Quem inventou a bicicleta, jogada que hoje consagra Cristiano Ronaldo?

Atual detentor do prêmio de melhor jogador do mundo, Cristiano Ronaldo deu de presente ao futebol seu lance mais bonito em uma década e meia como profissional da bola: um gol de bicicleta na Liga dos Campeões da Europa.

Na vitória por 3 a 0 do Real Madrid contra a Juventus, no Allianz Stadium, em Turim, o supercraque português de 33 anos atingiu a bola com seu pé direito, de costas para o gol, a uma altura de mais de dois metros do chão. E a colocou no canto esquerdo do goleiro Buffon.

Um malabarismo de rara plasticidade, nunca visto antes no repertório do fenomenal CR7, célebre por ser uma máquina de fazer gols – a quase totalidade deles, porém, “comuns”, sem grande beleza.

O gol de Cristiano Ronaldo, classificado por ele de “fantástico” em entrevista pós-jogo, me fez lembrar de outros, também feitos de bicicleta.

Cristiano Ronaldo, acrobático, vence o goleiro Buffon; veja lances de Juventus x Real Madrid, jogo de ida das quartas de final da Liga dos Campeões (Reprodução/Site da Uefa)

Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo balançaram as redes dessa forma quando defendiam o Barcelona. O inglês Rooney, também, à época de Manchester United (hoje está no Everton). O sueco Ibrahimovic fez assim, e de fora da área (a uns 25 metros de distância do gol), em amistoso da seleção de seu país contra a Inglaterra.

Os que mais me marcaram, porém, aconteceram aqui mesmo, no Brasil.

Um do lateral-esquerdo Wladimir, no 10 a 1 do Corinthians sobre o Tiradentes, do Piauí, no estádio do Canindé, em 1982. É até hoje a maior goleada do Campeonato Brasileiro.

Outro do meia Neto, hoje comentarista esportivo, em 1988, pelo Guarani, diante do Corinthians, na partida de ida da decisão do Campeonato Paulista, 1 a 1 no Morumbi.

Foi ótimo, aliás, porque revi o gol após 30 anos, na marcante narração do locutor Edemar Annuseck, confirmando sua espetacularidade e de quebra rememorando a comemoração de Neto, que saiu berrando “eu sou foda!”.

Satisfeito ao rever no YouTube uma série de gols oriundos de uma das jogadas mais acrobáticas do futebol, perguntei-me: quem criou a bicicleta?

Desde garoto, sempre soube que foi um brasileiro, Leônidas da Silva, que inclusive fez um gol de bicicleta na Copa de 1938, na França, diante da Tchecoslováquia.

Aposto que muita gente tem certeza de que foi ele o primeiro a “parar no ar” e “pedalar” por uma fração segundo.

Os relatos históricos, contudo, dão conta de que Leônidas (ídolo de Flamengo e São Paulo), apelidado Diamante Negro, não a inventou, tão somente a difundiu.

Questionei a Fifa acerca do tema, e a entidade máxima do futebol me encaminhou um texto publicado em 2016.

Nele, intitulado “Todos se rendem diante da chilena”, afirma-se que a bicicleta nasceu, “como seu nome indica”, no Chile, conforme relato do escritor uruguaio Eduardo Galeano.

O criador? Ramón Unzaga, cuja primeira acrobacia de conhecimento público teria ocorrido em um campo do porto da cidade de Talcahuano, em 1914, sendo repetida por ele nas edições da Copa América de 1916 (na Argentina) e 1920 (no Chile).

Há, todavia, outra versão. A de que a jogada nasceu em um outro porto, o de Callao, no Peru, onde um nativo teria executado o lance (batizado de “chalaca”) em jogo contra marinheiros ingleses. Isso no século 19, precisamente em 1892, de acordo com o historiador local Jorge Basadre.

Diplomática, a Fifa prefere não creditar a criação do lance a um país, enfatizando apenas a região de origem. “Venha de onde venha, do Brasil, do Chile ou do Peru, tudo leva a crer que surgiu na América do Sul.”

No mesmo texto, são citados três gols anotados de bicicleta em Copas do Mundo.

Do alemão Klaus Fischer na Espanha-1982, na semifinal contra os franceses; do belga Marc Wilmots, na Coreia/Japão-2002, diante dos japoneses; e do mexicano Manuel Negrete, no México-1986, contra os búlgaros – um gol que claramente não foi de bicicleta, mas de voleio.

Em tempo: Não tenho dúvida. Cristiano Ronaldo acumulará no segundo semestre mais um troféu em sua laureada carreira. Ganhará com folga o Prêmio Puskás, dado pela Fifa anualmente ao autor do gol mais bonito da temporada. São favas contadas.