Irã bane da seleção jogadores que atuaram contra time de Israel

Por Luís Curro

A dez meses do começo da Copa do Mundo de 2018, há por enquanto apenas três seleções classificadas entre as 32 que estarão em ação nos gramados da Rússia: a anfitriã, o Brasil e o Irã.

Uma delas, a iraniana, mesmo com todo esse tempo para o pontapé inicial da mais importante competição futebolística do planeta, já possui duas baixas significativas.

E de jogadores experientes, que estiveram na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, e têm atuado regularmente, com qualidade, no classificatório asiático para o próximo Mundial.

O meia-atacante Shojaei, de 33 anos, capitão da seleção em jogos recentes, e o ala-volante Hajsafi, de 27 anos, não serão mais convocados. Para o resto da vida.

Masoud Shojaei em entrevista no CT do Corinthians na preparação do Irã para a Copa do Mundo de 2014 (Miguel Schincariol – 5.jun.2014/AFP)

Contusões sérias? Não. Desentendimentos com o treinador da equipe, o português Carlos Queiroz? Não. Declínio técnico irreversível? Não. Indisciplina tática? Não.

A razão é político-religiosa.

“É certo que Masoud Shojaei e Ehsan Hajsafi nunca mais serão chamados para a seleção nacional, pois ultrapassaram a linha vermelha”, afirmou Mohammad Reza Davarzani, vice-ministro dos Esportes do Irã, à TV estatal do país, de acordo com o jornal “The New York Times”.

Mas o que significa a “linha vermelha”?

Ambos terem atuado pelo Panionios, equipe grega que defendem, em partida da fase preliminar da Liga Europa contra o Maccabi Tel Aviv, de Israel, que venceu por 1 a 0 o confronto em Atenas e se classificou.

Desde 1979, a partir da Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini (morto em 1989), o Irã tem relações rompidas com a nação vizinha. O governo iraniano não reconhece o Estado de Israel, e os países não possuem relações diplomáticas e comerciais.

Com esse posicionamento, estabeleceu-se uma regra velada: o esportista iraniano está proibido de competir, individual ou coletivamente, contra o(s) representante(s) de Israel. É considerado traição.

Nas palavras de Davarzani, “eles (Shojaei e Hajsafi) têm contrato com um clube e são pagos para defender o time, mas jogar com o representante do regime nojento… não é aceitável para o povo iraniano”.

Hajsafi (número 3) e Shojaei (número 7) posam com a seleção iraniana antes da partida com a Argentina no Mundial do Brasil, há três anos, no Mineirão; o Irã, com um empate e duas derrotas, caiu na primeira fase (Behrouz Mehri – 21.jun.2014/AFP)

A federação de futebol iraniana tentará mudar a decisão do representante do governo, que é apoiada pelo Parlamento do país, não apenas por perder dois de seus melhores jogadores, mas especialmente para tentar evitar uma sanção da Fifa.

A entidade máxima do futebol não permite interferência política nas atividades relacionadas ao futebol, e há a possibilidade de a seleção do país ser banida das competições internacionais – incluindo, em uma decisão extrema, da Copa do Mundo.

A Fifa ainda não se manifestou sobre o caso. Tampouco Shojaei e Hajsafi o fizeram.

Em tempo: Shojaei é um “cabeça aberta”, ao menos em assuntos relacionados ao futebol. Depois da classificação do Irã para a Copa de 2018, em junho, ele se pronunciou, em um vídeo, favoravelmente à presença de mulheres nos estádios do Irã, o que é proibido há quase quatro décadas. “Espero que isso aconteça logo. Acredito ser o sonho de muitas iranianas que adoram futebol”, afirmou ele.