Gélida e despovoada, Islândia faz o inexplicável ao ir à Copa do Mundo

Por Luís Curro

Fenômeno talvez impossível de ser explicado, a despovoada Islândia se classificou pela primeira vez para a Copa do Mundo.

A vaga veio com a vitória por 2 a 0 sobre o Kosovo, em Reykjavík, a capital islandesa, na segunda (9).

Com Bjarnason (8) e Sigurdsson (10), o atacante Gudmundsson comemora seu gol, o segundo da Islândia na vitória por 2 a 0 sobre o Kosovo que classificou o país para a Copa do Mundo de 2018 (Haraldur Gudjonsson – 9.out.2017/AFP)

País de baixíssima densidade demográfica, com aproximadamente 340 mil habitantes (dos quais cerca de 20 mil, entre homens e mulheres, praticam o futebol), a Islândia será na história a nação de menor população a jogar o evento esportivo mais badalado e esperado do planeta.

Em uma comparação estritamente numérica, seria como se a Francana, clube de Franca, no interior paulista, ou o Operário de Ponta Grossa, município paranaense, ou o Central de Caruaru, no agreste de Pernambuco, disputasse as eliminatórias e se classificasse para a Copa.

A população dessas cidades é bem próxima à do país da Europa nórdica, cujos habitantes vivem em uma gélida ilha de 103 mil quilômetros quadrados, uma área na qual cabem dois Rios de Janeiro inteiros (o Estado, não a cidade) e ainda sobra espaço para metade de Alagoas.

A revista “Forbes” publicou uma lista dos países menos populosos a disputar uma Copa, com o número de habitantes à época da respectiva competição, e a Islândia “ganha” por muito.

O segundo colocado, agora, é o sul-americano Paraguai, que em 1930, no primeiro Mundial de futebol da história, realizado no Uruguai, tinha 860 mil habitantes.

(Parênteses 1: o Paraguai, ninguém esperava, perdeu nesta terça, 10, em casa, para a Venezuela e ficou fora da próxima Copa.)

Trinidad e Tobago (América Central), com uma população de 1,3 milhão de habitantes, classificou-se para a Copa de 2006, na Alemanha.

(Parênteses 2: Trinidad e Tobago, ninguém esperava, derrotou os EUA nesta terça, 10, e tirou os americanos da próxima Copa; os trinitários também não irão.)

Completam o “top 5” a europeia Irlanda do Norte (1,4 milhão na Suécia-1958) e o asiático Kuait (1,5 milhão na Espanha-1982).

A classificação islandesa para a Copa da Rússia, em um grupo em que os favoritos eram Croácia (que jogará a repescagem), Turquia e Ucrânia, só não é mais surpreendente porque a seleção do país, também inesperadamente, qualificou-se para a Eurocopa de 2016.

E porque, nessa competição, disputada por 24 países, avançou até as quartas de final. Sim, ficou entre os oito melhores da Europa, eliminando uma campeã mundial, a tradicionalíssima Inglaterra, no primeiro mata-mata e caindo apenas diante da anfitriã França. Assim, ganhou respeito.

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Eu assisti a quase todos os jogos dessa Euro, então posso afirmar que a Islândia não joga um futebol vistoso, bem longe disso. Quase não fica com a bola, faz poucos gols e deposita as esperanças de vitória em esporádicos contra-ataques e jogadas de bola parada.

Também não tem um craque. Seu destaque, o meia-atacante Sigurdsson, que defende o Everton (Inglaterra) e já não é um garoto (28 anos), é um bom jogador. Não é espetacular, mas joga quase sempre bem. Bate na bola com categoria e precisão.

Seus companheiros são regulares tecnicamente. Quase não driblam. Mas têm uma disciplina tática de invejar e parecem ser fisicamente incansáveis. Além do mais, sobra espírito de luta na equipe – todos os jogadores, sem exceção, jogam com a alma. S-e-m-p-r-e.

Vindos de uma terra de clima subártico, onde a temperatura costuma oscilar entre 0 e 5 graus, os islandeses mostram calor no coração.

Percebe-se isso no relacionamento com os torcedores. Depois das vitórias, ainda no campo, aproximam-se da torcida e dão início a um ritmado ritual de palmas que dura alguns minutos, muito bonito de se ver, comandado pelo capitão do time, Gunnarsson.

E são grandes amigos dos torcedores, vários deles seus conhecidos. Já fora do estádio, vão aos bares encontrar os fãs, festejar com eles, cantar com eles, beber com eles. Aconteceu logo após a classificação para a Rússia-2018.

Quando os brasileiros fariam isso, permitiriam esse grau de interação? Não direi nunca, porém vou esperar (sentado) para ver.

Em tempo: Eu pretendia encerrar este texto escrevendo que a Islândia será a única estreante na Copa do Mundo do ano que vem. Não será. Na noite desta terça (10), o Panamá ganhou de virada da Costa Rica (2 a 1), na Cidade do Panamá, com o gol da vitória aos 43 minutos do segundo tempo (Román Torres é o nome do herói), e também debutará em um Mundial.