Fã de Cristiano Ronaldo, brasileiro supera lesão e ofensas para levar time japonês ao Mundial

Por Luís Curro

No final de 2016, quase uma equipe japonesa surpreendeu o Real Madrid e conquistou o mundo.

Na decisão do Mundial de Clubes da Fifa, o Kashima Antlers endureceu o jogo com o gigante espanhol em Yokohama (Japão). Chegou a estar ganhando por 2 a 1 antes e perto do fim do tempo regulamentar, 2 a 2 no placar, não fosse um erro gravíssimo do árbitro, que deixou de expulsar o zagueiro Sergio Ramos, do Real, iria para a prorrogação com um homem a mais, o que ampliaria sua chance de vitória.

Não aconteceu assim, e na prorrogação Cristiano Ronaldo marcou dois gols e o Real venceu por 4 a 2, ficando com o troféu.

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Neste final de 2017, uma outra equipe japonesa, o Urawa Red Diamonds (ou simplesmente Reds), deve ter a oportunidade de encarar o time merengue no Mundial da Fifa.

O Urawa está do mesmo lado da chave dos madrilenhos e, para haver o confronto na semifinal, terá de superar antes o vencedor de Al-Jazira (Emirados Árabes) e Auckland City (Nova Zelândia).

Caso esse duelo aconteça, uma das maiores esperanças dos nipônicos é um brasileiro. Titular do time, o atacante Rafael Silva, cria das categorias de base do Corinthians, foi o grande responsável por classificar o Urawa para o Mundial, que será realizado nos Emirados Árabes Unidos em dezembro.

Na decisão da Liga dos Campeões da Ásia, ele foi o cara.

No jogo de ida, dia 18, em Riad (Arábia Saudita), abriu o placar para o time japonês. A partida terminou 1 a 1.

No duelo decisivo, no sábado (25), sua estrela voltou a brilhar. Aos 43 minutos do segundo tempo, com um potente chute de dentro da grande área, marcou o único gol da partida, maravilhando a quase totalidade dos mais de 57,5 mil torcedores no estádio de Saitama.

Rafael Silva, do Urawa Red Diamonds, festeja o gol que deu à equipe japonesa o título da Liga dos Campeões da Ásia (Kazuhiro Nogi – 25.nov.2017/AFP)

Pouco conhecido no Brasil, de onde saiu em 2013, após passagem pelo Coritiba, rumo à Suíça (jogou no Lugano) e depois ao Japão (defendeu o Albirex Niigata antes do Urawa, para onde se transferiu neste ano), Rafael Silva vive aos 25 anos o melhor momento na carreira. São 21 gols em 39 jogos pelos Reds neste ano, sendo 9 deles na Champions asiática, a qual terminou como vice-artilheiro

De sua casa no Japão, onde mora sozinho, o atacante deu entrevista por telefone a “O Mundo é Uma Bola”.

Entre outras respostas, declarou que atuou na partida decisiva contra o Al Hilal no sacrifício, revelou ter sido alvo de ofensas raciais de torcedores adversários nas redes sociais na semana que antecedeu a partida, expôs a possibilidade de defender a seleção japonesa no futuro e falou sobre a admiração que tem de Cristiano Ronaldo, o supercraque do Real Madrid.

Você jogou machucado a partida decisiva?

Rafael Silva: Joguei machucado. No primeiro jogo eu torci o tornozelo e o joelho direito juntos, na mesma jogada. Não treinei a semana inteira, só fiz um único treino, um dia antes do jogo. Estava tomando injeção, tomando remédio, tratando. Fui para o jogo no sacrifício, na raça, com dor. Tomei três injeções, diminuiu um pouco a dor, mas a lesão ainda estava lá. Naquele último lance, quando fiz o gol, tive que esquecer a dor, tudo, e chutei a bola com raiva. Agora eu estou só me cuidando, para dar tempo de recuperar até o Mundial.

Na celebração do gol, você prestou continência. Tem algum significado essa comemoração?

