, Szczesny… como se fala o nome deles?

Do Genoa, não conhecia um mísero colega de profissão. Não tinha ideia de um único nome no elenco. Nem unzinho. Eram todos “ninguéns”. Isso o incomodava.

Então, para se familiarizar com os nomes e com as posições de cada futuro companheiro, decidiu usar o que tinha à mão: o videogame Fifa, no PlayStation.

Dessa forma, uniria o útil (conhecimento) ao agradável (diversão).

Pode ter sido coincidência, mas o fato é que, depois de ter conhecido os colegas no jogo da Fifa, Piatek mostrou em campo afinidade imediata com Pandev (macedônio), Lazovic (sérvio), Kouamé (marfinense), Hiljemark (sueco) e companhia.

Nos sete primeiros jogos no Italiano, foram nove gols. Na estreia na Copa da Itália, anotou os quatro da goleada (4 a 0) no Lecce. Ao todo, 13 gols em oito jogos, marca impressionante que o conduziu à seleção polonesa para a disputa da Liga nas Nações.

Observado pelo zagueiro Glik (15), Piatek comemora gol contra Portugal na Liga das Nações, seu 1º pela seleção da Polônia (Radoslaw Jozwiak – 11.out.2018/Reuters)

Ele inclusive fez gol na partida em que atuou, uma derrota por 3 a 2 para Portugal no dia 11 de outubro.

Mas curiosamente, em uma das estranhezas do futebol, o breve afastamento dos companheiros de Genoa parece ter-lhe feito mal.

Depois do seu retorno à Itália, não balançou as redes nos cinco confrontos disputados. A sintonia com os colegas subitamente se esvaiu, e o time, que vinha bem, não mais venceu (dois empates e três derrotas) e despencou na tabela – está em 14º lugar.

Mesmo com essa inoportuna seca (talvez seja o caso de voltar ao videogame, para redescobrir o entrosamento perdido), Piatek continua como o principal goleador do Italiano.

Seus nove gols o deixam à frente de Ciro Immobile, da Lazio, e de Cristiano Ronaldo, ambos com oito gols.

Piatek e o português Cristiano Ronaldo (dir.) se abraçam antes de Juventus 1 x 1 Genoa, em Turim, pelo Italiano (Marco Bertorello – 20.out.2018/AFP)

Em tempo: Piatek terá a chance de quebrar o jejum domingo (25), no dérbi de Gênova, diante da Sampdoria (um ponto à frente na tabela), no estádio Luigi Ferraris.