É difícil, e raro, um brasileiro ganhar mais de um título no mesmo ano

“O futebol brasileiro chegou ao absurdo de muitos acharem bom quando um grande time é eliminado de uma competição para se dedicar a outra.”

Assim escreveu Tostão em sua penúltima coluna na Folha, ao comentar a eliminação do São Paulo na Copa Sul-Americana e o desempenho apenas mediano do Cruzeiro no Campeonato Brasileiro – é o atual sétimo colocado, 15 pontos atrás do líder, o São Paulo.

Entendi que o genial colunista espera que os principais clubes, com elencos caros e qualificados, sejam capazes de fazer bonito – e fazer bonito mesmo é ser campeão – em mais de uma competição disputada simultaneamente ao longo da temporada.

Apesar de ser lógico o raciocínio de Tostão, coloco-me na lista dos que não consideram tão absurdo “achar bom” ter um único foco, um único objetivo.

Que todo torcedor deseja que seu clube ganhe tudo em um curto intervalo de tempo, isso é óbvio. Na prática, porém, é dificílimo de acontecer.

A história é testemunha.

Em uma retrospectiva que inclui o Brasileiro, a Copa do Brasil, a Libertadores, a Copa Sul-Americana e o Mundial de Clubes, neste século apenas quatro vezes uma equipe brasileira ganhou mais de um campeonato no mesmo ano.

O meia Alex ergue em Belo Horizonte a taça do Campeonato Brasileiro conquistada pelo Cruzeiro no começo deste século (Juca Varella – 7.dez.2013/Folhapress)

Em 2003, o Cruzeiro, dirigido à beira do campo por Vanderlei Luxemburgo e dentro dele pelo craque Alex, faturou o Brasileiro (o primeiro por pontos corridos) e a Copa do Brasil, superando na final o Flamengo.

Em 2005, o São Paulo venceu a Libertadores, no meio do ano, e o Mundial de Clubes, no fim. O mesmo ocorreu com o Internacional, em 2006, e o Corinthians, em 2012.

E foi só.

É necessário lembrar que, até 2012, a Copa do Brasil e a Libertadores não concorriam por muito tempo com o Brasileiro, como ocorre atualmente.  As finais dessas competições eram realizadas na metade do ano, enquanto o principal campeonato nacional se estendia por mais alguns meses.

Sendo assim, à época o argumento do calendário exaustivo para não render bem sempre, que hoje é possível ser empregado, perdia força.

É preciso também ressaltar que até 2012 o clube participante da Libertadores não podia disputar a Copa do Brasil, o que fazia esse time ganhar mais datas livres (para treinos e descanso), porém também reduzia o número de taças no ano disputadas por ele.

Mesmo na Europa, onde os maiores clubes formam grandes esquadrões, amparados pelo elevado poderio financeiro, ser superdominante em uma temporada não é praxe.

Neste século, só em quatro ocasiões uma equipe amealhou a coroa quádrupla (quatro títulos na mesma temporada).

Neymar beija a taça da Liga dos Campeões da Europa, conquistada pelo Barcelona contra a Juventus, há três anos, em Berlim (Lluis Gene – 6.jun.2015/AFP)

Barcelona, duas vezes (em 2009 e em 2015), Inter de Milão e Bayern de Munique, uma vez cada um (em 2010 e em 2013, respectivamente), ganharam a Liga dos Campeões, o Mundial de Clubes, o campeonato nacional e a Copa de seu país.

A tríplice coroa foi conquistada em seis oportunidades.

Em 2008, o Manchester United venceu o Inglês, a Liga dos Campeões e o Mundial. Em 2011, o Barcelona ganhou Espanhol, Liga dos Campeões e Mundial. Em 2014, o Real Madrid levou Copa do Rei, Liga dos Campeões e Mundial.

Em 2003 e em 2011, o Porto venceu o Campeonato Português, a Taça de Portugal e a Liga Europa (na primeira conquista, ainda chamada de Copa da Uefa), que é o segundo interclubes em importância no velho continente.

Em 2005, o CSKA Moscou ganhou Russo, Copa da Rússia e Copa da Uefa.

Por que há essa tremenda dificuldade em acumular troféus em série no período de 12 meses?

Há uma combinação de fatores (técnicos, táticos, físicos, emocionais), além do financeiro.

Tendo a acreditar que a questão física é determinante, já que os treinadores inclinam-se a priorizar um determinado campeonato e poupar o time considerado titular em outros.

Há também outro elemento relevante: a disputa em mata-mata.

Mesmo quando há um evidente desequilíbrio de forças na observação dos plantéis, basta um dia de inspiração para que o azarão triunfe – ocorreu por exemplo neste ano, quando a Roma eliminou o Barcelona nas quartas de final da Champions League.

