Alemão Kramer dá aos desavisados lição sobre a barreira

O jogo não era dos mais interessantes: Borussia Mönchengladbach x Wolfsburg, pelo Campeonato Alemão (já decidido, com o Bayern campeão), na sexta (20).

E o primeiro tempo se desenrolava sem grandes surpresas, com o time da casa, favorito, ganhando por 2 a 0 (gols de Stindl e do brasileiro Raffael) até perto do fim da etapa.

Aos 43 minutos, falta perigosa para o Mönchengladbach perto da grande área. A geração de imagens mostra o replay do lance faltoso (o que é praxe nessas ocasiões, pois o jogo estava parado) e, quando a transmissão ao vivo é retomada, jogadores estão comemorando o 3 a 0.

“Perderam o gol [os responsáveis pela exibição da partida]”, surpreendeu-se o locutor Marco de Vargas, do canal Fox Sports, para logo emendar: “É rede! Goooooooooooooool! Que o narrador não viu! Que ninguém viu! Gol de Kramer! Queremos ver o gol”.

A jogada é recuperada, e o que se vê?

Enquanto os jogadores do Wolfsburg conversam entre eles e o goleiro do time, o belga Casteels, posiciona-se junto à trave esquerda para formar a barreira, Kramer, volante do Mönchengladbach, chuta espertamente a bola para o gol, sem muita força, e sai para o abraço.

Para surpresa dos atletas do Wolfsburg, o árbitro Tobias Stieler confirma o gol. Há um princípio de reclamação, mas não havia razão para tal.

O gol foi legítimo, já que no futebol, apesar de muita gente não saber (incluindo alguns jogadores do Wolfsburg), a formação da barreira não é obrigatória – não há nada nas regras do esporte sobre a barreira.

Há certa confusão porque muitas vezes um jogador da equipe que sofreu a falta faz a cobrança com rapidez e o árbitro manda voltar, esperar o apito para fazer a bola rolar.

É isso que está errado. Não se pode beneficiar o infrator, mas muitas vezes a arbitragem permite que isso aconteça.

Ou seja, cabe ao ataque, não à defesa, decidir se a falta será batida imediatamente ou não.

Caso o ataque demore para reiniciar a partida, a equipe que defende pode optar por proteger sua meta com o recurso da barreira (comumente utilizado) ou por descartá-lo.

Às vezes, geralmente quando a infração ocorre em posição que viabilize um chute direto para o gol, o batedor até prefere que seja formada a barreira, que lhe servirá de referência.

Se o ataque permite a formação da barreira, o árbitro assume o controle, já que ela tem de ficar a 9,15 m da bola. Conforme a regra que versa sobre faltas, essa é a distância mínima exigida para cada jogador de defesa estar distante do local da cobrança. Barreira formada, o juiz dá a autorização para o jogo seguir.

Assim, no lance em questão na Bundesliga, felicitações para Kramer, conhecedor das regras do futebol (ou pelo menos da que trata da barreira), e para o árbitro Stieler, que acertou ao validar o gol.

Parecendo conformado, De Vargas, que narra futebol há quase duas décadas, concluiu sua locução assim: “Pela primeira vez na história, eu narrei um gol que não vi”.

Se serve de consolo ao colega, nem ele nem ninguém que assistia ao jogo pela TV.

Em tempo: O volante Cristoph Kramer, de 27 anos, defendeu a seleção alemã na Copa do Mundo do Brasil, em 2014. Titular na final contra a Argentina, levou uma forte pancada na cabeça, em lance com o zagueiro Garay, e teve de ser substituído aos 32 minutos do primeiro tempo. O choque lhe causou amnésia, e ele não se lembra de ter ido a campo na mais importante partida de sua vida.