Rafael Silva: Essa comemoração eu inventei no começo da temporada, antes de um jogo na Austrália. Eu queria ter uma marca minha na comemoração. Comecei a pensar, bolar alguma coisa. No jogo (contra o Western Sydney Wanderers, da Austrália, pela Liga dos Campeões, em fevereiro), marquei meu primeiro gol pelo Urawa e fiz essa comemoração. E aí pegou. No outro dia, os torcedores pediram para eu tirar foto com eles fazendo isso e virou uma marca minha. Passei a comemorar os gols sempre assim. É um cumprimento à torcida.

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Você marcou 9 gols na Champions asiática, sendo o vice-artilheiro, e outros 12 no Campeonato Japonês. É o melhor momento da sua carreira?

Rafael Silva: Com certeza é o melhor momento nesses três anos e meio que estou no Japão. Nesta temporada saíram mais gols e consegui ganhar dois títulos (o outro é o da Copa Suruga, contra a Chapecoense, em agosto).

Quais são suas características como jogador e o que dá para melhorar no seu futebol?

Rafael Silva: A minha explosão, com piques curtos em direção ao gol, jogadas de velocidade e força são as minhas principais características. A explosão no sprint final para poder finalizar. Quero continuar trabalhando com os pés no chão. Vou buscar aumentar os meus números, e no ano que vem o objetivo é vencer a J-League (o Campeonato Japonês).

Como você joga no Urawa? Tem posição fixa?

Rafael Silva: Comecei como centroavante e passei a jogar mais pela esquerda, aberto. Mas a minha posição mesmo é centroavante, fazendo o facão, é onde eu me sinto melhor. Facão é correr nas costas do zagueiro, na direção ao gol, para receber o passe do meia ou um cruzamento.

Qual a expectativa para o Mundial de Clubes?

Rafael Silva: Todos já estão pensando em jogar contra o Real Madrid. Meu objetivo é me recuperar e representar bem o Japão, me destacar. Se conseguirmos enfrentar o Real Madrid… É uma vitrine enorme, gigantesca, o mundo inteiro estará acompanhando, é uma oportunidade muito boa. Todos estão ansiosos, e comigo não é diferente. Quero enfrentar o Real Madrid e ser observado pelo mundo.

Uma grande atuação no Mundial pode mudar alguma coisa na sua vida?

Rafael Silva: Com certeza. Aqui na Ásia a gente fica um pouco escondido, sumido. Nesses campeonatos grandes há a oportunidade de aparecer para a Europa. Se houver a oportunidade de enfrentar o Real Madrid, será uma final de Copa do Mundo.

Qual sua opinião sobre o Cristiano Ronaldo?

Rafael Silva: É um jogador que decide jogos. E é um jogador que eu admiro fora de campo. Gosto de saber como ele se cuida. E ele é uma máquina, é diferente. Ninguém consegue ser que nem ele. É uma cara que está treinando o tempo todo, que não se vê em festa, que não faz bagunça. Não se vê notícia ruim dele. Ele se cuida muito, tem academia em casa, não tem lesão. Por isso tem esses números espetaculares na carreira. Procuro me espelhar nele, não para um dia ser igual, mas para poder ter uma regularidade, uma forma física parecida.

O Neymar é um jogador que gosta de festinhas, mas o rendimento dele também é bom…

Rafael Silva: Tem jogador que precisa disso. O Cristiano pode ser que também faça festas, mas é um cara mais discreto, mais reservado. Não vejo problema em festa. Só faz mal se for em excesso, pois seu rendimento vai cair.

Falando em festa, como foi a comemoração pelo título da Liga dos Campeões?

Rafael Silva: Reservamos um bar e foi o time inteiro, alguns torcedores também. Fizemos uma festa, coisa de duas horas. O pessoal toma cerveja adoidado. Saquê também, mas é mais cerveja.

Rafael Silva marca no fim do segundo tempo um belo gol para dar ao Urawa Red Diamonds a taça da Champions League asiática (Reprodução/YouTube)

Você tem um cabelo estiloso. Preocupa-se com o visual?

