Poucos estrangeiros começam o ano em alta no Brasil

Luís Curro

Desde sempre o Brasil não desfila estrangeiros com futebol de primeira linha em seus clubes.

Esses (Petkovic, Tevez, Pedro Rocha, Figueroa, Gamarra, Romerito, Rodolfo Rodríguez, Arce, Rincón, Darío Pereyra, Conca, De León, Ramos Delgado, Sorín e alguns poucos outros entre centenas e centenas) foram e continuam sendo exceções.

A ampla maioria vem de países sul-americanos, o que é compreensível pelo fator geográfico – não há um oceano como separador das fronteiras. Assim, europeu, africano, asiático ou norte-americano por aqui são raridade.

E, entre eles, a minoria serve às seleções de seus países. Ou seja, pouquíssimos devem estar na Copa do Mundo da Rússia, em junho.

Mas tem gente boa, é válido ressalvar.

Gente que já provou seu valor, como o peruano Guerrero, hoje flamenguista, autor do gol do título mundial do Corinthians em 2012, contra o Chelsea.

Há também aqueles que terminaram 2017 em alta. E outros dos quais se esperava mais no ano que acabou faz menos de dez dias – Guerrero entre eles.

Neste início da temporada nacional, enumero futebolistas estrangeiros que começam 2018 com imagem positiva. São poucos.

A mais agradável surpresa gringa do Brasileiro-2017 foi o meia venezuelano Otero, de 25 anos e 1,65 m. Ele teve um final de campeonato excelente.

O venezuelano Otero comemora gol pelo Atlético-MG (Aizar Raldes – 3.mai.2017/AFP)

Dos oito gols que marcou, todos aconteceram no segundo turno, e cinco saíram nas três últimas partidas do Galo – um deles, um golaço do meio de campo contra o Coritiba.

Otero se mostrou essencial para que o time ganhasse dois e empatasse um desses jogos – por muito pouco o time mineiro, que fez um Brasileiro bem aquém do esperado, não obteve a classificação para a Libertadores.

Curiosamente, outro estrangeiro que veste a camisa do Atlético-MG, Cazares, anotou um gol do meio-campo, só que no final de 2016, na decisão da Copa do Brasil.

Entre os estrangeiros do Galo, aliás, era esperado fulgor em 2017 justamente de Cazares. O equatoriano ficou devendo.

Dois zagueiros encerraram a temporada com desempenho para lá de convincente e estão de bem com suas respectivas torcidas: o paraguaio Balbuena e o argentino Kannemann.

O primeiro sagrou-se campeão do Brasileiro com o Corinthians. Firme na marcação, não raro se lançou ao ataque nas jogadas de bola parada para balançar as redes dos oponentes: teve sucesso quatro vezes. No Brasileiro anterior, não fizera nenhum gol.

O segundo, de pouca técnica e muita raça (fazendo jus à fama dos zagueiros argentinos), formou uma respeitável, até memorável, dupla de zaga com Pedro Geromel – este, considerado o melhor beque do Brasileiro-2017.

Com eles, o Grêmio, além da consistente campanha no Brasileiro (foi quem mais ameaçou o Corinthians), faturou a Libertadores depois de 22 anos e chegou à decisão do Mundial de Clubes – faltou força para superar o Real Madrid.

Balbuena e Kannemann, ambos aos 26 anos, tornaram-se sinônimos de confiabilidade à frente do goleiro, atrás dos volantes e entre os laterais. Dois autênticos xerifes.

Kannemann (dir.) em ação pelo Grêmio na Libertadores (Itamar Aguiar – 22.nov.2017/AFP)

No ataque, havia grande expectativa acerca das performances de Guerrero, pelo Flamengo, Lucas Pratto, pelo São Paulo, e Borja, pelo Palmeiras. O trio jogou bem abaixo do previsto, em quantidade, em qualidade ou em quantidade e qualidade.

O argentino Pratto demonstrou comprometimento e muita luta, porém na prática pouco ajudou a equipe tricolor na sofrível campanha no Brasileiro. Seus sete gols em 35 jogos pareceram uma ninharia – em 2015, pelo Atlético-MG, fez quase o dobro disso (13).

Nesta segunda (8), o São Paulo anunciou sua saída. Prato vai para o River Plate.

Guerrero jogou menos (19 vezes), anotou seis gols e, no fim do ano, acabou suspenso por teste positivo em exame antidoping.

O colombiano Borja, destaque do Atlético Nacional campeão da Libertadores de 2016, também parou nos seis gols, em 24 partidas – mal aproveitado por Cuca, só começou nove delas. Com a troca de treinador (no meio de outubro assumiu interinamente Alberto Valentim), teve mais espaço e sua produção subiu.

Como essas estrelas se mostraram pouco cintilantes, houve oportunidade para atletas de menos nome emitirem alguma luz.

Casos de dois conterrâneos de Borja, que defenderam times baianos.

Centroavante típico, como os demais mencionados, Tréllez, de 27 anos, fez dez gols pelo Vitória (em 23 jogos) e foi o principal goleador gringo do Brasileiro-2017.

Mendoza, de 25 anos, um segundo atacante cujo maior predicado é a velocidade, somou oito pelo Bahia (em 31 partidas). Ele pertence ao Corinthians, que quer negociá-lo – haveria interesse do Amiens, 13º colocado no Campeonato Francês.

Um goleiro? Gatito Fernández, paraguaio do Botafogo, registrou um belo início de Brasileiro; depois, decaiu junto com o time alvinegro. Está com 29 anos.

Outros forasteiros a serem citados?

Sim, todos com atuações oscilantes no último Brasileiro: Mina e Guerra (Palmeiras), Cueva e Arboleda (São Paulo), Ángel Romero (Corinthians), Copete (Santos), Barrios (Grêmio), Carli (Botafogo), Lucas Romero e Arrascaeta (Cruzeiro), Allione (Bahia), Berrío, Cuéllar e Trauco (Flamengo), Orejuela e Sornoza (Fluminense), Lucho González (Atlético-PR), Martín Silva (Vasco), Mena (Sport).

E há as completas decepções, como Conca (Flamengo), que em nada lembra hoje o jogador que brilhou no Fluminense nesta década, Jonathan Gómez (São Paulo), Filigrana (Coritiba), Bolaños (Grêmio).

Espera-se bem mais deles neste ano. Dos que ficam, pois as idas e vindas de gringos são bem constantes – alguns dos mencionados nos dois parágrafos anteriores já deixaram o clube por que jogaram.

E é assim mesmo. Quando menos se espera, dois gringos vão, um chega – ou um vai, dois chegam.

Aliás, foi-se embora nesta segunda Reinaldo Rueda, depois de fracassar com o Flamengo em duas finais, a da Copa do Brasil e a da Copa Sul-Americana. O colombiano era o único técnico estrangeiro em um time de ponta no país. Assumirá a seleção do Chile.

Em tempo: Em 2017 completaram-se 45 anos da última vez que um estrangeiro sagrou-se artilheiro do Brasileiro. Na realidade, coartilheiro. Na edição de 1972, Pedro Rocha fez 17 gols pelo São Paulo, mesmo número de Dario, o Dadá Maravilha, pelo Atlético-MG. Em 2007, o uruguaio Acosta, atuando pelo Náutico, quase conseguiu o feito: marcou 19 gols, só um a menos que Josiel, do Paraná Clube.