Queimado no Liverpool, Philippe Coutinho espera final feliz para novela de quase um mês

Por Luís Curro

Depois da novela Neymar, que teve alta dose de suspense e terminou com um final feliz para o Paris Saint-Germain e para o jogador e triste para o Barcelona e sua torcida, está no ar há quase um mês a novela Philippe Coutinho, jogador do Liverpool e da seleção brasileira.

Que já tem data para terminar. O último capítulo irá ao ar no mais tardar nesta quinta (31), o último dia da janela de transferências (o período em que os clubes têm autorização para comprar, vender e emprestar jogadores) na Inglaterra.

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Eis um rápido resumo da trama, em oito breves capítulos, caso você não a tenha acompanhado:

  1. Com a saída de Neymar, o Barcelona passou a correr atrás de reposição, e Coutinho, estrela do Liverpool e alçado a titular da seleção brasileira com Tite, tornou-se uma das prioridades;
  2. O Liverpool, que em janeiro renovou até 2022 contrato com o meia-atacante, tornando-o o jogador mais bem pago da equipe (£ 667 mil, ou R$ 2,7 milhões, por mês), anunciou que ele não está à venda e passou a recusar proposta atrás de proposta do clube catalão (foram quatro ao todo);
  3. Como não há multa rescisória no contrato do ex-vascaíno (também ex-Inter de Milão), o Liverpool tem a prerrogativa de não negociá-lo com ninguém – a última oferta do Barcelona foi de € 149 milhões (R$ 565 milhões), ou quase 70% do que o PSG pagou para ter Neymar;
  4. Coutinho, desde o início das tentativas do Barcelona, não se pronunciou publicamente, não mais atuou pelo time (a última partida dele foi no dia 1º de agosto, 3 a 0 no Bayern pela Copa Audi) e requereu formalmente ao Liverpool um pedido de transferência, negado pelo clube;
  5. O Liverpool informou que Coutinho não pôde jogar, pelo Campeonato Inglês e pela fase preliminar da Liga dos Campeões da Europa, porque estava com um problema nas costas, ao qual seguiu-se uma virose;
  6. O Barcelona contratou por € 105 milhões (R$ 398 milhões) a revelação Ousmane Dembélé, francês de 20 anos que estava no alemão Borussia Dortmund, e lhe deu a camisa 11, que era de Neymar;
  7. Ao se apresentar à seleção brasileira para os jogos das eliminatórias da Copa contra Equador, nesta quinta (31), e Colômbia, na terça (5), Coutinho treinou sem aparentar problema de saúde;
  8. Nesta terça (29), o jornalista Duncan Castles, que escreve para publicações como “Sports Illustrated”, dos EUA, e “Sunday Times”, da Inglaterra, divulgou que o Fenway Sports Group, proprietário do Liverpool, concordou em vender Coutinho ao Barcelona e que o jogador já está ciente disso.

Caso essa última informação se confirme, Philippe Coutinho poderá respirar aliviado.

Pois sua recusa em se manter leal ao Liverpool fez boa parte dos torcedores dos Reds se voltar contra ele.

A gota d’água para a revolta foi Coutinho treinar normalmente com a seleção verde e amarelo.

Philippe Coutinho treina com a seleção brasileira, no Beira-Rio, para o jogo pelas eliminatórias da Copa contra o Equador (Nelson Almeida – 29.ago.2017/AFP)

“É um insulto”, escreveu o articulista David Gate em texto veiculado pelo site Fanside, que reúne publicações de comunidades de torcedores.

“Um jogador que faz greve pode ser multado por não cumprir o contrato. Um jogador machucado não pode” continuou Gates. “Ele quer jogar no Barcelona e pelo Brasil, mas também quer ser pago pelo Liverpool. Mentir sobre contusões é um tapa na cara de todo fã do Liverpool que o apoiou.”

Coutinho pode ter tido dores nas costas e melhorado – um médico amigo do atleta afirmou que há chance de elas terem sido ocasionadas “por uma questão emocional, estresse”. Pode também ter tido uma virose e melhorado. Mas a fanática torcida do Liverpool dificilmente aceitará essa versão.

Expostos os acontecimentos, restam dois cenários (o primeiro parece ser o mais provável):

  • Coutinho sai. Vitória dele. Aos 25 anos, realizará seu sonho de jogar no Barça, ao lado de Messi e companhia, ocupando possivelmente o espaço aberto por Neymar, e lamentará, porém logo esquecerá, o fato de se tornar “persona non grata” perante uma torcida que o idolatrava. Derrota do Liverpool? Sim, institucionalmente. Não (não mesmo), financeiramente.
  • Coutinho fica. Derrota dele. Queimado, terá de ter muito sangue-frio para reconquistar a torcida. Qualquer erro (passe, chute, drible) será razão para vaias no estádio Anfield. Se elas se tornarem persistentes, a situação pode ficar insustentável. Em uma temporada que precede a Copa do Mundo, pode lhe custar a ida à Rússia. Vitória do Liverpool? Apenas se Coutinho superar a frustração e fizer grandes partidas, o que aplacará a ira dos torcedores. Se não, terá no elenco um jogador caro e pouco útil que poderia ter vendido por milhões.
Philippe Coutinho na partida pela Premier League, contra o Sunderland, na qual machucou o pé direito (Paulo Ellis – 26.nov.2016/AFP)

Em tempo 1: A meu ver, Philippe Coutinho poderia ter evitado de forma inteligente e elegante esse mal-estar com o Liverpool (clube e torcida). Bastaria uma entrevista na qual dissesse algo assim: “Estou muito feliz aqui. Se cheguei a este nível como jogador, devo ao Liverpool, que acreditou no meu potencial. Há o interesse do Barcelona, que também é um grande clube, mas neste momento não há uma definição. Só sairei se houver um acordo que satisfaça o Liverpool”. As três primeiras frases são verdadeiras. A última funciona como uma meia-verdade. Coutinho ganharia tempo para nos bastidores negociar uma separação amigável. Que se resumiria a seis frases em conversa franca e reservada com a direção: “Meu sonho de menino é jogar no Barcelona. Lá estarei realizado. Eles vão descarregar aqui um caminhão de dinheiro. E com esse dinheiro será possível trazer três ou quatro ótimos jogadores para o time. Que estarão felizes aqui. Será melhor para todos”.

Em tempo 2: Realização de sonho à parte, Coutinho não perderá esportivamente caso permaneça no Liverpool. Assim como o Barcelona, o time inglês disputará a Liga dos Campeões da Europa, o mais badalado interclubes do mundo, a partir da segunda semana de setembro. Aliás, assim como o clube espanhol, o Liverpool é gigante na Champions, tendo sido campeão cinco vezes, tantas quanto o Barça.