Mão na bola, bola na mão: afinal, quando o pênalti deve ser marcado?

Marcelo, lateral-esquerdo do Real Madrid, reconheceu depois da partida de terça (1º) com o Bayern de Munique, semifinal da Champions League, que cometeu um pênalti não dado pela arbitragem.

No primeiro tempo do jogo na capital espanhola, 1 a 1 no placar, o lateral Kimmich fez um cruzamento, e a bola desviou na mão esquerda de Marcelo.

Mesmo estando bem colocado, o árbitro Cüneyt Çakir, da Turquia, não marcou infração do brasileiro no lance.

Tampouco houve interferência de seus auxiliares (um bandeirinha, que corre pela linha lateral, e um assistente que fica na linha de fundo), que como Çakir estavam de frente para a jogada.

Não é impossível, porém é bem difícil pelo menos um deles não ter visto que a bola tocou na mão de Marcelo.

Tendo visto, cada um só pode ter tido a certeza de que era um caso de “bola na mão”, em que a penalidade máxima não deve ser marcada. Pelo menos segundo a Regra 12 do futebol (“Infrações e Má Conduta”), que trata do tema ao afirmar o seguinte: “Um tiro livre deve ser marcado quando um jogador põe a mão na bola deliberadamente”.

Porém essa regra quase nunca é cumprida à risca, ou a quantidade de pênaltis por toque de mão na bola seria drasticamente menor que a vista jogo a jogo.

No Brasil, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) adota diretrizes específicas para a regra.

No texto intitulado “Padrão de Arbitragem”, publicado em 2017, eis a definição da CBF para quando a “bola na mão” ocorre: “É a situação na qual o jogador, ao disputar a bola, tem cuidado em não tocá-la, porém em função da velocidade e da distância a bola o surpreende. Nesse caso não há infração”.

Foi isso o que aconteceu com Marcelo? É possível fazer essa interpretação?

Marcelo, do Real Madrid, que declarou que seria um mentiroso se não admitisse que a bola bateu na sua mão no jogo contra o Bayern; o juiz não deu pênalti (Juan Medina – 1º.mai.2018/Reuters)

Passemos à definição referente a “mão na bola”, também segundo a CBF: “É a situação na qual o jogador deliberadamente coloca a mão na bola, ou em função de uma ação deliberada bloqueia a bola ou assume o risco de bloqueá-la. Nesse caso, o árbitro deverá marcar um tiro livre direto ou tiro penal”.

Pelo que observei, o toque de Marcelo com a mão na bola não foi intencional, contudo isso não lhe garante um salvo-conduto. Para boa parte dos árbitros, cabe ao jogador, no movimento com os braços, cuidar para que eles fiquem grudados ao corpo.

Muitos cuidam, e até colocam os braços para trás, junto às costas, em lances em que marcam um adversário dentro da própria área, a fim de deixar claro para a arbitragem a preocupação em evitar que a bola toque ou resvale em um deles.

Não se tomou esse cuidado, e a bola bate no braço ou na mão? O risco de um pênalti ser assinalado existe, e é elevado.

Na maioria das vezes, não há intenção de tocar a bola irregularmente, mas isso não costuma ser considerado, já que o árbitro entende que o jogador assumiu o risco de interferir na trajetória da redonda, estando, assim, sujeito a ser penalizado.

Então por que a arbitragem não deu o pênalti para o Bayern na partida em Madri, já que o próprio Marcelo considera que houve o pênalti? (“Se [a bola] pega na minha mão, é sim [pênalti]”, disse ele à Fox Sports da Argentina.)

Ou porque nem o árbitro nem seus auxiliares viram o toque de Marcelo ou porque levaram ao pé da letra o que está escrito nas regras do futebol, da Fifa: a falta só deve ser marcada quando um jogador toca a bola com a mão propositadamente.

Na segunda hipótese, entra-se na problemática da falta de padronização para marcar ou não falta quando a bola bate na mão de um jogador, que envolve discussões sobre a distância que o atleta está do adversário antes de a bola atingir seu braço ou mão (seria possível ele evitar?) e a amplitude da abertura do braço antes do toque involuntário na pelota.

Estou exagerando ou sendo cri-cri ao criticar a necessidade de uniformização? Dou um exemplo que mostra que não.

Na quarta (2), na outra semifinal da Champions League, Roma x Liverpool, perto do fim do jogo o árbitro esloveno Damir Skomina apontou para a marca penal depois de a bola tocar no braço do zagueiro Klavan, do Liverpool, que acompanhava o atacante Ünder.

Na comparação com o lance de Marcelo, no qual não foi assinalado o pênalti (e mesmo com outro na partida na capital italiana, na qual Alexander-Arnold, do Liverpool, claramente desviou a bola com a mão direita em chute de El Shaarawi), a jogada envolvendo Klavan, que parecia ter o braço junto ao corpo, era bem menos passível de ser definida como penalidade máxima.

Lance em que a bola toca no braço de Klavan, do Liverpool, no jogo contra a Roma; veja os gols e lances da partida que classificou o time inglês para a decisão da Liga dos Campeões da Europa (Reprodução/Site da Uefa)

Resultado dessa ausência de padronização relacionada à mão na bola/bola na mão, o que é infração para determinado árbitro não é para outro.

Jogos em dias consecutivos do mais importante interclubes da Europa escancararam essa deficiência. Que confunde e irrita torcida, técnico, jogadores, dirigentes e, pior, prejudica o futebol, tirando-lhe credibilidade.

Em tempo 1: Os apologistas do VAR (sistema de videoarbitragem) verão neste texto um prato cheio para defender sua imediata implementação na Champions League. Por enquanto, isso não vai acontecer, já que o presidente da Uefa (entidade que controla o futebol na Europa) quer observar melhor o funcionamento e a eficiência da ferramenta. Da minha parte, escrevo o já escrito: o VAR tornará o jogo de futebol repleto de paralisações, pondo em risco sua dinâmica, e nem sempre resultará em acerto – no caso de jogadas de bola na mão na área, o vídeo muitas vezes não irá dirimir a dúvida sobre a existência ou não do pênalti.

Em tempo 2: Solicitei tanto à Fifa como à Uefa esclarecimentos a respeito da não marcação do pênalti na jogada em que Marcelo toca com a mão na bola. Não houve resposta.