Robbie Rogers, raridade no futebol ao se declarar gay, pendura as chuteiras

Por Luís Curro

Percebo uma inclinação, não explícita, na sociedade pelo fortalecimento da defesa das preferências individuais, o que é ótimo. O que é péssimo é a patente constatação de que ainda vivemos em um mundo repleto de preconceitos.

Há muita gente que despreza e até odeia quem não seja da mesma cor, do mesmo gênero, da mesma cidade, da mesma religião, da mesma classe social.

Que não tenha a mesma ideologia política, que não fale a mesma língua, que não seja da mesma faixa etária, que não tenha o mesmo intelecto, que não torça para o mesmo time. Que tenha outra preferência sexual.

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A questão da opção sexual, aliás, é um dos grandes tabus existentes no futebol, especialmente no praticado entre os homens.

Pense um instante e cite que jogador se assumiu como gay enquanto atuava profissionalmente.

Lembrou algum? Possivelmente não. Pois são raríssimos.

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Há menos gays no futebol do que em outros ramos de atividade? Não há dados que corroborem essa hipótese. Mas talvez sim, já que meninos homossexuais certamente se sentem desestimulados a jogar bola devido ao preconceito.

Todo mundo já ouviu esta frase: “Futebol é para homem”. Uma sentença que contribui para que as moças boleiras sejam malvistas por homens e até por mulheres.

Para os preconceituosos, mulher que joga futebol é menos feminina. É sapatão.

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No futebol masculino, é evidente que há jogadores gays, mesmo que sejam poucos. Só que eles não se assumem. Pois existe o medo da repercussão negativa, tanto no clube (entre cartolas, comissão técnica e demais jogadores) como na torcida (do próprio time ou dos adversários).

No Brasil, não há nenhum futebolista que tenha “saído do armário”.

Ouvi muito que Richarlyson (ex-São Paulo e Atlético-MG, hoje no Guarani), possivelmente pelo jeito de falar, rir e andar, é homossexual – ele sempre negou.

Emerson Sheik (ex-Corinthians, onde foi herói na conquista da Libertadores-2012, hoje na Ponte Preta) deu um “selinho” em um amigo em 2013, o suficiente para ter a masculinidade questionada – ele declarou ter amigos gays, mas não ser gay.

No exterior, merecem ser mencionados o inglês Justin Fashanu e o americano Robbie Rogers. Donos de uma história triste e de uma feliz, respectivamente. Começo pela mais recente.

O Los Angeles Galaxy presta homenagem (‘Obrigado, Robbie’) ao lateral-esquerdo Robbie Rogers, jogador gay que anunciou o fim de sua carreira no futebol nesta semana (Reprodução/Site do LA Galaxy)

Aos 30 anos, Rogers é notícia nesta semana porque pendurou as chuteiras.

Jogador do Los Angeles Galaxy, um dos mais relevantes times da MLS (liga de futebol norte-americana), lutou durante esta temporada contra uma séria lesão no tornozelo. Sem perspectiva de estar bem fisicamente para voltar a  jogar em alto nível, preferiu sair de cena.

Pode-se considerar vitorioso profissionalmente (ganhou dois títulos da MLS, em 2008, com o Columbus Crew, e em 2014, com o LA Galaxy, vestiu a camisa da seleção principal dos EUA 18 vezes e participou da Olimpíada de Pequim, em 2008) e pessoalmente.

Rogers foi um destemido. Teve a coragem de se declarar gay, quase cinco anos atrás, pouco depois de se desligar do Leeds United, da Inglaterra. Três meses depois, em maio de 2013, estava no LA Galaxy.

Ao estrear pelo Galaxy, tornou-se o primeiro gay declarado (do sexo masculino) a jogar em uma liga profissional de elite nos EUA.

Em entrevistas, Rogers deixou transparecer que foi muito mais difícil o “antes” (decidir tornar pública sua preferência sexual, temendo ser alvo de intolerância) do que o “depois” (a reação do meio futebolístico à notícia). Não houve hostilidade.

“Quero agradecer a todos os meus colegas de LA Galaxy por me aceitarem desde o primeiro dia que pisei no vestiário. Quero agradecer aos torcedores pelo apoio que tive ao longo da carreira. O sentimento de aceitação me motivou como atleta e como ser humano”, afirmou ele depois do anúncio da aposentadoria.

É animador esse discurso. Mostra que há esperança de aceitação na sociedade em relação a uma minoria.

Aceitação essa que não existiu com o londrino Fashanu.

O atacante, uma das grandes promessas do futebol britânico no início dos anos 1980 (foi contratado pelo Notthingham Forest, campeão europeu em 1979 e 1980, por £ 1 milhão, sendo o primeiro negro a custar esse valor), entrou para a história como o primeiro futebolista a admitir sua homossexualidade.

Aconteceu em 1990, em uma entrevista ao tabloide “The Sun”, na qual Fashanu declarou ter tido um caso com um parlamentar do Partido Conservador da Grã-Bretanha.

Antes disso, havia muitos rumores de que o jogador fosse gay, com notícias de que ele ia a boates frequentadas por homossexuais, porém nada havia sido provado.

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Justin Fashanu, em foto com o irmão John (à esq.), que também foi jogador de futebol (Reprodução/Instagram de John Fashanu)

A carreira de Fashanu, a partir de sua “confissão”, declinou progressiva e vertiginosamente.

Marginalizado por companheiros de time, ridicularizado pelos jogadores adversários, alvo constante de insultos e gozações de torcedores, peregrinou por times pequenos da Inglaterra e por Escócia, Canadá, EUA e Nova Zelândia.

Vítima da homofobia, sua estrela foi dia a dia se apagando, e em maio de 1998, dois meses depois de um jovem de 17 anos afirmar à polícia americana ter sido vítima de violência sexual do jogador, Fashanu enforcou-se.

Em um bilhete, ele explicou o suicídio: “Percebi que já fui considerado culpado. Não quero envergonhar mais meus amigos e minha família”. Tinha 37 anos.