Rafael Silva: Claro. Sou um cara vaidoso. Estou sempre me cuidando. No Brasil, tem um cara que cuida bem do meu cabelo, passa uma esponjinha e tal. No Japão, todo mundo tem o cabelo liso. Aí chega um negão, com o cabelo duro, eles não sabem cuidar… (risos) Tem um cara que corta meu cabelo, dá uma enganada, vou me virando. Mas me cuido mais no Brasil, nas férias.

O que você almeja para sua carreira no futuro? Se puder escolher, jogará em qual país?

Rafael Silva: Admiro muito a liga inglesa e a liga espanhola. Escolheria uma dessas duas. Primeiro a Inglaterra, segundo a Espanha. Gosto do Arsenal e do Atlético de Madri.

Seleção brasileira, na sua realidade, está muito longe?

Rafael Silva: Está muito longe. Há comentários aqui que, se eu completar cinco anos vivendo direto no Japão, eu poderei me naturalizar japonês, e achei interessante. Me sinto valorizado e orgulhoso por os japoneses estarem observando o meu futebol e haver a oportunidade de um dia eu representar o Japão. Trato essa situação com carinho.

Como está o seu japonês? Já fala a língua?

Rafael Silva: Japonês é complicado pra caramba, é difícil demais. Consigo me comunicar, mas não consigo conversar. Já não me perco mais nas ruas, e nos shopping e restaurantes consigo me virar sem a ajuda de intérprete. Dentro de campo não tem problema, já aprendi todas as palavras.

Houve um problema de ofensa racial com você recentemente?

Rafael Silva: Sim. Depois do primeiro jogo da decisão (contra o Al Hilal), eu postei um vídeo do meu gol na internet, e no lance desse gol o brasileiro do time deles, o Carlos Eduardo, se machucou. Como no lance ele apareceu machucado, os torcedores deles acharam que eu estava zoando o Carlos Eduardo, que é muito querido no país. Entenderam errado. Se revoltaram comigo e começaram a me chamar de “macaco” em mensagens na internet. Foi pesado, foi a semana inteira assim. Não me abalou, mas o problema é que as mensagens chegaram para minha família, para amigos, e eles ficaram chateados. Eu fiquei quieto, e a melhor resposta que pude dar foi fazer um trabalho bom no sábado… E fiz o gol.

Você pensa em voltar a jogar no Brasil?

Rafael Silva: Isso não passa pela minha cabeça. Quando saí do Coritiba para ir para a Suíça, coloquei na cabeça que minha carreira seria fora (do Brasil) e que tentaria ficar o máximo fora do país. Não penso em voltar tão cedo, não.

O atacante, que se recupera de lesão no tornozelo direito, em momento “relax” no Japão (Reprodução/Instagram de Rafael Silva)

Em tempo 1: O Mundial de Clubes de 2017 começa no dia 6 (próxima quarta-feira) e vai até dia 16 (um sábado), nos Emirados Árabes. Os clubes classificados são o espanhol Real Madrid (Europa), o mexicano Pachuca (América do Norte), o marroquino Wydad Casablanca (África), o japonês Urawa Red Diamonds (Ásia), o neozelandês Auckland City (Oceania) e o árabe Al-Jazira (país-sede). O representante da América do Sul será o Grêmio ou o Lanús, que decidem a Libertadores na noite desta quarta (29), na Argentina. 

Em tempo 2: O Urawa Red Diamonds participou uma vez do Mundial da Fifa, há exatos dez anos, e terminou em terceiro lugar na competição realizada no Japão. Ganhou do Sepahan (Irã) nas quartas de final, por 3 a 1, perdeu de 1 a 0 a semifinal para o Milan (de Kaká, Cafu, Dida e Serginho) e ficou com o bronze ao superar nos pênaltis o Étolile du Sahel, do Marrocos, depois de um empate por 2 a 2. O centroavante Washington, o Coração Valente, era o destaque daquele time e foi o artilheiro do Mundial-2007, com três gols.