Fora das listas recentes de Tite, Gil diz que seleção não pode ser um peso

Luís Curro

Campeão brasileiro (2015) e paulista (2013) com o Corinthians, o zagueiro Gil perdeu espaço na seleção brasileira na segunda metade de 2017.

No segundo semestre do ano passado, o técnico Tite fez três convocações, duas para jogos das eliminatórias e uma para amistosos, e em nenhuma delas selecionou o beque de 30 anos, nascido em Campos dos Goytacazes (RJ), que defende desde 2016 o Shandong Luneng, da China.

Como opções para os titulares Marquinhos (PSG) e Miranda (Inter de Milão), o treinador preferiu chamar para a zaga Thiago Silva (PSG), Jemerson (Monaco) e Rodrigo Caio (São Paulo).

Questionado por “O Mundo é uma Bola” sobre ter sido preterido nos últimos meses, e às vésperas da penúltima convocação antes do Mundial da Rússia, Gil afirmou que “todo jogador pensa em seleção”, mas que “isso não pode ser um peso”.

“Tenho que seguir fazendo meu trabalho. E isso tenho feito no dia a dia, sempre me dedicando, atuando em alto nível, sem lesão e em condições físicas ideais.”

E ele tem mesmo estado bem distante das lesões e esbanjado vitalidade no Shandong Luneng, onde tem como colega o atacante Diego Tardelli, outro atleta já convocado por Tite porém com chance remota de ir à Copa do Mundo.

O zagueiro Gil (dir.) com o atacante Diego Tardelli, seu companheiro no Shandong Luneng, da China (Reprodução/Instagram de Gil)

Sem jamais ter se contundido desde que embarcou para a Ásia, Gil disputou 67 partidas de 70 possíveis (somando o Campeonato Chinês e a Liga dos Campeões da Ásia), sempre como titular e sendo substituído em apenas uma. Marcou três gols e, disciplinado, não recebeu nenhum cartão vermelho e apenas cinco cartões amarelos.

O jogador, cujo nome de batismo é Carlos Gilberto do Nascimento Silva, preferiu não dizer, na entrevista feita por e-mail, se Tite o contatou para explicar a razão, ou as razões, de o ter excluído das listas mais recentes.

O blog fez esse questionamento ao treinador, via assessoria, mas não obteve resposta.

Titular da seleção que fracassou na Copa América Centenário, em 2016, quando o técnico ainda era Dunga, Gil entrou em campo com a camisa do Brasil pela última vez no dia 9 de junho do ano passado, na derrota por 1 a 0 para a Argentina, em amistoso em Melbourne (Austrália).

Leia a seguir a entrevista completa com o zagueiro, que também defendeu na carreira o Americano-RJ, o Atlético-GO, o Cruzeiro e o Valenciennes (França).

Em sua primeira temporada na China (2016), o Shandong Luneng esteve perto de ser rebaixado, terminando o campeonato em antepenúltimo lugar. No ano passado, a equipe acabou na sexta colocação na Super Liga. Como você explica essa melhora?
Gil: No primeiro ano, tivemos algumas dificuldades. Era uma boa equipe, bem parecida com a de 2017, mas as coisas não andaram. Tivemos também uma mudança de treinador no meio do caminho (saiu Mano Menezes, entrou o alemão Felix Magath), o que é sempre ruim. Muitos jogadores novos também tinham chegado, e infelizmente não fomos bem. Mas pudemos ir bem na Liga dos Campeões da Ásia, fazendo uma das melhores campanhas da história ao chegarmos até as quartas de final. No ano passado, o time esteve mais organizado e conseguimos terminar como a defesa menos vazada da Liga (33 gols em 30 partidas) e em uma posição melhor. Espero que em 2018 possamos ser ainda melhores, brigando entre as primeiras posições das competições.

Depois de duas temporadas no futebol chinês, como avaliar o nível, fazendo uma comparação com os países em que você já atuou (Brasil e França)? 
Gil: Temos um bom nível, que evolui a cada ano. São jogadores de qualidade, de vários países, experientes. Isso mostra o nível da competição. Os chineses têm buscado melhorar sempre, são muito dedicados, e a Liga é forte. São equipes de um nível parecido umas com as outras. A diferença é grande de um país para outro, assim como foi entre França e Brasil. Aqui na China é um estilo de jogo mais rápido, mas com muita influência europeia e sul-americana por conta dos treinadores e jogadores estrangeiros.

