O ensinamento que os palpites (não) trazem

Para comentarista ou analista de futebol, dar palpite faz parte do métier.

É tão tradicional quanto o próprio futebol, eu diria.

No começo dos anos 1980, garoto ainda, mas já fixado no mundo da bola, eu tinha o hábito de aos domingos ouvir por seguidas horas a rádio Jovem Pan, começando no fim da manhã, para me informar sobre os jogos do dia mais nobre do futebol.

Milton Neves comandava o Plantão de Domingo, programa que se estendia até por volta de 15 horas e 30 minutos, quando começava a transmissão do estádio, de onde José Silvério costumava narrar, a partir das 16 horas, o principal confronto da rodada na capital paulista.

Em determinado momento, pré-jogo, o apresentador convidava o narrador (Silvério ou Edemar Annuseck), o comentarista (Orlando Duarte ou Randal Juliano) e os repórteres (Wandeley Nogueira e Luís Carlos Santos, que depois virou Luís Carlos Quartarollo) para dar o palpite: time X, time Y ou empate?

Eu não escutava as outras emissoras (perdi as narrações dos excepcionais Osmar Santos e Fiori Gigliotti, por exemplo), porém imagino que nelas deveria ocorrer o mesmo.

Particularmente, gostava de saber em quem os especialistas apostavam, pois dava para concluir, com base na avaliação dos entendidos, qual era o time mais qualificado para a vitória na partida, ou se a peleja não tinha favorito.

Depois do jogo, esses palpites eram esquecidos, como se jamais tivessem existido. Não se dizia quem acertou, quem errou… Tinham se tornado meras palavras, emitidas pouco mais de duas horas antes, que o vento levara para bem longe, sem nunca mais voltarem.

Hoje, como escriba neste espaço, vejo-me algumas vezes imbuído da vontade de palpitar.

Fiz isso, por exemplo, há quase um ano, no começo da temporada 2017/2018. Com os argumentos que tinha à mão, elegi os vencedores dos principais campeonatos europeus (Alemanha, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália e Portugal) e da Copa do Mundo da Rússia.

Foram oito palpites. Quantos certos? Cinco, ou 63%.

Jogadores do Manchester City erguem a taça da Premier League depois do jogo com o Huddersfield, no estádio Etihad, em Manchester (Paul Ellis – 6.mai.2018/AFP)

Acertei os campeões na Alemanha (Bayern), na França (PSG), na Inglaterra (Manchester City), na Itália (Juventus) e em Portugal (Porto). Errei os da Espanha (deu Barcelona e não Real Madrid), da Holanda (deu PSV e não Ajax) e da Copa (deu França e não Brasil).

Apesar do índice de acerto ter sido satisfatório, decidi esmiuçar as minhas deduções e tirar lições, para definir em que (ou em quem) acredito ou não acredito a partir de agora.

  • Previ Brasil x Argentina na final do Mundial.

Deu França x Croácia.

Ainda acredito: no Brasil. A seleção poderia ter chegado lá; foi superior à Bélgica no jogo da eliminação e poderia passar pela França na semifinal.

Não acredito mais: que Messi tem condição de conduzir a Argentina à glória; por mais que seja espetacular, não conseguirá ganhar sozinho.

  • Previ que Neymar faria mais de 30 gols no Francês.

Parou nos 19, no fim de fevereiro, quando lesão no pé o afastou do campeonato. Ainda faltavam 11 partidas; era possível, porém não provável, pela média de gols por jogo (0,95), que Neymar ultrapassasse os 30 tentos.

Neymar depois de fraturar o quinto metatarso do pé direito em jogo contra o Olympique de Marselha na Ligue 1 (Stephane Mahe – 25.fev.2018/Reuters)

Não acredito mais: que Neymar fará mais que 30 gols no Francês, agora na temporada 2018/2019; seria otimismo demais; seu recorde são os 24 gols (em 34 jogos) pelo Barcelona no Espanhol 2015/2016.

  • Previ que o Bayern seria campeão com mais de dez pontos de vantagem sobre o vice.

Foi, com folga de 19 pontos para o Schalke 04.

Ainda acredito: que mais uma vez a equipe de Munique leva a Bundesliga (será a sétima seguida); e, sim, com mais de dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

  • Previ que o Porto seria campeão graças aos gols de Tiquinho.

Campeão o time foi, mas graças aos gols do malinês Marega (22) e do camaronês Aboubakar (15). O atacante brasileiro balançou as redes oito vezes em 24 partidas. Lesionado em parte da temporada, perdeu dez jogos do Porto e só conseguiu jogar como titular, do início ao fim, quatro partidas.

Não acredito mais: que Tiquinho, caminhando para os 28 anos, será um expoente no Porto (nem em nenhum outro clube).

  • Previ que o Ajax seria campeão revelando ao menos três ótimos jovens talentos.

Deu PSV Eindhoven na Holanda, porém o time de Amsterdã mostrou ao mundo o zagueiro De Ligt, de 19 anos, o meia Van de Beek, de 21 anos, e os atacantes Dolberg, 20 (que é dinamarquês), e Justin Kluivert, 19 (filho de Parrick Kluivert, ex-Barcelona e seleção holandesa), que nesta temporada defenderá a Roma.

Ainda acredito: no Ajax como fábrica de revelações.

Observado por Cucurella, do Barcelona, Patrick Kluivert (34), ex-Ajax, defende a Roma em jogo da pré-temporada, em Arlington, nos EUA (Cooper Neill – 31.jul.2018/AFP)

Crenças e descrenças expostas, menciono aquela velha máxima, que salva dez entre dez analistas esportivos: futebol é uma caixinha de surpresas.

Falei em lições dos palpites para concluir que tento aprender o que não é possível ser ensinado.

Todas as minhas conclusões, umas mais, outras menos, têm chance de sucumbir em questão de meses, como resultado desse imponderável jogo que é o futebol…

Em tempo: Para não perder o hábito e por pura insistência e falta de resistência, eis os meus campeões para 2018/2019: Bayern (Alemanha), Barcelona (Espanha), PSG (França), Ajax (Holanda), Manchester City (Inglaterra), Juventus (Itália), Benfica (Portugal), Liverpool (Liga dos Campeões da Europa), Brasil (Copa América).