Sul-africano faz seu 2º gol de antes do meio-campo e se lamenta por goleiro

Por Luís Curro

Ao ir para um jogo, qualquer um, sendo ele um amistoso ou uma final de campeonato, jamais um jogador pode ter pena do goleiro adversário.

A oportunidade chegando, e não é sempre que ela chega, tem que encher os olhos de sangue, potencializar as energias para os pés (ou para a cabeça) e, no sentido futebolístico, fuzilar o guarda-redes.

Afinal, “fazer gol é uma libertação”, já disse Edinson Cavani, companheiro de ataque de Neymar no Paris Saint-Germain e um dos grandes goleadores da atualidade. “Nós trabalhamos para isso, fazer gols. É como um compromisso e uma exigência”, definiu o uruguaio.

Possivelmente perto de 100% dos jogadores, especialmente os atacantes (que vivem de gols), pensam como Cavani.

Havendo uma exceção, ela será digna de menção. E há.

Capitão do Mamelodi Sundows, Kekana domina a bola à frente de Nyatama, do Orlando Pirates, em jogo em Johannesburgo (Reprodução – 1º.nov.2017/Site do Mamelodi Sundowns FC)

Hlompho Kekana. Meio-campista. 32 anos. Sul-africano. Capitão, do Mamelodi Sundowns, da cidade de Pretória, time que mais vezes (sete) ganhou o campeonato nacional da África do Sul.

Não se engane. Kekana não tem nada contra marcar seus golzinhos. Nas últimas três temporadas, fez 17, mesmo não sendo atacante.

O “problema” dele é relacionado a um dos gols mais bonitos, e de dificílima execução, que fez na carreira. Aliás, não apenas uma, mas duas vezes, Kekana marcou com um chutão de antes do meio de campo.

Em Copa do Mundo, Pelé tentou uma jogada dessa contra a Tchecoslováquia, no Méxixo-1970. Errou por pouco. No ano passado, na final da Copa do Brasil contra o Grêmio, em Porto Alegre, o equatoriano Cazares, do Atlético-MG, acertou.

Raridade, esse tipo de gol deixa todos boquiabertos. É uma combinação de precisão, força e visão – se o goleiro não está distraído, a bola só entra se ele falhar feio.

Pois Kekana, que, repito, duas vezes arriscou de mais de 50 metros de distância do gol e foi bem-sucedido, não se sentiu realizado depois do êxito mais recente.

Que ocorreu no duelo Orlando Pirates x Mamelodi Sundowns, no dia 1º deste mês, em Johannesburgo, casa dos Pirates, pelo Campeonato Sul-Africano.

Kekana já tinha feito 1 a 0, logo a 1 minuto de jogo. Aos 13 minutos, dominou a bola um pouco antes da linha que divide o gramado e, de dentro do círculo central, disparou o petardo.

O goleiro Wayne Sandilands nem estava mal colocado, pouca coisa adiantado, e parecia que defenderia. Não. Grotescamente, espalmou a bola para dentro da própria meta.

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Depois da partida, vencida por sua equipe por 3 a 1, Kekana disse, conforme publicou o jornal inglês “The Sunday Times”, estar sentido por Sandilands, que foi seu companheiro nos Sundowns até a temporada passada.

“Os gols que fiz no Orlando, eles parecem bonitos no vídeo. Mas não gostei porque marquei contra uma pessoa que está no meu coração. Wayne era nosso pastor, na igreja, quando estava no Mamelodi Sundowns. É muito difícil para mim marcar contra o Wayne.”

Pus-me a pensar nessa confissão de dó.

Kekana entrou em campo sabendo que o ex-colega, de quem tanto diz gostar, estava defendendo o gol adversário. Se seria doloroso vazá-lo, bastaria não arriscar. Se não chutasse nenhuma vez, a chance de marcar seria zero. Passe a bola e deixe outro testar o arqueiro.

Pior: Kekana, ao chutar do próprio campo, caso a bola entrasse, sabia que seria vexaminoso – como foi – para o rival querido.

O volante justificou-se. É um profissional e precisa colocar o time acima dos sentimentos. “Temos um trabalho a fazer, e ele foi feito. Estou feliz de termos vencido com aquele meu gol. Pouco importa se foi um golpe de sorte.”

No fim das contas, pesados na balança sentimentalismo um lado, profissionalismo de outro, sobra o velho ditado: “Amigos, amigos, negócios à parte”.

Kekana, nesse jogo, não teve compaixão pelo goleiro. Fez o que tinha de ser feito por qualquer jogador: o gol.

O pesar, se vier, como veio, que venha depois.

Kekana marca pela África do Sul contra Camarões (Reprodução/YouTube)

Em tempo: O outro gol que Kekana fez do campo de defesa foi pela seleção da África do Sul, em março de 2016, contra Camarões, no jogo que os Bafana Bafana empataram como visitantes com os Leões Indomáveis por 2 a 2 pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações, em Limbé. O goleiro camaronês era Assembé, do Nancy (França).