Promessa belga bate recorde, mas falha feio na Liga dos Campeões

Por Luís Curro

Sou suspeito para falar do futebol belga.

Desde garoto, mais exatamente desde a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, eu passei a gostar da seleção da Bélgica. Do nada. Sem explicação. Simplesmente aconteceu. E até hoje é assim.

Lembro-me de que na primeira partida daquele Mundial, no jogo de abertura, os belgas tinham pela frente a tida como fortíssima Argentina, que defendia o título conquistado em 1978, quando foi a anfitriã.

Não lembro quase nada daquele jogo, mas sem fazer nenhuma pesquisa sei que a Bélgica ganhou por 1 a 0, gol do atacante Vandenbergh.

Também no ataque, havia um centroavante grandalhão, Ceulemans. Na defesa, destacava-se o lateral-direito Gerets, barbudo e raçudo, que era o capitão do time.

E no gol jogava um goleiro espetacular chamado Pfaff, loiro de cabelo encaracolado – parecido com o Schumacher, o camisa 1 da Alemanha, só que mais baixo e sem bigode.

Pfaff e a Bélgica foram à Copa seguinte, a de 1986, no México, e nela tive certeza de que minha admiração não era passageira – pelo time e pelo guarda-redes.

Depois da queda na segunda fase do Mundial espanhol, os belgas só pararam na fase semifinal em solo mexicano. Ironicamente, derrotados pela mesma Argentina de Maradona a quem haviam surpreendido quatro anos antes.

Pegava muito o Pfaff. Era ágil, frio, seguro. Quem o sucedeu é para mim outra referência de goleiro excepcional, Preud’homme, cinco anos mais jovem que Pfaff e titular nas Copas de 1990 (Itália) e de 1994 (EUA). Nessa última, foi eleito o melhor goleiro do Mundial.

Depois de ter visto esses dois jogar, meu respeito pelos goleiros belgas tornou-se eterno. As safras seguintes, é verdade, não empolgaram, até que, há poucos anos, um novo grande arqueiro surgiu: Courtois, vitorioso tanto no Atlético de Madri como no Chelsea.

Hoje com 25 anos, Courtois tem condição de jogar no auge pelo menos mais duas Copas – a Bélgica já se garantiu na de 2018, na Rússia.

Bom para os belgas que ele está aí, e em grande forma. E melhor ainda é que pode estar, desde já, surgindo um sucessor. “Ele é muito bom, vocês vão ver”, declarou Pfaff ao “Diário de Notícias”, de Portugal, ao falar da promessa que surge.

O belga Mile Svilar, de 18 anos, exibe a camisa 1 do Benfica (Reprodução/Site do Sport Lisboa e Benfica)

Mile Svilar. Que apareceu de repente para fazer história na Liga dos Campeões da Europa. Aliás, em dose dupla.

Nascido na Antuérpia, de origem sérvia e cria do Anderlecht, o clube que mais títulos tem no futebol da Bélgica, o garoto tornou-se, ao ser escalado pelo Benfica para o duelo com o Manchester United, nesta quarta (18), o mais jovem goleiro a participar do principal interclubes do planeta.

Aos 18 anos e 52 dias, Svilar entrou no estádio da Luz, diante de 57.684 torcedores, para defender o clube de Lisboa.

O recordista anterior era o lendário Casillas, titular da Espanha campeã da Copa de 2010, que estreou na Champions League, pelo Real Madrid, aos 18 anos e 118 dias – e que continua na ativa, aos 36 anos, atuando pelo Porto.

Seria ótimo para ele se o recorde fosse acompanhado de uma grande atuação. De preferência sem levar gol. E o novato vinha bem, com uma boa defesa em cada tempo, até que o cronômetro chegou aos 18 minutos da etapa final.

Falta para o Man United, quase da linha lateral, pela esquerda do ataque. O inglês Rashford, atacante apenas um ano mais velho que Svilar, a cobrou. Se queria cruzar, errou feio. Acabou dando um chute com efeito, de curva, sem muita força, na direção do gol.

Uma bola aparentemente fácil para o goleiro. E Svilar fez a defesa, agarrou a redonda. No entanto, calculou mal a passada. Dois passos para trás o deixaram dentro do gol, e a bola também – entrou pouco, mas entrou.

Foi o único gol do jogo.

Svilar entra com a bola no gol em jogo da Liga dos Campeões da Europa: Benfica 0 x 1 Manchester United (Reprodução de TV)

Uma noite marcante para o jovem recordista, que, mesmo abalado (impossível não ficar), ainda fez uma defesa depois da falha.

Após a partida, Svilar recebeu conforto e incentivo de companheiros, entre eles o veterano brasileiro Júlio César (titular em duas Copas do Mundo e reserva do garoto nesse jogo) e adversários, como o compatriota Lukaku, artilheiro do Man United e titular da seleção belga.

Apoios importantes, talvez vitais.

Pois uma falha desse tamanho pode pôr a perder uma carreira, se o atleta não tiver estrutura emocional para superá-la.

Ou ter o efeito contrário. Fortalecer o jogador e torná-lo um dos melhores do mundo, com uma leve manchinha no currículo.

Qual será o caso de Svilar?

O laureado e badalado José Mourinho, treinador do Man United, aposta na segunda opção. “Ele é uma fera, será um grande goleiro”, sentenciou, minimizando o erro.

Espero muito, simpatizante do futebol belga que sou, que Mou esteja certo. Saberemos em algum tempo.