Para dar certo, videoarbitragem terá de parar jogo a cada lance de pênalti, o que estragará o futebol

Por Luís Curro

Volto ao tema videoarbitragem, já abordado algumas vezes neste espaço, motivado por um acontecimento na Supercopa da Holanda.

Pois a Copa do Mundo da Rússia se aproxima (faltam pouco mais de dez meses) e tudo indica que a Fifa colocará o sistema, batizado de VAR (video assistant referee), em prática na mais importante competição do futebol mundial, vista pela TV por milhões de pessoas.

Desde sempre fui contra a introdução do VAR. Pois, para mim, a tecnologia muda radicalmente a forma de se ver o esporte, influencia demais na sua dinâmica, deixa torcedores, jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas, gandulas, todos sem saber o que está acontecendo.

E o mais grave: não é e não será infalível.

Equipamento que os árbitros de vídeo utilizam na MLS, liga de futebol dos Estados Unidos, similar aos usados em outros países e competições (Rick Bowmer – 11.jul.2017/Associated Press)

Tenho sido uma voz quase solitária na contestação ao avanço da tecnologia. Felizmente, há pouco mais de uma semana, um personagem relevante no futebol nacional se expressou contrariamente ao seu uso.

O treinador do Corinthians, Fábio Carille, afirmou depois do 1 a 1 com o Flamengo, em Itaquera (jogo em que sua equipe foi prejudicada por um escandalosamente mal anulado gol de Jô, que não estava impedido), que “a tecnologia deixará o futebol chato”.

“Sou contra. Vai ficar parando muito (o jogo)”, justificou Carille, que fez a ressalva da necessidade de se recorrer ao recurso para saber se a bola entrou ou não no gol.

Concordo plenamente com o treinador do líder do Brasileiro. Já faz algum tempo que alguns campeonatos usam o sistema em que o árbitro é avisado (por mensagem eletrônica) se a bola ultrapassou a linha do gol, na chamada “goal-line technology” – houve sucesso dessa prática, inclusive, na Copa do Mundo no Brasil, em 2014.

Os defensores do VAR, que é o auxílio por vídeo, geralmente argumentam que ele trará mais justiça ao futebol, com a observação minuciosa de lances de gol, pênalti, advertência e expulsão.

Na maioria dos casos, sim. Mas a que preço?

Já houve gol efusivamente comemorado que foi anulado, frustrando atletas e torcedores, e gol anulado que foi comemorado um tempinho depois, surpreendendo atletas, torcedores, narradores…

Tudo isso à custa de paralisações por minutos, para que haja a comunicação do árbitro com o videoárbitro e/ou a ida do juiz à lateral do campo para rever a jogada duvidosa/questionada.

Queremos isso, com frequência, no jogo que amamos? Eu tenho certeza de que não quero.

Indo além: o que não quero mesmo, e considero inadmissível, é o que aconteceu na Supercopa da Holanda, no sábado (5), entre Feyenoord (campeão holandês) e Vitesse (campeão da Copa da Holanda).

Atuando em casa, em Roterdã, o Feyenoord, que conta com o beque brasileiro Eric Botteghin, ganhava por 1 a 0.

Ataque do Vitesse. Matavz recebeu ótimo passe, entrou na área e, ao preparar o chute, caiu, em lance com El Ahmadi, do Feyenoord.

O árbitro Danny Makkelie, de 34 anos, otimamente posicionado, a uns dois metros de distância e com visão total da jogada, não deu o pênalti e deixou a partida seguir.

O Feyenoord iniciou um contra-ataque e, 19 segundos depois, a bola estava na rede do Vitesse. Jorgensen pegou rebote do goleiro Pasveer e marcou.

Makkelie ergueu o braço e anulou o gol, anotando impedimento. A câmera não mostrou se o bandeirinha anotou a irregularidade, mas suponho que sim, devido à rapidez com que Makkelie tomou a decisão.

Só que o árbitro não deu prosseguimento ao jogo.

Depois de usar o ponto eletrônico, para ouvir apontamentos do videoárbitro (que acompanha a partida por vários monitores, que lhe oferecem diversos ângulos de cada jogada), foi até a lateral do campo e gerou expectativa geral.

Enquanto Makkelie tirava sua dúvida em um monitor, parte da torcida se mostrava apreensiva. Outra, mais bem humorada, fazia gestos com as mãos que significavam “suspense”.

Um minuto e cinco segundos depois de Jorgensen ter o tento anulado, Makkelie retornou ao gramado, e então todos perceberam que não revisava o lance do gol do Feyenoord, e sim a jogada em que não marcara pênalti para o Vitesse.

