Indefinições sobre reservas da seleção persistem depois de amistosos

Por Luís Curro

Treino é treino, jogo é jogo.

Essa é uma velha máxima do futebol que pode ter algumas interpretações.

A minha é esta: não adianta nada “estraçalhar” nos treinamentos e na hora agá (ou seja, na partida) não jogar nada; assim, apesar de o treino (que é mais frequente que o jogo) servir de parâmetro para avaliar as condições de determinado atleta, se ele não exibir desempenho similar ou superior em campo, não será confiável.

Nos amistosos contra Japão, na sexta (10) e Inglaterra, na terça (14), o técnico Tite quase não deu oportunidades para reservas mostrarem do que são capazes (ou do que não são), o que serviria para dirimir possíveis dúvidas que o treinador (e também jornalistas e torcedores) tenha em relação ao grupo de 23 jogadores da seleção brasileira que ele levará à Copa da Rússia, em 2018.

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Em um calendário apertado, que não oferece às seleções muitas oportunidades de jogadores serem postos à prova, esses dois amistosos eram chances de ouro para Tite dar bastante tempo de jogo para Diego, Diego Souza, Giuliano, Douglas Costa, Danilo, Jemerson, Alex Sandro.

Desses, só o lateral Danilo, o meia Giuliano e o zagueiro Jemerson começaram uma partida como titulares, e contra o Japão, seleção teoricamente mais fraca que a Inglaterra – a prática comprovou a teoria: o Brasil ganhou de 3 a 1 dos japoneses e empatou sem gols com os ingleses.

Danilo foi bem, Giuliano, discreto, e Jemerson falhou no gol do Japão. Alex Sandro, Diego Souza, Taison e Douglas Costa entraram no segundo tempo. Os dois primeiros jogaram pouco mais de 30 minutos. Os dois últimos, pouco mais de 20. Nesse tempo, que considero bem abaixo do ideal para uma avaliação decente, mostraram praticamente nada.

Diante dos ingleses, Tite escalou a formação que deve ser a titular no início da Copa: Alisson; Daniel Alves, Marquinhos, Miranda e Marcelo; Casemiro, Renato Augusto e Paulinho; Philippe Coutinho, Gabriel Jesus e Neymar. Fez três substituições no segundo tempo (entraram Willian, Fernandinho e Firmino), e nenhuma delas incluiu jogadores que ainda lutam por uma vaga no Mundial.

Gostaria muito de saber por que, já que eram jogos que nada valiam mas supostamente relevantes para a definição de quem vai ou não à Rússia, Tite não começou as partidas com todos os reservas, lançando os titulares, caso necessário, no terço ou quarto final dos amistosos.

Eu gostaria de ter visto o Brasil em campo assim, desde o início, nos dois jogos: Cássio (ou Ederson); Danilo, Thiago Silva, Jemerson (essa dupla de zaga, ressalte-se, foi titular diante do Japão) e Alex Sandro; Fernandinho, Diego e Giuliano; Douglas Costa, Diego Souza e Taison.

E que todos eles jogassem por 70 a 75 minutos, pelo menos, em cada partida. Pois era a oportunidade de mostrarem suas qualidades e eventuais defeitos vestindo a camisa amarela.

Não aconteceu assim. Pouco se viu dos reservas. Aliás, de Diego, meia do Flamengo, nada se viu – não atuou por um mísero minuto.

Talvez Tite tenha tido receio de que o chamado “segundo time” pudesse ir mal e perder, o que geraria algumas críticas, certamente poucas a ele (já que é hoje unanimidade nacional) e muitas aos jogadores que não tivessem boa atuação.

Prefiro não considerar essa hipótese, não vejo Tite com receio de que derrota em amistoso possa afetar seu trabalho ou sua imagem (nem a dos atletas).

Uma outra possibilidade para preterir os suplentes, no caso do confronto com a Inglaterra, seria dar mais entrosamento ao 11 titular. Se foi esse o caso, ato desnecessário.

Pois os titulares de Tite jogam juntos há um bom tempo (a base é a mesma desde que o treinador assumiu, no meio de 2016), então já estão muito bem entrosados, não há por que haver preocupação com a falta de sintonia entre eles.

A meu ver, amistoso é para fazer testes, a fim de comprovar ou não algumas crenças, pois não há riscos a correr.

Sem se permitir essas experiências, aí sim, cria-se o risco.

O risco de um possível “leão de treino” (devem ser os casos de Taison e Giuliano, jogadores que em nada me empolgam) ser lançado no meio de um jogo de Copa – por lesão ou cansaço de um titular, ou pela necessidade de mudar a dinâmica da partida para reverter um placar adverso – sem um histórico de confiabilidade.

Até pode funcionar, mas contrariaria a lógica.

Enfim, em relação aos reservas da seleção, as dúvidas e indefinições persistem depois dos recentes amistosos. Os próximos, e últimos antes da Copa, serão em março, contra Rússia e Alemanha.

Que Tite, nesses dois jogos, ou pelo menos no diante dos russos, comece com os reservas. Na minha opinião, seria um movimento inteligente e determinante para a definição da lista final para o Mundial.