‘Se meu irmão não jogar, eu também não jogo’

O caso parece até bate-boca bobo que às vezes acontece entre a garotada do futebol de rua (ou de prédio).

Esperadíssimo por todos, o craque do time da rua de baixo chega para o tradicional duelo contra a equipe da rua de cima (ou contra a turma do prédio vizinho).

Traz a tiracolo o irmão mais novo, a quem considera um protótipo de Messi, precisando apenas de uma oportunidade para mostrar seu ainda desconhecido talento.

Os companheiros olham torto. Não sabiam que o irmão do craque jogava bola, nem mesmo que ele tinha um irmão, jamais visto por ali ou por acolá.

Aí alguém comentou, quase num cochicho, ao capitão: “Ele falô do pirralho uma vez. Que ia trazê ele pra jogá um dia…”.

Um olhar mais atento do grupo, e a conclusão: o garoto não está à altura. Franzino, meio desajeitado, na aparência não leva o menor jeito – só se fosse para gandula.

“Sem chance”, sentenciou, sem dó, o capitão do time para o craque.  Que, resoluto, rebateu sem titubear: “Se meu mano não jogar, eu também não jogo”. E foi embora.

Corte para a vida real.

Nascido em Kingston, capital da Jamaica, Leon Bailey, de 21 anos, é atacante do Bayer Leverkusen, da Alemanha.

Ele é o irmão mais velho da hipotética história da rua (ou do prédio).

Desde que chegou ao futebol alemão, no começo de 2017, vindo do Genk (Bélgica), tem impressionado muita gente.

Na temporada 2017/2018 da Bundesliga, marcou nove gols e deu seis assistências em 30 partidas (25 delas começando como titular). Para um calouro, números muito bons.

Canhoto, Bailey atua pelas pontas (mais pela esquerda), vestindo a camisa 9. Seu estilo lembra muito o do brasileiro Douglas Costa, da Juventus (Itália) e da seleção brasileira – tão hábil quanto e parecendo ser ainda mais veloz.

(Aliás, se tem uma característica pela qual os jamaicanos gozam de fama, essa é a velocidade; vide Usain Bolt, o recordista mundial dos 100 m que tenta carreira no futebol.)

Filho de pai adotivo (não se tem notícia da mãe), Bailey cresceu junto do irmão, Kyle Butler, apenas seis meses mais novo. O que, naturalmente, os tornou muito próximos.

Leon Bailey (esq.) com o irmão adotivo, Kyle Butler, 20, que joga pelo Juniors OÖ, da segunda divisão da Áustria (Reprodução/Instagram de Leon Bailey)

No início da adolescência dos meninos, o pai, que comandava o Phoexix All-Star (clube jamaicano), rumou com os dois para a Europa, a fim de achar uma equipe para ambos.

O Genk, da Bélgica, aceitou os garotos. Problemas com a imigração, entretanto, dificultaram a vida da família Butler, que estava ilegalmente no país europeu e precisou voltar à Jamaica.

Butler pai não desistiu. Fez novas tentativas e conseguiu que os jovens treinassem nas categorias de base do Anif (Áustria) e posteriormente do Trencin (Eslováquia).

Em 2015, quando Bailey completou 18 anos, o que lhe permitia pelas regras da Fifa assinar um contrato profissional, o Trencin o negociou com o Genk.

Um ano e meio depois, ele desembarcava em Leverkusen para jogar pelo Bayer, que pagou aos belgas € 13,5 milhões (R$ 57 milhões pelo câmbio atual).

O desempenho do atacante levou esperança à seleção da Jamaica, que disputou sua primeira e única Copa do Mundo em 1998, na França.

Bailey vestiu uma única vez a camisa amarela dos Reggae Boyz, em 2015, com o time sub-23.

Pela seleção adulta, apesar de mais de uma vez ter declarado vontade de defender o país natal, ainda não atuou.

Alegava desentendimentos com a Federação de Futebol da Jamaica (haveria uma rixa dos dirigentes com Butler pai) e problemas na configuração e na estrutura da seleção. Nada muito bem explicado.

Neste ano, ele enfim se disponibilizou para estrear pela seleção adulta. Seria em jogo no mês passado contra Bonaire, uma ilha no Caribe, pelo classificatório para a Liga das Nações da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe).

O Bayer Leverkusen anunciou sua convocação. Bailey viajou à Jamaica. A expectativa entre os torcedores locais estava criada, e era altíssima.

Leon Bailey cai no jogo do Bayer Leverkusen diante do Ludogorets, na Bulgária, pela Liga Europa (Jody Lukoki – 20.set.2018/Reuters)

No entanto, quando a federação jamaicana divulgou a lista de jogadores para a partida, veio a frustração: o nome do astro, para surpresa geral, não estava nela.

Bailey se pronunciou pelo jornal The Gleaner, de Kingston: “Estou aqui por uma razão: representar meu país. Mas a federação não cumpriu sua parte. Isso sendo feito, estarei pronto para vestir a camisa da seleção”.

Qual a parte descumprida pela entidade? O menosprezo a Kyle Butler, seu irmão.

“Preciso de jogadores que me entendam. Você não pode esperar que eu seja colocado em um sistema e que funcione. Preciso de ajuda. Sou um vencedor, uma fênix, não gosto de perder, então preciso de pessoas que eu sei que são capazes de fazer as coisas acontecerem.”

Estava explicado. Segundo o talentoso atacante, havia um acordo com a federação para que Kyle, que é reserva em uma equipe da segunda divisão da Áustria, tivesse uma chance na seleção da Jamaica.

Jogariam juntos, como nos velhos tempos – nem tão velhos assim.

Só que a federação jamaicana fez o plano ruir. E não só não confirmou haver um trato com Bailey como ainda criticou o atacante e Craig Butler, seu pai e empresário.

“O treinador decidiu não convocar o irmão [de Bailey] porque nunca o viu jogar”, disse Michael Ricketts, o presidente da entidade, à ESPN. “Se houvesse um jogo amistoso, nós o chamaríamos para dar uma olhada nele. Colocá-lo direto em uma competição, não. Não faremos isso.”

“Esperamos que tanto Leon quanto o sr. Butler sejam mais humildes e lidem com as coisas da forma correta. Você não pode fazer exigências a uma federação nacional, e isso vale para Leon. Não seguiremos essa rota, seria abrir um precedente errado. Seremos profissionais.”

São as palavras do dirigente. As de Leon Bailey, mesmo não ditas abertamente, já sabemos: “Se meu mano não jogar, eu também não jogo”.