Técnicos Mourinho e Conte travam guerra verbal na Inglaterra

Luís Curro

José Mourinho, um dos treinadores mais conceituados e vitoriosos do mundo, tem a sua face encrenqueira, que não é nada oculta.

O português de 54 anos, não é de hoje, adora se envolver em confrontos verbais com seus colegas de profissão. (Com a imprensa, mais ainda, mas esse enfrentamento não é o cerne deste texto.)

Com passagens por Porto (Portugal), Inter de Milão (Itália), Chelsea (Inglaterra) e Real Madrid (Espanha), o hoje técnico do Manchester United (Inglaterra) já teve célebres rixas, em ocasiões diversas, com o holandês Frank Rijkaard (aposentado), os espanhóis Pep Guardiola (Manchester City) e Rafael Benítez (Newcastle) e o francês Arsène Wenger (Arsenal).

O alvo da vez é Antonio Conte, de 48 anos, comandante do Chelsea (atual campeão inglês), que, como bom italiano, tem o sangue bastante quente.

José Mourinho, treinador do Manchester United, e Antonio Conte, técnico do Chelsea (Ian Kington e Oli Scarff/AFP)

Impulsivo e passional, Conte se comporta ao lado do gramado, durante as partidas dos Blues, como mais um torcedor. Vibra com as boas jogadas do time, levas as mãos ao rosto e à cabeça nas chances perdidas, gesticula e grita incessantemente tentando orientar seus atletas. Não para um único minuto. Energia pura.

Quando sai um gol a favor, é aquela explosão de alegria: não raro, Conte atira-se nos braços dos torcedores próximos ao banco de reservas do Chelsea, para delírio deles.

Não é comum um treinador ser ultraemotivo como Conte.

A maior parte festeja discretamente, punho cerrado. O lamento é igualmente sutil: uma careta e/ou um olhar de reprovação para o auxiliar técnico.

No outro extremo, tem técnico que, quando a equipe balança as redes, é como se absolutamente nada tivesse acontecido: permanece sentado, impávido, uma pedra.

Particularmente, considero divertido o jeito extrovertido do italiano. Futebol é emoção, e Conte “põe tudo pra fora”.

Antonio Conte vibra no estádio Stamford Bridge, em Londres, depois de gol de sua equipe diante do Stoke City em jogo do Campeonato Inglês (John Sibley – 30.dez.2017/Reuters)

Mas não é todo mundo que aprecia esse estilo.

Entra em cena o mordaz Mourinho.

Em entrevista no dia 5, antes do jogo com o Derby County pela Copa da Inglaterra, o português foi questionado sobre ter supostamente perdido o afã para ganhar títulos.

A resposta: “Porque eu não me comporto como um palhaço à beira do campo quer dizer que perdi minha vontade? Não é preciso ser um louco para ter esse desejo. Prefiro agir com maturidade. É melhor para o time, é melhor para mim”.

Mourinho não citou nomes, porém ficou claro que ele se referia, com a palavra “palhaço”, a Conte e a Jürgen Klopp, técnico do Liverpool, outro notório técnico-torcedor.

Leia também: Klopp mostra a Mourinho a vantagem de ser um treinador simpático

Klopp não deu importância, mas Conte se doeu.

Replicou no dia seguinte: “Ele (Mourinho) deve olhar para o passado dele. Talvez estivesse falando de si próprio. Às vezes a pessoa se esquece do que disse no passado, do seu comportamento. Não sei o nome… demência senil… quando você esquece o que fez no passado”.

O Chelsea esclareceu que Conte não encontrou as palavras certas para se expressar e queria ter dito “amnésia”, e não “demência senil”, que é uma doença neurodegenerativa na qual a pessoa perde sua capacidade cognitiva.

Era o que Mourinho queria. Sabendo da reação de Conte, mandou a tréplica: “Não preciso do técnico do Chelsea para dizer que cometi erros no passado. Comemorei gols correndo 50 metros, comemorei deslizando de joelhos, comemorei pulando na torcida. Hoje me controlo melhor”.

A seguir, a estocada: “O que nunca aconteceu comigo e nunca vai acontecer é ser suspenso por arranjo de resultados”.

Quando comandava a italiana Juventus, Conte recebeu em 2012 uma suspensão de dez meses (depois reduzida para quatro) ao ser acusado de omitir seu conhecimento sobre a manipulação de resultado em jogo do Siena, time que treinava, na temporada 2010/2011.

Ele sempre negou saber da fraude. Em 2016, a Justiça italiana o absolveu.

