Neymar precisa dos gols de pênalti para competir com os principais artilheiros

Por Luís Curro
Cavani e Neymar: rusgas precoces entre o artilheiro uruguaio e o craque brasileiro do Paris Saint-Germain (Franck Fife – 17.set.2017/AFP)

“Será vital observar o entrosamento de Neymar com o uruguaio Cavani no PSG. (…) A conferir se haverá troca de passes constante entre Neymar e Cavani, com um contribuindo para os gols do outro, ou se a individualidade prevalecerá – o que significará indesejável problema de relacionamento.”

Com essas palavras, eu encerrei texto publicado no dia 4 de agosto, no qual analisava a ida do craque brasileiro para o Paris Saint-Germain, por € 200 milhões, depois de quatro temporadas no Barcelona.

Vendo o que ocorreu no domingo (17), em PSG 2 x 0 Lyon, e à luz de toda a repercussão, senti-me premonitório.

Com o placar marcando 1 a 0, Mbappé, o jovem que 18 anos que chegou por empréstimo do Monaco (e que custará € 180 milhões ao PSG no meio de 2018), sofreu pênalti.

O uruguaio Edinson Cavani, centroavante e artilheiro do time, pegou a bola e se preparou para cobrar, como é praxe. Neymar chegou perto e pediu para bater. Cavani negou. Neymar afastou-se, contrariado. Cavani errou a cobrança.

Neymar pede a Cavani para cobrar pênalti contra o Lyon, pelo Campeonato Francês; o uruguaio não deixou (Christophe Simon – 17.set.2017/AFP)

Mesmo tendo vencido, esse episódio (somado a outro, em que Daniel Alves não deixou Cavani bater uma falta, que foi cobrada por Neymar) fez o clima esquentar na equipe parisiense, que lidera o Campeonato Francês com 100% de aproveitamento – seis vitórias em seis partidas.

A seguir, um resumo dos acontecimentos:

– Neymar e Cavani quase brigaram no vestiário, segundo o jornal esportivo “L’Equipe”, da França, depois do jogo com o Lyon;

– o treinador espanhol Unai Emery afirmou que tomará uma atitude caso os atacantes não se entendam sobre a questão dos pênaltis;

– Cavani afirmou à rádio uruguaia Universal que não há problema de relacionamento com Neymar e que o ocorrido “são coisas normais do futebol”;

– Daniel Alves declarou ao SporTV que “o mais importante é que a equipe esteja à frente de qualquer resultado individual”;

– o jornal espanhol “Sport” publicou que Neymar exigiu da direção do clube a saída de Cavani do PSG assim que for possível, preferencialmente já na janela de transferências de janeiro.

– Neymar não se pronunciou sobre o caso (“O Mundo é uma Bola” fez contato com a assessoria de comunicação do camisa 10, que afirmou não ter “nenhum conhecimento sobre o assunto”);

– a rádio francesa RMC veiculou que Cavani continuará como o batedor oficial de pênaltis do PSG.

Será mesmo?

Eu apostaria que haverá um revezamento entre os dois. O que melhora, mas não resolve para Neymar.

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Posso afirmar que, se não assumir o papel de cobrador número um do PSG, Neymar fica em grande desvantagem na disputa pelo prêmio de melhor do mundo na comparação com os principais rivais.

Isso porque os gols marcados são um dos fatores que mais influenciam nesse tipo de eleição (o outro é a conquista de títulos, especialmente o da Liga dos Campeões da Europa), e bater pênaltis ajuda a elevar esse número.

Tanto que não bater pênaltis deixa Neymar atrás dos principais goleadores da temporada 2017/2018 até aqui.

Nos últimos cinco jogos do PSG, quatro pelo Francês e um pela Champions League, o time teve quatro pênaltis a seu favor, todos cobrados por Cavani.

Caso Neymar tivesse batido e convertido todos eles, estaria agora com 12 gols, e não com oito, em 11 jogos disputados desde julho (incluindo as apresentações por Barcelona, PSG e seleção brasileira).

