Ex-pugilista propõe torneio de boxe para hooligans durante a Copa do Mundo

Por Luís Curro

Sempre que um grande evento esportivo se aproxima, uma preocupação toma conta das autoridades: a segurança.

Um dos principais receios é a ação dos torcedores violentos, os hooligans. Na Eurocopa da França, no ano passado, houve confusões, a mais notória o confronto entre fãs ingleses e russos em Marselha.

Alguns ingleses chegaram a ser presos pela polícia francesa, e houve russos deportados.

Brigões croatas e turcos também deram as caras no torneio vencido por Portugal.

O perfil desses torcedores é conhecido. Andam sempre em bandos, entregam-se ao álcool até se embebedarem, e daí é questão de (pouco) tempo para começarem a quebrar tudo ao seu redor e a confrontar os torcedores rivais, verbalmente e fisicamente.

Torcedores ingleses fazem arruaça nas ruas de Marselha (França) antes de Inglaterra x Rússia na Eurocopa de 2016 (Jean-Paul Pelissier – 11.jun.2016/Reuters)

Com a cada vez maior proximidade da Copa do Mundo da Rússia (faltam pouco mais de nove meses), surgiu uma ideia pouco ortodoxa para tentar impedir que os hooligans causem confusão dentro e fora dos estádios: um torneio internacional de boxe para os valentões extravasarem sua sede de violência.

A proposta partiu do russo Vladimir Nosov, ex-pugilista, que anunciou que organizará uma competição do gênero, durante a Copa, para que os valentões desfilem todas as suas, digamos, habilidades destrutivas.

Para Nosov, a iniciativa servirá para canalizar a agressividade dos torcedores.

Resumindo: uma pancadaria oficializada, com juiz, regras e categorias de peso.

Curiosamente, Nosov coordena um movimento social cuja meta é promover os valores cristãos e construir igrejas na Rússia.

Não sou especialista em assuntos religiosos, mas entendo que o cristianismo não compactue com confrontos físicos.

Nosov, porém, acredita que algumas atividades (entre elas o boxe e a luta livre) são salutares.

“É um estilo de vida. Depois de cada luta, nós nos abraçamos e nos reunimos para conversar e tomar chá”, declarou ele à ESPN.

Adeptos do hooliganismo se confraternizando e bebendo chá? Pode ser verdade, mas que parece piada, parece.

Nosov continuou: “O que eu quero é que qualquer torcedor que queira mostrar o quão mau ele é na rua, que venha e mostre do que é capaz no ringue. Em vez de destruir bares e restaurantes e de incomodar as pessoas, entre no ringue e mostre o que pode fazer em uma luta justa contra torcedores de todas as partes do planeta”.

Não se sabe se a Fifa dará apoio ao evento, que ocorrerá em local ainda será anunciado; possivelmente, não.

Porém há no país-sede da Copa quem seja a favor. Como o conselheiro da União de Futebol da Rússia (órgão equivalente à Confederação Brasileira de Futebol) Igor Lebedev, que também é político.

No site de seu partido, o Liberal Democrata, de mentalidade ultranacionalista e anticapitalista, ele escreveu: “A Rússia seria pioneira em um novo esporte. Os fãs chegam, escolhem contra quem lutar e têm o desafio aceito. Vinte pessoas de cada lado, desarmadas. Em um estádio, com hora marcada”.

Qualquer semelhança com selvageria não é mera coincidência.

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Eu sou contra qualquer tipo de violência. Nenhuma é aceitável. Divergências se resolvem na base do diálogo, não da força bruta.

Entendo, entretanto, que esse é um mundo ideal ainda muito longe de ser real. Quase uma utopia.

Sendo assim, se há seres humanos que não estão suficientemente evoluídos para conviver sem agredir seus semelhantes e não se submeter a propostas insensatas, é menos pior que se arrebentem em um ringue, preservando o patrimônio público e deixando a salvo quem quer se divertir em paz no ambiente futebolístico.

Não duvido que esse “torneio” aconteça. E, se acontecer, que haja médicos presentes, para tentar evitar o pior. A chance de óbito, mesmo com juiz e regras, existe e não deve ser minimizada.