Ele voltou atrás e assinalou a penalidade máxima. De quebra, deu cartão amarelo para El Ahmadi. O Vitesse converteu o pênalti e empatou o confronto. Um 2 a 0 virou rapidamente um 1 a 1. Incrível, não?

Aparentemente, a justiça ocorreu. El Ahmadi tinha mesmo feito pênalti em Matavz. E Jorgensen estava mesmo impedido – por centímetros.

Mas faço um questionamento. E se o gol de Jorgensen tivesse sido legal? E se fosse em uma partida de Copa do Mundo? Imaginou a confusão e a polêmica?

O leitor pode responder: não importa, anula-se o gol e faça-se a justiça, marcando-se o pênalti que existiu.

Concordo discordando.

O futebol é movido por altas doses de emoção.

O dinamismo impera, e é o que diferencia (positivamente) o mais popular esporte do planeta dos demais, por exemplo o futebol americano, tido como bem-sucedido no uso da tecnologia para revisar lances, mas que tem paradas intermináveis – o espectador (no campo e no sofá) até já se acostumou com as interrupções, mas que elas são chatas, são.

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Caso a opção pela tecnologia seja feita (a Fifa fala que ainda está na fase de testes, mas eu considero impossível a não implantação do VAR na Copa de 2018), que ela seja executada com primor. Se é que isso é viável.

Vejamos: em Feyenoord x Vitesse, Makkelie deixou o jogo seguir porque não teve dúvida de que não foi pênalti. Ele era senhor da jogada.

Sua certeza, todavia, não se mostrou decisiva. Pois os lances que envolvem pênalti, aquele marcado ou aquele não marcado, estão sujeitos à revisão do videoárbitro, o “cara da TV”. Foi o que ocorreu.

Só que, para verificar se houve ou não infração, o “cara da TV” pode levar um tempo, uns 15, 20, 30 segundos – talvez mais. Se o jogo continua, corre-se o risco de haver um acontecimento relevante, até o mais relevante de todos, que é o gol.

Aconteceu na Supercopa da Holanda. Acontecerá de novo.

Assim, a Fifa terá de deliberar seriamente sobre o tema e decidir o que quer. Logo.

Se o videoárbitro se tornar todo-poderoso, o que parece ser a tendência, toda vez que alguém cair na área em disputa com um oponente, ou supostamente um defensor colocar a mão na bola, a partida tem de ser paralisada imediatamente, a fim de evitar polêmica na jogada seguinte. Enfatizo: toda vez, sem exceção.

E haja comunicação por ponto eletrônico, hajam idas ao monitor que fica na lateral do gramado. E faça-se do futebol um tédio, com paradas intermináveis.

Se não é isso que se deseja, então é preciso ser flexível. Confiar na marcação (ou na não marcação) feita no campo.

O problema é que a flexibilidade vai na contramão da justiça. E, optando-se pela flexibilidade, volta-se ao início de tudo. Estaca zero.

Enfim, na minha visão, os erros continuarão a acontecer no futebol, como sempre aconteceram, independentemente do VAR – até porque o “cara da TV” pode errar, já que é humano, por mais aparato tecnológico de que disponha.

Tentar tornar o futebol uma ciência exata, imune a erros, é que é o maior dos erros.

Pois o erro faz parte do jogo. É um de seus componentes.

Outro é a interpretação – por exemplo, um árbitro pode avaliar que determinada falta foi suficientemente violenta para dar o cartão vermelho para um jogador; outro, não.

Quem tem olhos que veja isso. E aceite, em vez de apoiar uma novidade revolucionária que se anuncia como solução e que na verdade não passa de utopia.

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Em tempo 1: Árbitros ou auxiliares de arbitragem (bandeirinhas e assistentes que ficam atrás do gol) ruins são outro assunto. Defendo e sempre defenderei que ao término da partida todos os envolvidos passem por uma avaliação e, em caso de erros crassos, sejam punidos com o afastamento – temporário, para refletirem sobre a falha e não mais repeti-la. Para haver afastamento definitivo, apenas em caso de repetição de falhas constante. Cito aqui apenas o quesito ruindade, pois prefiro não acreditar em má intenção – honestidade é essencial para alguém denominado “juiz”, mesmo que de futebol. Árbitro mal-intencionado (dificílimo provar que exista), esse sim deve ser banido do esporte.

Em tempo 2: Feyenoord e Vitesse empataram em 1 a 1, e o primeiro conquistou a Supercopa da Holanda ao ganhar por 4 a 2 na disputa de pênaltis.