Esses 12 gols o deixariam bem próximo dos maiores artilheiros das principais ligas da Europa – que são e serão seus concorrentes na disputa pela Bola de Ouro (revista “France Football”) e pelo troféu “The Best” (Fifa) do próximo ano.

Eis a lista dos líderes e onde se encontra Neymar (gols por clube e seleção):

O Manchester United pagou ao Everton  € 85 milhões para ter Lukaku, e o belga tem respondido com gols; são 14 neste início de temporada (Andrew Yates – 17.set.2017/Reuters)
  • Lukaku (belga, 24 anos/Manchester United): 14 gols em 16 jogos (1 de pênalti)
  • Messi (argentino, 30 anos/Barcelona): 13 gols em 14 jogos (2 de pênalti)
  • Lewandowski (polonês, 29 anos/Bayern de Munique): 12 gols em 15 jogos (5 de pênalti)
  • Aubameyang (gabonês, 28 anos/Borussia Dortmund): 11 gols em 12 jogos (3 de pênalti)
  • Falcao (colombiano, 31 anos/Monaco): 10 gols em 10 jogos (1 de pênalti)
  • Dybala (argentino, 23 anos/Juventus): 10 gols em 11 jogos (2 de pênalti)
  • Cavani (uruguaio, 30 anos/PSG): 10 gols em 12 jogos (3 de pênalti)
  • Mertens (belga, 30 anos/Napoli): 8 gols em 11 jogos (2 de pênalti)
  • Neymar (brasileiro, 25 anos/PSG): 8 gols em 11 jogos (nenhum de pênalti)
  • Kane (inglês, 24 anos/Tottenham): 8 gols em 12 jogos (1 de pênalti)
  • Cristiano Ronaldo (português, 32 anos/Real Madrid): 7 gols em 6 jogos (2 de pênalti)
  • Icardi (argentino, 24 anos/Inter de Milão): 7 gols em 9 jogos (4 de pênalti)
  • Agüero (argentino, 29 anos/Manchester City): 7 gols em 10 jogos (nenhum de pênalti)
Messi (à dir.) comemora com Aleix Vidal seu quarto gol na vitória do Barcelona contra o Eibar pelo Campeonato Espanhol; argentino está em segundo na lista de artilheiros (Albert Gea – 19.set.2017/Reuters)

É evidente que Neymar precisa dos gols de pênalti para fazer frente aos grandes goleadores. É a diferença entre estar no topo da lista (figuraria hoje em terceiro, não empatado em oitavo) ou no segundo escalão.

E, estando lá em cima, ele tem um diferencial significativo em relação à concorrência: as assistências.

Neymar, a partir do ano retrasado, especializou-se em ser um grande garçom, uma qualidade para lá de elogiável.

Tanto que neste início de temporada ninguém, no rol dos goleadores, é melhor que ele nas assistências.

Já são sete passes para gol, e Messi, o mais próximo, tem praticamente a metade (quatro), seguido por Cristiano Ronaldo e Mertens, ambos com três.

Assistências são dignas de elogio, certamente. É o fundamento que comprova que Neymar não é egoísta nem fominha.

Só que, se quiser ser o melhor futebolista do planeta, precisará mais do que elas. Precisará deles: gols. Muitos e muitos.

E, para ampliar seu saldo, tem que ser o batedor oficial de faltas e pênaltis do PSG.

Se perder essa queda de braço com Cavani, verá o colega-desafeto disparar à sua frente na artilharia e, nesse caso, tornar-se o favorito do time na disputa com Messi e Cristiano Ronaldo (os ganhadores de sempre) pelos prêmios individuais da temporada.

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Cavani reluta em deixar a janelinha, mesmo sabendo que Neymar chegou para ocupar o assento preferido.

Isso vai mudar? O próximo pênalti a favor do PSG responderá.

Em tempo: Quem é melhor batedor de pênalti, Neymar ou Cavani? Pois esse deveria ser o critério para definir a prioridade. Não servirá, porém. Em uma comparação que fiz, considerando os últimos dez pênaltis batidos por cada um (que servem para qualificá-los em um passado recente), ambos têm o mesmo aproveitamento: 80%.