Renato Augusto se vê na China com mais liberdade e liderança do que na seleção

Titular da seleção brasileira, o meia Renato Augusto, ex-Flamengo e Corinthians, se prepara para sua terceira temporada no futebol chinês.

Ele defende desde o início de 2016 o Beijing Guoan, da capital, Pequim, com quem tem contrato até o fim de 2021.

Renato Augusto no jogo em que o Bejing Guoan ganhou do Liaoning Kaixin por 4 a 0, em agosto de 2017,
em Pequim (Reprodução/Site do Beijing Guoan)

Sem a mesma badalação dos colegas de seleção que atuam em grandes clubes da Europa, incluindo todos os demais titulares de Tite (Neymar, Daniel Alves e Marquinhos são do Paris Saint-Germain; Paulinho e Philippe Coutinho, do Barcelona; Marcelo e Casemiro, do Real Madrid; Miranda, da Inter de Milão; Alisson, da Roma; e Gabriel Jesus, do Manchester City), Renato Augusto tergiversou ao responder a uma pergunta que fiz a respeito da possibilidade de perder a posição no time.

“Como qualquer outro no grupo, visto a camisa para ajudar no que for preciso, sempre buscando fazer o melhor. A concorrência é muito grande em todas as posições. Todos têm que se manter em alto nível.”

O que eu concluo é: Renato Augusto acha que, se não se mantiver “em alto nível”, pode sim perder o lugar que tem sido cativo desde o fim de 2015, quando, ainda quando o treinador era Dunga, substituiu Lucas Lima no segundo tempo do empate por 1 a 1 com a Argentina, pelas eliminatórias da Copa do Mundo, em Bueno Aires.

Depois, iniciou as 15 partidas restantes do Brasil no qualificatório para o Mundial russo, sendo o técnico Dunga (até a metade de 2016) ou Tite (de lá até hoje), e foi substituído em apenas quatro.

Mais que isso: fez parte, também como titular, da seleção sub-23 (como um dos três com mais idade que o regulamento permitia) que conquistou o inédito ouro olímpico para o Brasil no futebol, na Rio-2016.

O meia comemora ao converter seu pênalti na disputa de penalidades máximas contra a Alemanha na final dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, no Maracanã (Odd Andersen – 20.ago.2016/AFP)

Particularmente, nunca considerei que essa hipótese (Renato Augusto deixar a equipe) pudesse se concretizar. Apesar de o futebol nem sempre ser previsível, seria uma aberração Renato Augusto não jogar.

No meio-campo, por aliar como poucos o poder de marcação com o de articulação, é tão ou mais importante que Casemiro (muito combativo, mas com pouco poder de criação) e Paulinho (quase um quarto atacante).

Mas me senti instado a fazer esse questionamento por ter lido mais de uma vez, em colunas do genial Tostão, acerca de uma alternativa para tornar a seleção mais ofensiva, com Willian (do Chelsea) na ponta direita (e não Philippe Coutinho) e Philippe Coutinho como terceiro homem de meio-campo. Nesse esquema, o sacado seria Renato Augusto.

Essa é uma opção válida para uma situação em que o Brasil esteja perdendo e precise de mais força ofensiva, porém enalteço aquele velho ditado: “Em time que está ganhando não se mexe”.

Sendo direto: Renato Augusto não deve sair do time, até porque tem mantido, nas apresentações pela seleção, o “alto nível” que ele mesmo se cobra. Jogado muito bem mesmo.

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Ainda sobre seleção, na entrevista (feita por e-mail) o meia de 29 anos e 1,86 m declarou que, em seu time na China, ele tem mais liberdade para atuar do que na seleção. E que exerce uma função de liderança maior do que na equipe de Tite.

“Faço (no Beijing Guoan) mais ou menos a mesma função (que na seleção), mas com outras responsabilidades, por ter que chamar mais o jogo e orientar os mais novos em campo. Tenho até mais liberdade em mais setores do campo por conta disso.”

Ao lado de Song Boxuan no duelo em outubro de 2017 com o Tianjin Teda (Reprodução/Site do Beijing Guoan)

Ter “mais liberdade” significa que Renato Augusto pode na China flutuar mais pelo campo, chegar mais vezes ao ataque e ter mais chances de finalizar ou dar assistências.

Na seleção, ele tem de ter mais cuidado ao se aventurar ofensivamente, já que faz o papel de segundo volante – e a marcação é prioridade. Em um time cujos laterais (Daniel Alves e Marcelo) são hiperofensivos, é necessário haver cobertura, e Renato Augusto e Casemiro têm essa incumbência.

O aspecto de liderança na seleção é desimportante. Tite procura dividir a responsabilidade entre todos, tanto que faz um rodízio da tarja de capitão. Dos titulares, apenas o goleiro Alisson e o atacante Gabriel Jesus ainda não vestiram a braçadeira na era do atual treinador.

A seguir, a entrevista a “O Mundo é Uma Bola”, na qual o jogador fala sobre os adversários do Brasil na Copa da Rússia, a evolução do futebol chinês, videoarbitragem, a vida na China e seus planos para o futuro.

Jogadores do Beijing Guoan posam para foto antes da partida contra o Jiangsu Suning, em outubro de 2017; Renato Augusto está na fileira de trás, ao lado do goleiro, e o também ex-corintiano Ralf é o primeiro, à esq., na fila da frente (Reprodução/Site do Beijing Guoan)

A Copa do Mundo se aproxima. Suíça, Costa Rica e Sérvia são os adversários do Brasil. Dá para destacar algo nesses rivais?
Renato Augusto:
A Suíça sempre se notabilizou por ter um bom sistema defensivo. Acredito que jogarão bem fechados contra a gente. Já a Costa Rica tem um futebol mais solto, costuma se lançar ao ataque também. E a Sérvia tem uma escola mais parecida com a nossa. Sempre aparecem bons jogadores, de técnica apurada. Uma coisa é certa: todos já estão sendo muito bem analisados pelo Tite e toda a comissão.

