Benevento consegue 1º ponto na elite italiana com gol de goleiro aos 49min do 2º tempo

Por Luís Curro

Eram 14 derrotas em 14 partidas.

A pior série de reveses na história de um início de campeonato de primeira divisão das cinco principais ligas europeias (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália), superando as 12 derrotas consecutivas do Manchester United no Campeonato Inglês de 1930-1931.

Parecia que nada seria capaz de fazer com que o pequeno Benevento, time do sul da Itália que faz sua estreia na Série A nesta temporada, saísse do zero na tabela.

O Benevento teve uma ascensão rápida e inesperada na Itália, subindo da Série C para a Série B em 2015-2016 (foi sua primeira vez na segunda divisão) e da Série B para a Série A em 2016-2017 (outro feito inédito), o que animava jogadores, comissão técnica, direção e torcida para esta temporada.

Ânimo que passou a se esvair com a falta de resultados. A equipe perdeu a primeira, a segunda, a terceira… a décima segunda, a décima terceira, a décima quarta.

Sampdoria, Bologna, Torino, Napoli, Roma, Crotone, Internazionale, Hellas Verona, Fiorentina, Cagliari, Lazio, Juventus, Sassuolo e Atalanta. Todos passaram, com maior ou menor dificuldade, pelo Benevento.

Neste domingo (3), no estádio Ciro Vigorito, em Benevento (com capacidade para perto de 13 mil pessoas), seria a vez do Milan, de técnico novo (Gennaro Gattuso substituiu Vincenzo Montella), ampliar o sofrimento do time mandante.

E o favorito cumpria o que se esperava: tinha feito dois gols (Bonaventura e Kalinic) e levado um (Puscas).

O Benevento, com um jogador a mais – Romagnoli tinha sido expulso aos 30 minutos da etapa final –, impunha grande pressão, porém o Milan se segurava.

Até que nos acréscimos do segundo tempo, aos 49 minutos (a partida iria até os 50), aconteceu o improvável. Gol do Benevento.

Brignoli, goleiro do Benevento, vibra ao fazer aos 49 minutos do segundo tempo o gol do empate contra o Milan, no Campeonato Italiano (Ciro De Luca – 3.dez.2017/Reuters)

Improvável por ele dar ao time, quando ninguém mais esperava, seu primeiro ponto na elite italiana. Improvável por o autor do gol ter sido… seu goleiro.

Contratado pelo Benevento para esta temporada – antes defendia o Perugia –, Alberto Brignoli, de 26 anos, avançou para a área do Milan e, de cabeça, depois de cobrança de falta de Cataldi, colocou a bola nas redes, fora do alcance de Donnarumma, o goleiro do Milan.

Êxtase no pequeno estádio. Festa nas arquibancadas. Alegria contagiante dos atletas do Benevento. E perplexidade no rosto de Gattuso.

Brignoli, com seu gol de goleiro na hora agá, proporcionou um desses momentos que fazem do futebol um esporte apaixonante, com acontecimentos empolgantes e sensações indescritíveis, para quem comemora e para quem lamenta – pois será um dia de más recordações para a nação rubro-negra de Milão.

A questão que fica é: esse ponto foi fruto do acaso ou dá para o Benevento conquistar outros muitos pontos, pelo menos mais 33 (no campeonato passado, o Crotone se safou com 34 pontos), suficientes para livrá-lo do retorno à Série B?

A sequência recorde de derrotas praticamente condenou o time, precocemente, ao rebaixamento – com quase metade do campeonato disputado, são nove pontos de distância para a primeira equipe fora da zona da degola.

Isso com a 15ª rodada em andamento, ou seja, esse número aumentaria para pelo menos dez pontos, a depender dos resultados de Fiorentina x Sassuolo (11 pontos) e Hellas Verona (9 pontos) x Genoa (10 pontos).

Assim, será dificílimo, uma tarefa hercúlea, para o Benevento permanecer na elite. Terá de, como nesse dia especial de celebração, fazer o improvável.

Em tempo 1: Uma curiosidade. Brignoli, o goleiro-herói d Benevento, veste a camisa 22. No lance do seu histórico gol, ele ganhou de cabeça do jogador que vestia a camisa 22 do Milan: o zagueiro argentino Musacchio. Depois jo jogo, Brignoli resumiu o lance à Sky Sport: “Fechei os olhos e pulei. Foi mais um mergulho de goleiro do que atacante”.

Em tempo 2: Se você tem mais de 40 anos (talvez mais de 50) deve se lembrar do meia Dirceu, o Dirceuzinho (ex-Botafogo, Fluminense e Vasco), que jogou pelo Brasil nas Copa do Mundo de 1974 (Alemanha Ocidental), 1978 (Argetina) e 1982 (Espanha). Defendeu o Atlético de Madri, no final da década de 1970 e início da de 1980, e atuou por vários clubes italianos. Um deles, o Benevento, já em fim de carreira, na primeira metade da década de 1990. Dirceu morreu em um acidente de carro, no Rio de Janeiro, em 1995.