‘Se tivermos o Brasil pela frente, estaremos prontos’, afirma treinador da Islândia

Por Luís Curro

“Se tivermos de enfrentar o Brasil, estaremos prontos para a luta.”

Com essas palavras, o treinador Heimir Hallgrímsson, de 50 anos, deixa claro que a seleção que comanda não tem medo de ninguém, nem mesmo dos pentacampeões mundiais.

Essa seleção não é uma gigante do futebol, como Alemanha, Argentina ou Inglaterra, mas a Islândia, que no mês passado obteve pela primeira vez a classificação para uma Copa do Mundo.

Será o menor país, em população (cerca de 335 mil habitantes), a participar de um Mundial de futebol.

O treinador da Islândia, Heimir Hallgrímsson, durante partida contra a Turquia pelas eliminatórias da Copa de 2018 (Umit Bektas – 6.out.2017/Reuters)

Surpresa a obtenção da vaga, diante de seleções teoricamente superiores, como Croácia, Turquia e Ucrânia? Sim, pela falta de tradição no futebol. E não, pelo histórico de resultados de cinco anos para cá.

País da Europa nórdica, a Islândia (Terra do Gelo) tem uma seleção em ascensão. Com qualidades como disciplina e organização, por pouco os jogadores não carimbaram seus passaportes para o Mundial no Brasil, em 2014. Perderam dos croatas na repescagem.

Na sequência, eles obtiveram a inédita classificação para a Eurocopa. Nessa competição, em 2016, a Islândia tornou-se uma das atrações, indo muito além do esperado. Não apenas passou da primeira fase (empatou com Portugal e Hungria e ganhou da Áustria) como eliminou os ingleses (2 a 1) no primeiro mata-mata. Parou apenas nos anfitriões franceses (5 a 2), nas quartas de final.

Sem um craque – seu jogador menos desconhecido, o meia-atacante Gylfi Sigurdsson, do Everton (Inglaterra), está longe de ser um supertalento –, a Islândia se ampara na força do conjunto e na interminável disposição dos atletas. Raça não falta do início ao fim de cada jogo.

A interação com a torcida também é uma marca do time. Depois do apito final de cada partida, os jogadores se juntam diante de seus fãs no estádio e iniciam, liderados pelo barbudo Gunnarsson, seu capitão, um bater ritmado de palmas, do lento ao acelerado. Hipnotizante.

Gunnarsson, aliás, foi comparado pelo treinador Hallgrímsson a mitos do futebol logo após a classificação islandesa para a Copa da Rússia-2018, com uma vitória em casa por 2 a 0 sobre o Kosovo, no dia 9 de outubro.

“É realmente estranho, não sei bem o que falar. Quero dizer… Pelé, Maradona, Aron Einar Gunnarsson”, afirmou.

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Em entrevista por e-mail a “O Mundo é Uma Bola”, o técnico, que é dentista de formação, explicou a razão dessa frase e falou também da campanha nas eliminatórias e de sua expectativa sobre o futuro da seleção.

O meio-campista Gunnarsson, capitão da seleção islandesa, comemora a vitória sobre o Kosovo, que assegurou seu país no Mundial da Rússia (Brynjar Gunnarsson – 9.out.2017/Associated Press)

A Islândia será o país menos populoso a disputar uma Copa do Mundo. Qual o sentimento do time e dos islandeses por atingir essa façanha?

Heimir Hallgrímsson: Obviamente, estão todos encantados. Como um time, estamos satisfeitos por termos atingido nosso objetivo e feito história. Os torcedores, claro, estão em êxtase. Faz alguns anos que o país tem estado louco por futebol, e esperamos poder manter isso assim.

Qual foi o momento mais difícil nas eliminatórias europeias?

Hallgrímsson: Ficamos um tanto desapontados ao perder fora de casa para a Finlândia [1 a 0, no dia 2 de setembro], porém talvez esse tenha sido o tapa na cara de que precisávamos, pois fizemos na sequência nossas melhores partidas. Algumas pessoas pensaram que aquele era o resultado que arruinaria nossas chances, mas o futebol é um esporte tão fantástico que qualquer um pode ser derrotado e qualquer um pode superar qualquer adversário.

Depois do jogo contra o Kosovo, você comparou Pelé e Maradona, talvez os dois melhores jogadores da história, com Gunnarsson, um bom jogador. Pode explicar?

Hallgrímsson: Gunnarsson é um jogador diferente dessas lendas, mas para o nosso time ele é um líder igualmente importante.

Já pensou em enfrentar o Brasil na Copa do Mundo?

Hallgrímsson: Para ser bem franco, não pensei em contra quem gostaríamos de jogar na Rússia. Há tantas seleções boas. Se tivermos o Brasil pela frente, nos prepararemos bem e estaremos preparados para lutar.

A Islândia já conseguiu conquistas incríveis, como a classificação para a Eurocopa-2016, chegar às quartas de final dessa competição, a vaga para a Copa… O que mais esperar?

Hallgrímsson: Nossa próxima meta é obviamente a Copa do Mundo da Rússia, e temos de nos preparar para ela o melhor possível. Mas também temos de pensar além. Teremos um novo torneio europeu, a Liga das Nações [a partir de setembro de 2018, com a final em junho de 2019], na qual estamos na divisão principal com algumas das grandes seleções da Europa. Nós somos uma família futebolística, e a seleção, a comissão técnica, a federação nacional, os clubes, devemos fazer todo o possível para manter nossa qualidade dentro e fora do campo.

Qual o segredo do sucesso da Islândia?

Hallgrímsson: Entramos em cada jogo para vencer. No futebol, é um objetivo verossímil, e temos provado isso repetidamente.

Hallgrímsson na partida da Islândia contra a Hungria na Eurocopa de 2016, quando dividia a função de treinador da seleção com o sueco Lars Lagerbäck (esq.) (Eddie Keogh – 18.jun.2016/Reuters)

Hallgrímsson saberá nesta sexta (1º) se a Islândia terá uma partida agendada com o Brasil na Copa da Rússia.

O sorteio dos grupos para o Mundial será realizado em Moscou a partir das 13 horas (de Brasília).

Em tempo: Ao enviar as respostas do treinador Heimir Hallgrímsson, a Federação Islandesa de Futebol, que conta com apenas cem jogadores registrados que se dedicam exclusivamente à prática do esporte, anexou um texto no qual aponta as suas razões para o bom desempenho da seleção do país. “Podemos firmemente elencar três fatores para explicar o sucesso recente da seleção masculina de futebol da Islândia. Locais de treinamento de primeira linha, alto nível de qualificação dos treinadores e uma boa geração de jogadores.”