Aos pequenos, na Champions League (e não só nela), resta confiar no imponderável

Por Luís Curro

Um leitor escreveu-me há algumas semanas pedindo apontamentos acerca da pretensão dos clubes pequenos na Liga dos Campeões da Europa 2017/2018.

Identificou-se como estudante de jornalismo e informou que iria utilizar meus comentários para compor uma reportagem que estava elaborando.

Ele tinha interesse em saber sobre o histórico de participação dessas equipes e se deixaram algum legado ao ir mais longe do que o esperado; o quão relevante é a influência de seus torcedores; e o que esses times podem acrescentar à Champions League.

Nem sempre é possível, devido ao tempo curto no dia a dia, dar a merecida atenção a um leitor interessado. Dessa vez, felizmente, foi.

Sendo assim, compartilho com os demais leitores a minha opinião, enviada ao Caio, das Faculdades Rio Branco, a respeito dos nanicos no maior interclubes de futebol do planeta.

Torcedores do Apoel, do Chipre, durante a partida em Nicósia, capital do país, contra o Borussia Dortmund, da Inglaterra; o jogo terminou 1 a 1 (Khaled Desouki – 17.out.2017/AFP)

“Para os clubes considerados menores, especialmente os de países da “periferia da bola” na Europa, somente o fato de se classificar para a fase de grupos da Champions League já tem o sabor de conquistar um título.

Qarabag, do Azerbaijão, Apoel, do Chipre, e Maribor, da Eslovênia, campeões em seus respectivos países, são os maiores azarões da competição de 2017/2018, e não é plausível considerar que eles tenham, em sã consciência, a expectativa de avançar para os mata-matas.

Esses clubes são potências locais (o Apoel ganhou os cinco últimos campeonatos do Chipre; o Qarabag, os quatro últimos no Azerbaijão; o Maribor, seis dos últimos sete na Eslovênia).

Mas seus elencos são limitadíssimos em relação aos dos mais poderosos concorrentes (Real Madrid, Manchester United, Barcelona, Bayern de Munique, Juventus, Paris Saint-Germain…), e seus orçamentos, uma ninharia nessa mesma comparação.

Exemplificando o desnível: o jogador do Qarabag que tem o maior valor de mercado é o desconhecido brasileiro Pedro Henrique (€ 3 milhões). Isso é 1,4% do que o Paris Saint-Germain pagou ao Barcelona para contratar Neymar (€ 222 milhões).

A última vez que um clube fora do septeto Alemanha-Espanha-França-Holanda-Inglaterra-Itália-Portugal – países que têm as mais fortes ligas europeias – ganhou a Champions League foi o Estrela Vermelha, da extinta Iugoslávia, em 1991. Vinte e seis anos atrás.

Apenas duas outras vezes uma equipe que não pertence a esse G7 (o Celtic, da Escócia, em 1967, e o Steaua de Bucareste, da Romênia, em 1986) ergueu o troféu.

Naquela época, porém, o regulamento era diferente. Desde o início os confrontos eram eliminatórios, em ida e volta, o que oferecia uma chance maior de times não favoritos avançarem.

Hoje existe a fase de grupos, e via de regra todos os considerados pequenos ficam pelo caminho – o inglês Leicester, que chegou às quartas de final no ano passado, foi exceção.

Em relação às torcidas, não considero que as dos times menores façam alguma diferença que mereça registro. Tanto essas como as dos times grandes vão aos estádios do mesmo jeito e dão amplo apoio nas partidas em casa. Não há maior ou menor entusiasmo entre o torcedor do Qarabag e o do Barcelona.

O brasileiro Pedro Henrique, do Qarabag, do Azerbeijão, equipe estreante na Liga dos Campeões, festeja gol contra a Roma no estádio Olímpico de Baku; o time italiano venceu por 2 a 1 (David Mdzinarishvili – 27.set.2017/Reuters)

Porém, para o fã do clube menos badalado, a presença na Champions League significa muito no aspecto emocional.

É um grande orgulho e uma grande honra para esse torcedor poder estar na fase de grupos e, mesmo com chance mínima de vitória, enfrentar equipes laureadas e que contam com os melhores jogadores do planeta: Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Griezmann, Lewandowski, Buffon, entre outros.

E fica sempre a expectativa da surpresa, não é mesmo?, o que gera um interesse extra nas partidas dos “nanicos”. Há uma tendência de o apreciador de futebol torcer para o mais fraco, ver um Davi superar um Golias, observar a realização do “impossível”.

A ascensão do Leicester foi algo quase comovente, que enquanto ocorria trazia várias indagações. Como pode? Como jogadores desconhecidos conseguem superar outros tão renomados? Qual é o segredo desse sucesso?

Não havia, e não há. Fala-se em entrosamento, união, espírito de grupo, garra, superação etc. Ora, muitas e muitas equipes pequenas têm tudo isso de sobra, e não triunfam.

Só o imponderável explica que, de quando em quando, um Leicester, na Europa, um São Caetano, na América do Sul, um Camarões, na Copa do Mundo, terá aquele inesperado momento de brilho. E seus jogadores, iluminados, acreditarão que podem mais do que supostamente poderiam.

É raro, mas acontece.

E são esses momentos que tornam o futebol um esporte único, apaixonante e incomparável.

Em tempo: Sobre o legado dos (poucos) times azarões que triunfaram, o maior não é para eles mesmos, mas sim para todos os azarões que existem e hão de existir no futebol. Legado esse que se resume a duas palavras: lembrança (“foi possível”) e esperança (“é possível”).”

Em Maribor, na Eslovênia, o time da casa foi atropelado pelo Liverpool, que goleou por 7 a 0; os brasileiros Roberto Firmino (2) e Philippe Coutinho estiveram entre os que marcaram para a equipe inglesa (Paulo Childs – 17.out.2017/Reuters)

Em comum entre Apoel, Qarabag e Maribor, o fato de estarem na última posição de seus respectivos grupos na Champions League, o que não é surpresa.

Vice-líder do Campeonato Esloveno, o Maribor perdeu dois jogos (um de goleada, 7 a 0 para o Liverpool) e empatou um (fez 1 gol e tomou 11).

É a mesma campanha do Apoel, quarto colocado no Campeonato Cipriota, com uma única diferença: 7 gols sofridos, não 11.

Líder do Campeonato Azerbaijano, o Qarabag faz nesta quarta (18) sua terceira partida na competição europeia, diante do Atlético de Madri – perdeu as duas primeiras (uma de goleada, 6 a 0 para o Chelsea). O jogo é às 14 horas (de Brasília), com transmissão do Esporte Interativo.