Há quem considere que a melhor formação para a seleção é com William pela direita, Coutinho como terceiro homem de meio e Paulinho no seu lugar. Teme ser sacado do time pelo Tite às vésperas da Copa?
Renato Augusto: 
Na história, o Brasil sempre foi aclamado e reverenciado pelo futebol que pratica, sempre esteve entre as melhores seleções do mundo, apontado como um dos favoritos em qualquer competição que disputa, justamente pelo nível e pela qualidade de seus jogadores. Como qualquer outro no grupo, visto a camisa para ajudar no que for preciso, sempre buscando fazer o melhor. A concorrência é muito grande em todas as posições. Todos têm que se manter em alto nível.

No seu clube você joga do mesmo jeito que na seleção ou exerce função diferente?
Renato Augusto: 
Faço mais ou menos a mesma função, mas com outras responsabilidades, por ter que chamar mais o jogo e orientar os mais novos em campo. Tenho até mais liberdade em mais setores do campo por conta disso.

Como você se sente fisicamente? Apto a jogar sempre os 90 minutos?
Renato Augusto: 
Assim como fiz quando fui vendido para o futebol alemão (jogou de 2008 a 2012 no Bayer Leverkusen), quando vim para a China também trouxe um fisioterapeuta comigo para conseguir me manter no melhor nível físico possível. Independentemente do futebol jogado, minha preocupação sempre foi estar muito bem preparado. Além dos treinos do dia a dia no clube, faço um trabalho individual em casa, personalizado, para trabalhar as valências das quais meu corpo precisa.

A China novamente não obteve a classificação para a Copa, o que indica que, mesmo com vários jogadores e treinadores estrangeiros (alguns renomados) atuando no país, os chineses não passaram a jogar muito melhor. Por que não há essa evolução?
Renato Augusto: 
Isso não aconteceria de uma hora para outra. O poder econômico, apenas, não seria capaz de transformar o futebol chinês numa potência. Tudo isso leva tempo, mas eles estão no caminho certo. Há uma nítida evolução em todos os sentidos, não só dentro de campo. O governo investe no futebol, desde as escolas, na educação… Aconteceu movimento parecido no futebol japonês anos atrás, assim como no mundo árabe, e hoje eles são muito mais evoluídos do que eram e estão sempre disputando Copa do Mundo. Tem que se dar tempo ao tempo para as coisas acontecerem.

Já está falando chinês com fluência? Consegue se comunicar bem no idioma, dar entrevistas?
Renato Augusto: 
Dar entrevistas, formular frases mais longas, é complicado. É preciso ter um tradutor ao lado, não tem jeito. Já falar o básico, as palavras do dia a dia, acabamos nos virando. Mas, muitas vezes, vai na base dos gestos mesmo. É um idioma de difícil domínio.

Como é a vida em Pequim, muito diferente de Rio e São Paulo?
Renato Augusto: 
É muito tranquilo, pois estou na capital. Podemos até comparar com Rio e São Paulo, sim, por ser uma metrópole, uma cidade que não para, muito movimentada. Eu e minha esposa temos uma vida muito boa, encontramos de tudo, seja supermercados, shoppings, bons restaurantes, lugares lindos para conhecer… Estamos bem adaptados.

Renato Augusto e a mulher, Fernanda, celebram a chegada no novo ano (Reprodução/Instragram de Renato Augusto)

Quais os grandes meio-campistas da atualidade, aqueles que você tem como exemplos de futebol bem jogado?
Renato Augusto: 
Não gosto de analisar jogador. Existem grandes jogadores mundo afora.

Quais as suas maiores qualidades e no que você precisa se aperfeiçoar?
Renato Augusto: 
Deixo para os outros fazerem essa análise. Busco sempre estar bem para fazer o meu melhor. Quanto a nos aperfeiçoarmos, essa tem que ser uma rotina. Em tudo. Temos sempre que evoluir e buscar um algo a mais. É isso que nos motiva a ir além, não só na carreira como na vida.

Em entrevista à Folha em setembro de 2015, você se posicionou contra a videoarbitragem no futebol. Mantém esse pensamento? 
Renato Augusto: 
Eu não acredito que (a videoarbitragem) seja o que vai resolver todos os problemas. Acredito muito na profissionalização do árbitro. Ter árbitro de vídeo é um custo muito alto. E, se passar a valer em determinada competição, tudo precisa ser bem esclarecido. Quando vai poder pedir para rever o lance, quem pode pedir, quantas vezes… É uma questão delicada.

Você tem contrato com o Beijing Guoan até o fim de 2021. Pensa em cumpri-lo até o final?
Renato Augusto:
Sou feliz aqui, apesar de ficar mais longe da família e dos amigos. O clube me recebeu muito bem e sou muito bem tratado por todos. Deixo as coisas acontecerem naturalmente.

Renato Augusto com a camisa do Flamengo, clube que o revelou e pelo qual jogou profissionalmente de 2005 a 2008 (Reprodução/Instragram de Renato Augusto)

Há planos para retornar ao Brasil?
Renato Augusto: 
Não há planos em relação a isso, mas acredito que ainda possa jogar no Brasil antes de encerrar a minha carreira. Mas ainda está cedo para pensar nisso.

Em tempo: Nas duas temporadas pelo Beijing Guoan, Renato Augusto disputou ao todo 51 partidas (23 em 201, 28 em 2017), todas pelo Campeonato Chinês. Acumulou oito gols, cinco assistências, apenas dois cartões amarelos e nenhuma expulsão.