Tite esbarra na incongruência ao incluir Ederson e Rodrigo Caio em convocação

Por Luís Curro

É preciso tomar uma dose de cuidado ao escrever sobre Tite, se for em tom de crítica.

O treinador da seleção brasileira é considerado uma unanimidade nacional (já teve até de responder sobre a possibilidade de ser presidente da República, de tão estragado que o Brasil está no cenário político), e com razão: desde que assumiu o cargo, em substituição a Dunga, acumula dez vitórias e só uma derrota – em amistoso diante da Argentina, por 1 a 0.

Tite tirou o Brasil de situação delicada nas eliminatórias para classificar o time para a Copa da Rússia com antecedência.

Assim, se dá ao luxo de poder fazer experiências, mesmo em partidas oficiais, para encontrar a melhor equipe até a data da convocação final para o Mundial.

Restam quatro jogos para o Brasil no qualificatório sul-americano: Equador, no próximo dia 31, na Arena do Grêmio; Colômbia, no dia 5 de setembro, em Barranquilla; e dois jogos no início de outubro, como visitante contra a Bolívia e no Allianz Parque, em São Paulo, diante do Chile.

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Na convocação para as partidas contra equatorianos e colombianos, Tite justificou a presença e a ausência dos nomes com base nos seguintes elementos: passado no clube e na seleção, momento presente e projeção futura para a Copa. “A gente contextualiza e a partir daí (faz) a convocação”, declarou.

Esses critérios são bem amplos e dão embasamento para justificar praticamente toda inclusão ou exclusão. Aliás, “projeção futura para a Copa” para mim é algo vago e que permite fundamentar a convocação de qualquer um.

Tendo admiração e respeito por Tite, e excluindo a tal da “projeção para a Copa”, eu me permito apontar incongruências em um par de escolhas.

Há 23 jogadores na lista divulgada nesta quinta (10), e primeiro eu cito os que julgo corretos, considerando os fatores apresentados pelo técnico, independentemente de eu concordar ou não com determinados nomes (desgosto de Alisson, Miranda, Fernandinho e Taison e tenho restrições a Giuliano):

Allison e Cássio (goleiros); Daniel Alves, Fagner, Marcelo e Filipe Luís (laterais); Miranda, Marquinhos e Thiago Silva (zagueiros); Casemiro e Fernandinho (volantes); Paulinho e Renato Augusto (volantes-meias); Willian, Philippe Coutinho, Giuliano e Luan (meias-atacantes); Neymar, Firmino, Taison e Gabriel Jesus (atacantes).

Restam dois, cujas presenças são amplamente discutíveis. Aponto por quê.

Ederson, do Manchester City, sai mal do gol e é driblado por Lukaku, que marcou na sequência para o Manchester United em jogo pela International Champions Cup, em Houston (David J. Phillip – 20.jul.2017/Associated Press)

Ederson (goleiro). Seu passado na seleção é bem recente. Esteve antes em duas convocações de Tite (ambas neste ano) e não jogou como titular. Mudou recentemente de clube (do Benfica para o Manchester City) e na estreia pelo time inglês falhou feio em derrota em amistoso contra o maior rival, o Manchester United. Assim, seu passado imediato no Man City registra uma falha marcante e seu presente é uma incógnita, já que o Campeonato Inglês ainda vai começar.

Chamado mais vezes por Tite, Weverton, titular do Brasil campeão olímpico da Rio-2016, deveria figurar na lista, e não Ederson. Desde que o treinador assumiu, o arqueiro do Atlético-PR foi titular em dois amistosos e reserva de Alisson em todas as partidas das eliminatórias.

Weverton não faz, é verdade, uma temporada tão boa como a de Vanderlei, do Santos, preterido por Tite – Cássio, do Corinthians, foi lembrado justamente por isso, pela ótima fase.

As idades dos citados: Ederson, 23; Allison, 24; Cassio, 30; Weverton, 29; Vanderlei, 33.

Rodrigo Caio avança com a bola no amistoso Austrália x Brasil, em Melbourne, somente o segundo jogo dele como titular da seleção principal (Mal Fairclough – 13.jun.2017/AFP)

Rodrigo Caio (zagueiro). Titular da seleção olímpica que ganhou o inédito ouro em 2016, tem histórico de assiduidade na seleção principal muito inferior ao de David Luiz (titular na Copa do Mundo de 2014) e ao de Gil (presente em todas as convocações de Tite para as eliminatórias). Além disso, no clube, Rodrigo Caio integra uma defesa bem pouco confiável neste Brasileiro – o São Paulo está na zona do rebaixamento.

Gil vai bem neste ano com o Shandong Luneng, quinto colocado no Campeonato Chinês, que está em andamento. Atuou em todos os 20 jogos, sem ser substituído, e marcou dois gols. David Luiz, campeão inglês com o Chelsea na temporada 2016/2017, iniciará o campeonato como titular.

Na minha lógica, Gil e David Luiz estão à frente de Rodrigo Caio hoje.

As idades dos citados: Rodrigo Caio, 23; Gil, 30; David Luiz, 30.

Certamente, caso questionado acerca das escolhas e das não escolhas (não o foi assertivamente na entrevista coletiva pós-convocação), Tite apresentará detalhadamente seus argumentos.

Mas que há incoerência na opção por Ederson e Rodrigo Caio, em detrimento a concorrentes mencionados, comparando-se o passado recente e o presente deles, isso há.

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Em tempo 1: Deixo aqui questionamentos sobre Giuliano e Taison, dois xodós de Tite, que chamam mais a atenção que outros por jogar do meio para a frente. Apesar de haver justificativa para a presença deles na seleção (devido ao histórico, já que têm sido chamados com constância pelo treinador), são eles as melhores alternativas, mesmo que para a reserva? Com a troca de técnico no Zenit, da Rússia, Giuliano deixou de ser titular, o que lhe é prejudicial pois perde ritmo de jogo. Taison, que joga faz quase dez anos na Ucrânia sem brilho… Tite enxerga qualidades nele que eu desconheço – Douglas Costa, que deixou o Bayern e foi para a Juventus, é muito, mas muito mais jogador. Para o posto de Giuliano, com as fases instáveis e/ou ruins de Lucas Lima (Santos), Oscar (Shangai SIPG) e Ganso (Sevilla), eu prefiro os flamenguistas Éverton Ribeiro ou Diego Ribas, ou então o corintiano Rodriguinho.

Em tempo 2: Tite é o treinador. Quem manda é ele. Para minimizar possíveis contestações da imprensa (neste caso, minha), o melhor a fazer é acrescentar uma frase às explicações relativas a incluir e/ou excluir determinados jogadores: “Tem subjetividade”. Simplesmente porque tem. Subjetividade também é critério.

Em tempo 3: Independentemente de haver incongruência na convocação, quem está no grupo muito provavelmente jogará bem. Se Tite tem uma qualidade, é a de fazer qualquer atleta de alto nível (e na seleção é praxe estarem os melhores) jogar no seu máximo, com confiança e determinação extremas, dentro de um esquema tático muito bem definido. O torcedor pode ficar tranquilo: a seleção está em ótimas mãos.