Quando um jogo de futebol remete à mitologia grega

Não sou um profundo conhecedor da mitologia grega, bem longe disso.

Não faz muito tempo, porém, fiz uma releitura da “Ilíada”, de Homero, que narra a famosa Guerra de Troia.

Dessa forma, rememorei personagens que estavam esquecidos desde a adolescência, quando li a obra pela primeira, e até então única, vez.

Entre esses personagens, marcantes heróis gregos: o semideus Aquiles, Ajax, Agamenon, Diomedes, Ulisses. (Entre os troianos, menciono Heitor, que teve embate épico com Aquiles, e Eneias.)

Deve perguntar o leitor o que os heróis gregos e a Guerra de Troia têm a ver com futebol.

Nada.

Na “Ilíada”, em nenhum momento os personagens batiam uma bolinha. O único esporte ali era a guerra.

Só que algumas vezes a realidade remete à ficção, ou vice-versa, e eu enxerguei isso em Roma x Barcelona, jogo de volta das quartas de final da Liga dos Campeões da Europa, nesta terça (10).

O estádio Olímpico, na capital italiana, foi o palco de uma das grandes viradas da história do futebol.

Depois de ter sido massacrada no jogo de ida, 4 a 1 em Barcelona, a Roma subjugou Messi e companhia e goleou por 3 a 0. O gol fora de casa lhe valeu a classificação à fase semifinal.

De nada teria adiantado esse gol como visitante, entretanto, se a Roma não tivesse marcado o terceiro tento na partida de volta, a oito minutos do término do tempo regulamentar.

Imagem do terceiro e decisivo gol da Roma na vitória contra o Barcelona; veja lances da partida (Reprodução/Site da AS Roma)

De cabeça, após escanteio, um grego alto (1,89 m) e forte (83 kg) apareceu no primeiro pau e cabeceou, preciso, colocando a bola no canto direito do goleiro alemão Ter Stegen.

Ele saiu em disparada rumo à lateral do campo, os músculos da face retesados, braços abertos, boca igualmente aberta emanando urros que faziam coro com os da torcida enlouquecida – havia mais de 50 mil fãs da Roma no Olímpico.

Uma cena que fica para os anais do futebol.

E que cria um novo herói, cujo nome há de ser guardado: Konstantinos “Kostas” Manolas.

Zagueiro de 26 anos. Guerreiro desde os 18.

Relata o site britânico Dream Team que no dia 16 de junho de 2009, dois dias após atingir a maioridade, ao defender o AEK, de Atenas, seu time do coração, contra o Olympiacos, fraturou um osso da face em um choque com rival no minuto inicial da partida.

Permaneceu em campo, e cinco minutos depois, abriu o placar para sua equipe. Passados mais nove minutos, com a dor intensa, foi substituído. Recusou-se, no entanto, a ir ao hospital, permanecendo no estádio até o fim do jogo, ganho pelo AEK por 2 a 1.

No dia seguinte, submeteu-se a uma cirurgia de três horas no rosto.

Passados quase nove anos, mesmo não pertencendo à mitologia, esse grego tornou-se mito em Roma, um semideus como Aquiles.

Será idolatrado para sempre na cidade eterna.

Em tempo 1: Em uma das ironias do futebol, Kostas Manolas (que tem o número 44 às costas  – informação só para não deixar passar o trocadilho) havia sido vilão na partida no Camp Nou, a arena do Barcelona, na semana anterior, ao marcar um gol contra. Redimiu-se, heroicamente.

Em tempo 2: A última (e única) vez que a Roma chegou a uma semifinal da principal competição europeia entre clubes foi em 1984. Com uma equipe que incluía os excelentes meio-campistas Falcão e Toninho Cerezo, titulares do Brasil na Copa do Mundo de 1982, superou o escocês Dundee e avançou à decisão, na qual foi derrotada nos pênaltis (4 a 2) pelo Liverpool, em pleno estádio Olímpico de Roma, após empate por 1 a 1.