Jogo com a Bolívia na altitude é teste de intelecto para o Brasil de Tite

Por Luís Curro

É comprovado que jogar futebol na altitude, para quem não está acostumado a ela, é bem complicado.

Com o ar mais rarefeito, há dois desafios para o time visitante, caso do Brasil, que nesta quinta (5), às 17 horas (horário de Brasília), enfrenta a Bolívia nos 3.600 m de La Paz, pelas eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia.

Chumacero, atacante boliviano, em treino físico em La Paz antes do jogo com o Brasil pelas eliminatórias da Copa de 2018 (David Mercado – 3.out.207/Reuters)

O primeiro é físico. A escassez do ar torna a respiração difícil. Busca-se o ar, mas ele parece que não vem.

É famosa a cena de jogadores do Flamengo, em 2007, recorrendo a máscaras de oxigênio à beira do campo, em Potosí, também na Bolívia, a 4.000 m de altura, em jogo da Libertadores. Renato Augusto, hoje titular da seleção de Tite, era um deles.

O segundo é técnico. Com o ar menos denso, a bola percorre com mais velocidade as distâncias.

Isso é em especial arriscado para os goleiros, que têm dificuldade para calcular o momento de fazer a defesa – acabam pulando com atraso.

Para minimizar o problema físico, conforme recomendação de seus médicos, a seleção brasileira ficará o menor tempo possível na capital boliviana – aproximadamente oito horas.

Isso pode ajudar a aplacar as dificuldades dos jogadores não só em relação à falta de ar mas também às provocadas por outros efeitos da altitude, como dores de cabeça, náuseas e vômitos.

Contra a questão da “bola veloz”, a solução está na inteligência.

Se os jogadores bolivianos foram espertos (e a experiência que eles têm em La Paz indica que serão), arriscarão chutes de longe. Será um grande teste para Alisson, que terá de antecipar seus movimentos para não ser surpreendido.

Goleiro titular da seleção brasileira, Alisson faz defesa em treinamento em Teresópolis (RJ) na véspera do duelo com a Bolívia em La Paz (Pilar Olivares – 4.out.2017/Reuters)

Espera-se que não sejam muito arremates – pois quanto mais, maior a chance de acerto.

Para evitá-los, cabe ao setor defensivo do Brasil diminuir os espaços a partir do momento em que os bolivianos passem do meio-campo, a fim de impedir o disparo de longa distância. Casemiro, Renato Augusto e Paulinho, os meio-campistas, devem redobrar a atenção.

Defensivamente, esse é o caminho. Mas a inteligência tem de ser usada também quando o time estiver com a posse da bola.

Cabe aos jogadores, sabedores das condições que o relevo impõe, dosarem a força de cada passe, lançamento ou chute.

Caso contrário, haverá correria desenfreada e erros constantes, que poderão comprometer a performance e colocar em risco a invencibilidade do time com Tite nestas eliminatórias (nove vitórias e um empate).

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Já classificado para o Mundial de 2018, o Brasil tem uma excelente chance, diante dos bolivianos, de exercitar seu tutano.

Muito mais que um teste físico, a partida será um teste mental.

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Em tempo: Competente e dedicado que é, Tite deve ter assistido a vídeos dos jogos da Bolívia no estádio Hernando Siles – ou incumbido gente de seu estafe de fazê-lo. A Bolívia tem fama de papão em La Paz, e o histórico comprova essa reputação, porém nestas eliminatórias sul-americanas perdeu três dos oito jogos lá disputados, para Uruguai (2 a 0), Colômbia (3 a 2) e Peru (3 a 0, há pouco mais de um mês). Assim, o treinador sabe exatamente o que fazer para derrotar o rival, cabendo aos atletas executarem suas ordens, o que eles têm feito otimamente bem até agora. Isso acontecendo, não há por que temer a altitude – ela sucumbirá à altivez da seleção.