Expulso por brincar com ex-colega, Kaká faz desabafo polido contra a (video)arbitragem

Por Luís Curro

Com a ampliação dos testes da videoarbitragem, que tem sido utilizada na Holanda, na Alemanha e nos EUA, semana sim, semana não, emergem discussões sobre a eficácia do sistema batizado de VAR (video assistant referee).

Na semana passada, escrevi sobre um caso na Supercopa da Holanda e concluí que, se não houver uma revisão de procedimentos no VAR, corre-se o risco de estragar o futebol.

Desta vez, o cenário são os EUA, e o campeonato é a MLS (Major League Soccer), a divisão de elite do país.

A repercussão foi grande porque uma decisão da arbitragem, depois de consulta ao VAR, resultou na expulsão do meia-atacante Kaká, eleito o melhor jogador do mundo em 2007 e um dos mais famosos estrangeiros a atuar na MLS, na noite de sábado (12).

Uma expulsão incompreensível e inconcebível.

Ex-São Paulo, Milan e Real Madrid, Kaká joga pelo Orlando City desde 2015 (Kim Klement – 5.jul.2017/’USA Today’/Reuters)

Nos acréscimos do segundo tempo, o visitante Orlando City, time de Kaká, perdia por 3 a 1 para o New York Red Bulls quando começou um entrevero na lateral do campo, depois que jogadores do Orlando entenderam que um atleta do New York deu um esbarrão sem bola em um companheiro.

O curioso é que, ao ver a imagem, a minha conclusão é de o atleta do Orlando ter colidido com um jogador do próprio time, não com um adversário.

Higuita, do Orlando, deu um “chega pra lá” em Adam, do New York, e tomou a seguir um “chega pra lá” de Davis, colega de Adam.

Formou-se um “bolinho” de jogadores, que timidamente iniciaram um empurra-empurra, nada grandioso.

Na pequena confusão, que já parecia perto de acabar, Kaká decidiu brincar com o francês Aurélien Collin, seu colega no Orlando na temporada de 2015.

O brasileiro se aproximou por trás, sorrateiro, e dando risada passou a apertar o rosto e o pescoço do zagueiro. O careca Collin aparentou estar incomodado, apenas até perceber que quem o incomodava era Kaká. E então também abriu um sorriso, amigavelmente.

Aplacados os ânimos, o árbitro da partida, Jorge Gonzalez, americano de 49 anos, decidiu recorrer ao VAR para decidir o que fazer.

Abro aqui um parênteses para um esclarecimento. De acordo com orientação da Fifa, o recurso só deve ser utilizado em situações específicas: gols (se houve ou não irregularidade), pênaltis (se a marcação foi correta ou se uma marcação deixou de ocorrer), expulsões (se houve exagero ao mostrar o cartão vermelho ou se o jogador merecia ser expulso mas não foi) e erros de identificação (se o árbitro mostrou cartão amarelo ou vermelho para jogador errado).

Não entendi por que Gonzalez decidiu rever o lance. Da parte dele, parecia não haver razão. A única explicação é o videoárbitro tê-lo alertado a respeito de algo que tenha visto nas imagens.

Depois de assistir à confusão em um monitor, Gonzalez deu um cartão amarelo para Higuita, do Orlando, e outro para Davis, do New York.

Repare: segundo a Fifa, apenas casos de cartões vermelhos devem ser considerados, ou seja, voltar atrás em uma expulsão ou determinar uma expulsão; nada é especificado sobre o cartão amarelo.

Esse foi o erro um.

O erro dois é este: Gonzalez mostrou o cartão vermelho para Kaká – o brasileiro de 35 anos, capitão do Orlando, nem amarelo tinha. Para justificar, o juiz levou as mãos ao próprio rosto, replicando a atitude de Kaká em relação a Collin.

Gonzalez, veja, interpretou a escancarada brincadeira de Kaká como uma agressão. Menos sensibilidade impossível.

“O Mundo é uma Bola” entrou em contato com o departamento de comunicação da MLS na segunda (14) e questionou se a liga poderia analisar a jogada e anular a expulsão de Kaká. A resposta: é do clube a decisão de contestar a aplicação de um cartão vermelho.

O Orlando emitiu uma nota em que afirma que decidiu “respeitar a decisão” para “evitar consequências adicionais que podem resultar de uma apelação da decisão tomada em campo”.

O blog apurou que o time considera que o árbitro errou, mas não via chance de vitória em um julgamento e, por isso, preferiu não se expor a um confronto com a associação de árbitros e com a MLS, dando o assunto por encerrado.

Kaká, que cumprirá uma partida de suspensão, pronunciou-se em rede social nesta terça (15). Ele desabafou, polidamente:

“Espero que o cartão vermelho que recebi ajude a melhorar o novo sistema de revisão da arbitragem, que neste momento é criticado e questionado após a minha suspensão. Aqueles que gostam de futebol querem que os resultados das partidas sejam a cada dia menos influenciados por erros humanos possíveis e compreensíveis, mas ao mesmo tempo não podemos deixar a falta de bom senso ferir a natureza e a espontaneidade do jogo”.

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Kaká não foi direto, serei por ele: faltou bom senso ao videoárbitro (cujo nome não foi divulgado), ao árbitro Jorge Gonzalez, à Major League Soccer.

Ponto negativo para a (video)arbitragem, ponto negativo para a cartolagem.

Não há ninguém que ganhe com essa decisão absurda, mas certamente há quem perca: o futebol.

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Em tempo: Na MLS, o time de Kaká precisa reagir na reta final da fase classificatória para conseguir avançar à etapa decisiva – o Orlando ainda tem dez partidas pela frente para tentar ir aos mata-matas pela primeira vez. Nos últimos seis jogos, acumulou cinco derrotas e um empate e ocupa atualmente a oitava posição na Conferência Leste, entre 11 equipes, com 30 pontos (oito vitórias, seis empates e dez derrotas). Os seis primeiros se classificam, e o sexto colocado, o Atlanta, está com 35 pontos.