O ataque de Mourinho enfureceu Conte. Que, ríspido e ácido, deu réplica à tréplica.

“Antes de fazer esse tipo de comentário, antes de machucar outra pessoa, você deve prestar muita atenção. Você (Mourinho) mostrou que é um homenzinho. Mourinho é assim: baixo nível. Um homenzinho no passado, no presente e certamente no futuro.”

“Houve um exemplo com (Claudio) Ranieri”, prosseguiu Conte, referindo-se ao seu compatriota que treinou o Chelsea no começo dos anos 2000 e obteve a façanha de levar o pequeno Leicester ao inédito título da Premier League em 2016. “Ele ofendeu Ranieri por seu inglês. Depois, quando Ranieri foi demitido, vestiu uma camisa com o nome de Ranieri. Ele é uma farsa.”

Em 2008, Mourinho criticou Ranieri ao afirmar que ele, depois de vários anos na Inglaterra, não sabia falar nem um “bom-dia”. No ano passado, após o italiano ser demitido pelo Leicester devido a maus resultados, o português apareceu em uma entrevista vestindo uma camisa com as iniciais “CR”. Ranieri hoje treina o Nantes, da França.

Conte encerrou o assunto em tom desafiador, citando a data em que se encontrarão, 25 de fevereiro, quando o Man United receberá o Chelsea no Old Trafford: “Eu e ele, cara a cara. Estou pronto. Não sei se ele está”. O italiano frisou que sua raiva não passará até lá: “Ele deu declarações muito sérias. Não esquecerei”.

Os microfones voltaram para Mourinho, que tentou, com seu habitual ar blasé, colocar um ponto-final no tema, não sem deixar de escancarar sua perversidade.

Mourinho, de braços cruzados, e Conte, agitado, em duelo entre Manchester United e Chelsea na Premier League no estádio Old Trafford, em Manchester (Oli Scarff – 16.abr.2017/AFP)

“Quando uma pessoa insulta outra, você pode esperar uma resposta. Ou você pode esperar desprezo, silêncio. A primeira vez que ele me insultou, dei uma resposta, e uma resposta que eu sabia que tocaria em um ponto que realmente o machucaria. Então ele me insultou uma segunda vez. Agora eu o desprezo, e desprezo significa: fim da história.”

O português deu essa declaração faz uma semana, e depois disso de fato não houve mais repercussão.

Ou quase.

Nesta quinta (18), dois comediantes italianos abordaram Mourinho na porta do suntuoso hotel em que ele mora em Manchester e, em uma descontraída conversa, pediram ao técnico que assinasse uma camisa do Man United.

O técnico, solícito, atendeu. Para depois saber que a camisa trazia nas costas o número 1 e o nome “Antonio Conte”.

Num dia de bom humor, Mourinho apenas sorriu.

Em tempo 1: O duelo verbal entre Mourinho e Conte serviu para tirar um pouco os holofotes das campanhas de Manchester United e Chelsea no Inglês. Não que sejam ruins. Os Red Devils estão em segundo lugar, com 50 pontos, e os Blues, em quarto, com 47. O problema é que o título é considerado inatingível. O líder Manchester City, de Guardiola, está com 62 pontos e sobra no campeonato, com 20 vitórias, 2 empates e uma única derrota.

Em tempo 2: Treinador desde 2000, Mourinho tem muito mais títulos que Conte, e títulos mais importantes. Eis alguns: duas Ligas dos Campeões da Europa (com Porto e Inter de Milão), três Campeonatos Ingleses e uma Copa da Inglaterra (com o Chelsea), uma Copa da Uefa (com o Porto), uma Liga Europa (com o Man United), dois Campeonatos Italianos e uma Copa da Itália (com a Inter), um Campeonato Espanhol e uma Copa do Rei (com o Real Madrid). Conte, que foi um bom meio-campista como jogador, tendo defendido a Juventus por 14 anos e a seleção italiana por sete, iniciou sua carreira na prancheta em 2006 e faturou três Campeonatos Italianos (com a Juventus) e um Campeonato Inglês (com o Chelsea).

Em tempo 3: Nos confrontos diretos entre Conte e Mourinho, em partidas Chelsea x Man United, o italiano leva vantagem. Ganhou três jogos, todos no Stamford Bridge, em Londres (4 a 0 em 2016, pelo Inglês, e dois 1 a 0 em 2017, pela Copa da Inglaterra e pelo Inglês), e perdeu um, no Old Trafford (2 a 0, no ano passado).