De Rossi e Florenzi (atrás), da Roma, vibram ao término da partida no Estádio Olímpico de Roma na qual o time eliminou o Barcelona da Liga dos Campeões da Europa (Alessandro Bianchi – 10.abr.2018/Reuters)

A seguir, exponho levantamento que fiz, a partir de 2001 (século atual), incluindo o Brasil e os países europeus que tiveram ao menos um clube campeão de torneio continental, para saber quem foi capaz de acumular mais de um título em uma única temporada.

Excluí os campeonatos estaduais, por serem disputados somente por aqui (não existem na Europa), e a Copa Intercontinental (disputada até 2004) e as Supercopas nacionais e europeia, por serem realizadas em jogo único – na Espanha, uma exceção, esse último torneio era decidido em duas partidas até 2017/2018.

Também não entraram na conta a Copa da Liga Inglesa, a Copa da Liga Francesa e a Copa da Liga Portuguesa, torneios menores que não possuem similares nos demais países analisados.

Brasil

  • Brasileiro e Copa do Brasil: Cruzeiro-2003
  • Libertadores e Mundial: São Paulo-2005, Internacional-2006 e Corinthians-2012

Alemanha

  • Alemão, Copa da Alemanha, Liga dos Campeões e Mundial: Bayern-2013
  • Alemão e Liga dos Campeões: Bayern-2001
  • Alemão e Copa da Alemanha: Bayern-2003, Werder Bremen-2004, Bayern-2005, Bayern-2006, Bayern-2008, Bayern-2010, Borussia Dortmund-2012, Bayern-2014 e Bayern-2016

Espanha

  • Espanhol, Copa do Rei, Liga dos Campeões e Mundial: Barcelona-2009 e Barcelona-2015
  • Espanhol, Liga dos Campeões e Mundial: Barcelona-2011
  • Copa do Rei, Liga dos Campeões e Mundial: Real Madrid-2014
  • Espanhol e Liga dos Campeões: Barcelona-2006
  • Espanhol e Copa do Rei: Barcelona-2016 e Barcelona-2018
  • Espanhol e Copa da Uefa: Valencia-2004
  • Copa do Rei e Copa da Uefa: Sevilla-2007

França

  • Francês e Copa da França: Lyon-2008, Lille-2011, PSG-2015, PSG-2016 e PSG-2018

Holanda

  • Holandês e Copa da Holanda: Ajax-2002 e PSV-2005

Inglaterra

  • Inglês, Liga dos Campeões e Mundial: Manchester United-2008
  • Copa da Inglaterra e Liga dos Campeões: Chelsea-2012
  • Inglês e Copa da Inglaterra: Arsenal-2002 e Chelsea-2010
  • Copa da Inglaterra e Copa da Uefa: Liverpool-2001

Itália

  • Italiano, Copa da Itália, Liga dos Campeões e Mundial: Inter-2010
Celebração da Inter de Milão ao conquistar o Mundial de Clubes com vitória sobre o Mazembe, do Congo, em Abu Dhabi (Emirados Árabes), há oito anos (Marwan Naamani – 18.dez.2010/AFP)
  • Liga dos Campeões e Mundial: Milan-2007
  • Copa da Itália e Liga dos Campeões: Milan-2003
  • Italiano e Copa da Itália: Inter-2006, Juventus-2015, Juventus-2016, Juventus-2017 e Juventus-2018

Portugal

  • Português, Taça de Portugal e Copa daUefa/Liga Europa: Porto-2003 e Porto-2011
  • Português e Liga dos Campeões: Porto-2004
  • Português e Taça de Portugal: Sporting-2002, Porto-2006, Porto-2009, Benfica-2014 e Benfica-2017

Rússia

  • Russo, Copa da Rússia e Copa da Uefa: CSKA-2005
  • Russo e Copa da Rússia: CSKA-2006, Zenit-2010 e CSKA-2013

Ucrânia

  • Ucraniano e Copa da Ucrânia: Shakhtar Donetsk-2002, Dínamo Kiev-2003, Dínamo-2007, Shakhtar-2008, Shakhtar-2011, Shakhtar-2012, Shakhtar-2013, Dínamo-2015, Shakhtar-2017 e Shakhtar-2018

Em tempo 1: No Brasil, até voltando mais no tempo constata-se a dificuldade para obter título nacional e internacional no mesmo ano. Só ocorreu quatro vezes, duas com o Santos de Pelé (campeão brasileiro, da Libertadores e do Mundial, em 1962 e 1963), uma com o Palmeiras (campeão da Copa do Brasil e da Copa Mercosul em 1998) e uma com o Vasco (campeão do Brasileiro e da Copa Mercosul em 2000). A Copa Mercosul é precursora da Copa Sul-Americana.

Em tempo 2: Neste ano, dois clubes brasileiros têm chance de ganhar não dois, nem três, mas até quatro títulos. Utopia? Pode ser. Mas Palmeiras e Cruzeiro continuam na disputa tanto da Copa do Brasil (semifinais) como da Libertadores (quartas de final) e ainda brigam no Brasileiro – muito mais o Palmeiras, é verdade, hoje a apenas seis pontos do São Paulo, que ocupa o topo da tabela.