Considera que seu futebol progrediu de 2016 para 2017? Se sim, o que contribuiu para isso?
Gil: Eu busco sempre progredir. Não posso nunca achar que está bom e estagnar. Creio que tenha evoluído em todos os anos, e não só de 2016 para 2017. O que contribui é minha dedicação no dia a dia, trabalho duro e disciplina. Sempre procuro ouvir muito também para aprender. Além do trabalho no clube, com o Bruno Mazziotti (fisioterapeuta, ex-Corinthians) eu sempre procuro fazer os complementos, correções, e isso me ajuda muito. O nível de enfrentamento de atacantes aqui também é muito forte, o que nos mantém em uma disputa de alto grau de exigência.

Gil comemora gol que marcou pelo Shandong Luneng em julho do ano passado contra o Changchun Yatai (Reprodução/Instagram de Gil)

Encontrou alguma grande dificuldade ao se mudar para a China, tanto dentro como fora de campo?
Gil: No começo é um pouco complicado, pois a mudança é realmente grande. Em nível de cultura, língua, cidade e até mesmo no estilo de jogo. Mas hoje já estou muito tranquilo e totalmente ambientado.

Seu nome não foi incluído por Tite nas três últimas convocações da seleção brasileira. Ele fez contato com você para explicar a razão?
Gil: Isso é algo que a gente costuma tratar internamente e prefere não ficar falando. Tenho feito meu trabalho pelo Shandong Luneng. E ser convocado, como eu sempre disse, é fruto do que cada um fizer em seus clubes.

No dia 2 de março, haverá uma nova convocação, a penúltima antes da Copa, para amistosos contra Alemanha e Rússia. Tem esperança de aparecer nessa lista?
Gil: Todo jogador pensa em seleção, e comigo não é diferente. Mas isso não pode ser um peso. Tenho que seguir fazendo meu trabalho normalmente no clube onde eu estiver. E isso tenho feito no dia a dia, sempre me dedicando, atuando em alto nível, sem lesão e em condições físicas ideais.

Gil disputa bola pelo alto com o paraguaio Gomez em partida em Assunção pelas eliminatórias da Copa da Rússia (29.mar.2016/Associated Press)

No Brasil pouco se fala do futebol chinês, a exposição do campeonato e dos times é bem reduzida. Há algum tipo de arrependimento em ter deixado o país, ainda mais depois de ter se firmado em um clube do porte do Corinthians?
Gil: Nenhum arrependimento. Foi tudo muito pensado, algo bom para mim e para o Corinthians. No futebol temos essas oportunidades e uma carreira curta. O Shandong me dá toda a estrutura de trabalho de que preciso para me manter bem e em alto nível. O campeonato tem sido transmitido para o Brasil (a Bandsports exibiu jogos em 2017) e hoje, com o avanço tecnológico, todos podem acompanhar qualquer campeonato do mundo. Obviamente, a (minha) exposição é menor do que no Brasil, mas é possível acompanhar, sim.

Você está com 30 anos. Pretende jogar até que idade e quais são seus objetivos no futebol a curto, médio e longo prazo?
Gil: No futebol acho que temos que ir vivendo passo a passo e sempre trabalhar para atuar em alto nível. Enquanto me sentir bem para atuar assim, vou seguir. Por conta disso, me preocupo muito com a parte física, a parte técnica e a alimentação. Tudo isso junto, bem organizado, é que faz a gente poder ter uma carreira longa, mesmo quando estivermos numa idade mais avançada. Hoje vemos vários exemplos assim, com atletas dedicados e que fazem uso das novas tecnologias e métodos de treino avançados para se manter em alta.

Em tempo: Pelo andar da carruagem, é improvável que Gil esteja entre os 23 que Tite selecionará para a disputa do Mundial, que começa no dia 14 de junho. Ele tem, contudo, chance de figurar entre os 35 pré-selecionados pelo treinador da seleção para a Copa. Essa lista deve ser entregue à Fifa até o dia 14 de maio. Estando nela, dependerá de lesões de companheiros para ter chance de figurar na relação final.