Grêmio teve eliminações doídas, mas a desta Libertadores foi a pior

Atual campeão da Libertadores, o Grêmio perdeu do River Plate por 2 a 1, no jogo de volta da semifinal, e está fora da competição.

Uma eliminação em mata-mata de um torneio internacional pode ser doída, na maioria das vezes é, e o Tricolor gaúcho amargou algumas bem sofridas, porém a desta terça (30) foi a pior de todas.

Por quê?

Por vários motivos, que incluem os fatores campo e torcida, a proximidade da final, o placar favorável, um gol feito perdido, a reviravolta repentina e o VAR (árbitro assistente de vídeo) incoerente.

O Grêmio jogava em casa, em Porto Alegre, em sua arena tomada por mais de 53,5 mil torcedores, a esmagadora maioria de gremistas.

Tinha feito, teoricamente, o mais difícil, que era ganhar do River em Buenos Aires, sete dias antes, por 1 a 0, o que lhe permitia avançar com um empate.

Saiu na frente, com um gol de Leonardo, em belo chute da entrada da área, aos 35 minutos do primeiro tempo.

Teve uma chance claríssima de fazer 2 a 0 aos 21 minutos do segundo tempo, mas Everton Cebolinha conseguiu a proeza de chutar em cima do goleiro Armani.

Com a partida aparentemente controlada, sofreu uma reviravolta súbita, inesperada, em um intervalo de apenas três minutos.

Aos 36 minutos, Borré desviou a bola para as redes após falta cobrada por Pity Martínez. Não houve reclamação de jogadores do Grêmio no que pareceu uma cabeçada do atacante colombiano.

Só que replays das imagens da TV mostram que a bola tocou no braço dele – em pelo menos um ângulo para mim isso pareceu nítido.

O árbitro uruguaio Andrés Cunha não viu, pois se tivesse visto anularia a jogada. A partida tinha a videoarbitragem, mas o VAR não se manifestou, estranhamente.

Gremistas tentam se aproximar do árbitro uruguaio Andrés Cunha e de seus auxiliares, protegidos pela polícia depois do duelo em Porto Alegre (Nelson Almeida – 30.out.2018/AFP)

Por que estranhamente?

Porque o árbitro de vídeo, tendo identificado a possível irregularidade, e por ter sido em uma jogada em que saiu um gol, precisaria ter acionado Cunha, para que ele checasse o lance e decidisse manter sua validade ou anulá-lo.

Aos 39 minutos, 1 a 1 no placar, Scocco chutou e a bola resvalou no braço de Bressan, que o abriu além do que deveria, dentro da área gremista.

Aparentemente ninguém no campo notou, já que os atletas do River não reclamaram pênalti e apenas pediram, com gestos, o escanteio.

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Dessa vez, entretanto, o VAR interveio – como deve fazer em lances de pênalti (marcado ou não marcado), quando julgar necessário. Nesse caso, julgou.

E Cunha foi à lateral do gramado rever o lance em uma TV. E Cunha constatou que a bola desviou no braço do beque do Grêmio. E Cunha marcou a penalidade máxima.

E Pity Martínez converteu o pênalti, e o resto todos sabem: 2 a 1 de virada, River na final (por ter feito mais gols como visitante), Grêmio fora.

Gonzalo ‘Pity’ Martínez (10) comemora com Enzo Pérez seu gol de pênalti, o da classificação do River Plate para a decisão da Libertadores (Itamar Aguiar – 30.out.2018/AFP)

Foram muitos e muitos ingredientes que machucaram demais os torcedores do Grêmio, seus jogadores e o técnico Renato Gaúcho. Pois a ida à final esteve muito, demais, ao alcance deles.

Houve eliminações anteriores dolorosas, tanto em Libertadores como em Copas Sul-Americanas, do Grêmio, e citarei algumas.

  • Libertadores-1996 (semifinal): o Grêmio, campeão no ano anterior, ganhou do América de Cali em casa por 1 a 0; na Colômbia, começou vencendo, mas levou a virada (3 a 1). O terceiro gol saiu aos 39 minutos do segundo tempo.
  • Libertadores-2003 (quartas de final): contra o Independiente de Medellín, empate por 2 a 2; na Colômbia, o Grêmio saiu atrás, mas logo empatou, e o 1 a 1 provocaria disputa de pênaltis. Aos 46 minutos do segundo tempo, o Independiente fez 2 a 1.
  • Libertadores-2014 (oitavas de final): o rival era o San Lorenzo, que na Argentina ganhou de 1 a 0; o Grêmio lutou muito e devolveu o 1 a 0 em Porto Alegre, gol de Dudu (hoje no Palmeiras) aos 38 minutos do segundo tempo; uma luta em vão, já que nos pênaltis os argentinos foram mais competentes, não errando nenhuma cobrança (4 a 2).
  • Copa Sul-Americana-2004 (2ª rodada): ante o arquirrival Internacional, a eliminação veio com uma derrota por 2 a 0 no Beira-Rio e uma vitória, insuficiente, por 2 a 1 no Olímpico.
  • Copa Sul-Americana-2008 (1ª rodada): de novo o Inter saiu vitorioso, de novo com festa no estádio do Grêmio, dessa vez pelos gols marcados fora de casa; 1 a 1 no Beira-Rio, 2 a 2 no Olímpico.
  • Copa Sul-Americana-2012 (quartas de final): 1 a 0 em Porto Alegre contra o colombiano Millonarios; em Bogotá, vantagem ampliada, com um gol no começo do jogo; no segundo tempo, o desastre: três gols sofridos, o último aos 48 minutos, e a desclassificação (3 a 1).

Todas essas são lembranças péssimas na memória da nação gremista.

Todavia nenhuma, certamente nenhuma, tão cruel como a da derradeira partida da equipe na Libertadores de 2018.