Zidane declara que voltará logo à ativa; mas em qual time?

De forma surpreendente, Zinédine Zidane deixou o Real Madrid no fim de maio, somente cinco dias depois de o Real Madrid ganhar, pela 13ª vez, a Liga dos Campeões da Europa.

Surpreendente porque, com ele, a equipe da capital espanhola faturou a taça da badalada competição pelo terceiro ano seguido. Um feito inédito para qualquer treinador.

Além disso, sob a batuta do francês, o Real ganhou 9 de 13 campeonatos oficiais, em um intervalo de menos de dois anos e meio. Notável.

O que mostra que mesmo as vitórias trazem algum tipo de desgaste – ver as mesmas caras todos os dias pode ser cansativo e/ou enjoativo, ainda mais tendo de administrar egos de estrelas (o narcisista Cristiano Ronaldo estava lá).

Decidir mudar de ares, pois, é solução compreensível.

Desde o rompimento (amigável) do contrato com o Real Madrid, Zidane saiu de férias, e as especulações sobre seu futuro profissional tiveram início.

Falou-se que ele assumiria a seleção francesa depois da Copa do Mundo da Rússia. Plausível, já que Didier Deschamps não era unanimidade. Só que a França ganhou o Mundial e Deschamps, fortalecido, prosseguiu.

Nas últimas semanas noticia-se, especialmente na mídia inglesa, que Zidane assumirá o Manchester United, um dos gigantes da terra da rainha.

Isso porque o desempenho de José Mourinho tem sido decepcionante neste início de temporada – os Diabos Vermelhos não largaram bem e ocupam a décima posição no Campeonato Inglês.

O português, um dos treinadores mais vitoriosos em atividade, tem convivido com o risco de ser demitido a qualquer momento.

Os rumores intensificaram-se nesta segunda (10), quando Zidane declarou à RTVE, da Espanha, que em breve estará de novo na ativa. “Certamente voltarei logo, pois eu gosto disso [futebol] e é o que fiz na minha vida inteira.”

Zidane diz querer voltar logo. Mas logo quando? Na concepção dele, quão logo é logo?

Porque esse logo pode ser “hoje” (neste mês), “amanhã” (até o fim do ano) ou “nos próximos dias” (começo da temporada 2019/2020, no meio do ano que vem).

Supondo que queira treinar algum time já (considero improvável que assuma uma seleção agora), mas que Mourinho persista no Man United, não há vaga imediata em equipe de ponta nas grandes ligas europeias (Itália, Inglaterra, Alemanha, França e Espanha).

Na Espanha, a perspectiva é nula. Zidane não aceitaria dirigir Barcelona ou Atlético de Madri, rivais ferrenhos do Real Madrid.

Ele defendeu como jogador a Juventus, da Itália (de 1996 a 2001, antes de ir para o Real Madrid), é um dos grandes ídolos do clube, então teria portas abertas lá. Só que Massimiliano Allegri, que tem contrato até 2020, está prestigiado no time de Turim, o qual comanda desde 2014.

Na Alemanha, a equipe à altura do status de Zidane é o Bayern de Munique, de Neuer, Robben e Lewandowski, que não está procurando técnico – Niko Kovac acaba de iniciar o trabalho.

O mesmo ocorre na França, onde o todo-poderoso Paris Saint-Germain, de Neymar, Cavani e Mbappé, está há pouquíssimo tempo sob a direção de Thomas Tuchel.

Restaria partir para uma equipe não top, com elevado risco de fracasso – o pé de obra é bem menos qualificado.

Se esse for o caminho, a escolha natural, considerando-se o lado afetivo, é o Bordeaux.

O time do sudoeste da França, campeão nacional pela última vez em 2009, foi o responsável por projetar internacionalmente Zidane, que defendeu suas cores de 1992 a 1996 – nesse último ano, o Bordeaux chegou à decisão da Copa da Uefa, perdendo para o Bayern.

Zidane defende o Bordeaux na final da Copa da Uefa de 1996, contra o Bayern de Munique (Michel Spingler – 15.mai.1996/Associated Press)

Caso Zidane se proponha a esse reencontro, será uma forma de agradecimento e, simultaneamente, a aceitação de um tremendo desafio.

O Bordeaux iniciou a temporada 2018/2019 em crise.

O treinador Gus Poyet foi afastado e posteriormente demitido por criticar a diretoria, chamando-a de “desgraça” por ter negociado o artilheiro Gaëtan Laborde com o Montpellier.

Eric Bedouet assumiu interinamente, no meio de agosto, e na semana passada acabou confirmado no cargo, por período não informado, pelo novo gerente geral do clube, o brasileiro Ricardo Gomes (ex-zagueiro e ex-treinador de vários times).

A missão de Bedouet é inglória, já que o Bordeaux está em penúltimo (19º lugar) no Campeonato Francês. Uma sequência de maus resultados, caso ocorra, vai deixá-lo na berlinda e muito possivelmente sem condições de permanecer.

Nesse caso, uma troca de palavras entre Ricardo Gomes (fluente em francês, pois atuou cinco anos no PSG) e Zidane pode resultar em oportunidade para o supercampeão com o Real Madrid tentar fazer história de um jeito bem mais complicado: partindo da zona de rebaixamento.

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