Beckham entra no Salão da Fama do PSG devido, apenas, à sua fama

Por Luís Curro
X

“Espere, por que David Beckham está no Hall da Fama do Paris Saint-Germain?”

O questionamento, em tom de espanto, é de Jeremy Woo, da revista americana “Sports Illustrated”.

Um ótimo questionamento, aliás.

David Beckham, hoje com 42 anos, teve sucesso no futebol, é inegável.

Pelo Manchester United, o clube que o alçou ao estrelato, conquistou uma Liga dos Campeões da Europa e um Mundial interclubes (ambos em 1999), seis Campeonatos Ingleses (o último em 2003), quatro Supercopas da Inglaterra e duas Copas da Inglaterra. Pelo Real Madrid “galáctico”, um Campeonato Espanhol (2007) e uma Supercopa da Espanha (2003).

Depois, se mandou para os EUA, onde, como ídolo do Los Angeles Galaxy, ajudou na retomada da liga de futebol no país. Mesmo apresentando certo declínio físico, liderou o time em campanhas que resultaram em dois títulos da Major League Soccer, em 2011 e 2012.

Esses são os grandes momentos na carreira clubística do inglês nascido em Londres.

Beckham, então com 23 anos, ao deixar o campo do estádio San Siro após empate com a Inter de Milão pela Champions League (Alex Trovati – 17.mar.1999/Associated Press)

Por isso, o Paris Saint-Germain, campeão de quatro dos últimos cinco campeonatos nacionais, causou surpresa ao incluir Beckham em seu recém-criado Salão da Fama, nesta semana.

Um Salão da Fama de um clube, no meu conceito, deve conter personalidades que tenham sido fulgurosas na história desse clube. Enfatizo: na história desse clube.

O que Beckham fez no PSG? Atuou pela equipe por menos de um semestre, em 2013. Em apenas 14 partidas. E não marcou um mísero gol.

Ok, o PSG ganhou o Campeonato Francês daquele ano, e Beckham estava no elenco.

Mas essa curta passagem é suficiente para que ele figure no Salão da Fama, ao lado de ícones do time como Raí, Ibrahimovic, Ronaldinho Gaúcho, George Weah, Ricardo Gomes e Carlos Bianchi, entre outros?

Pelo desempenho esportivo e/ou pelo tempo de dedicação, definitivamente, não.

O que resta, então, como explicação?

Beckham, emocionado ao ser substituído em PSG x Brest, em Paris, jogo em que encerrou sua carreira no futebol, aos 38 anos (Gonzalo Fuentes – 18.mai.2003/Reuters)

Assim o PSG descreve Beckham, quando se clica sobre sua imagem na seção Salão da Fama, no trecho final do resumo de sua carreira: “Ícone da moda e sonho dos patrocinadores, Beckham assinou com o PSG. Um charmoso embaixador para o clube da capital, ele encerrou a sua carreira com uma emocionante vitória sobre o Brest no Parc des Princes e com mais um troféu – campeão da França“.

Repare nas palavras. “Ícone da moda.” “Sonho dos patrocinadores.” “Charmoso embaixador.”

O sucesso de Beckham, é fato, extrapolou as quatro linhas. O perfil de galã (loiro, 1,83 m, boa-pinta e bem cuidado), aliado ao bom trato com a bola, o ajudou a se tornar um garoto-propaganda desejado por grandes empresas e a espalhar sua imagem pelo planeta.

Leia também – David Beckham é o homem mais sexy do mundo, diz revista

Para completar, casou-se com Victoria Adams, uma das badaladas integrante do grupo pop feminino Spice Girls, que fez estrondoso sucesso no final dos anos 1990. Victoria era a “Posh Spice” – “posh” é “elegante”. Pronto. Estava formado o casal-celebridade.

X

Particularmente, nunca fui um grande fã do metrossexual Beckham, a quem sempre julguei chamar mais a atenção pelos penteados e roupas estilosos, e pela presença em eventos sociais e publicitários, do que pelo que efetivamente jogava.

Em campo, era disciplinado taticamente e tinha muita classe, mas no geral (e respeito quem discorde) considerava que ele fazia pouco além de cobrar faltas com maestria.

Aliás, foi graças a uma cobrança de falta perfeita do camisa 7 que o English Team se classificou, sem precisar disputar a repescagem, para a Copa do Mundo de 2002 (Coreia-Japão).

Em outubro de 2001, contra a Grécia, em Manchester, a Inglaterra precisava de um empate e perdia de 2 a 1 quando, nos acréscimos do 2º tempo, o árbitro marcou uma falta (inexistente) para os ingleses perto da área. O capitão Beckham, careca à época, mandou no ângulo do gol defendido por Nikopolidis.

Possivelmente, o melhor instante dele pela seleção de seu país, já que nunca ganhou nada relevante – nem chegou perto. Nas três Copas do Mundo que disputou (1998, 2002 e 2006), esteve longe de ter atuações marcantes. Minto. Até teve, mas negativamente, tendo sido expulso contra a Argentina na França, 19 anos atrás.

Voltando a Jeremy Woo, citado no começo deste post, respondo-lhe, em uma frase curta, a razão de Beckham estar no Hall da Fama do PSG.

Pela fama.

Nunca um Salão da Fama teve alguém que fez tanto jus a esse nome.

X

Em tempo 1: O Salão da Fama do Paris Saint-Germain não é como os tradicionais. Não há um ambiente físico para que o público aprecie os escolhidos, ele se hospeda em um local chamado internet. Para saber a opinião do clube sobre cada uma de suas “lendas” (como cada um dos 20 jogadores é tratado), somente no site oficial do PSG.

Em tempo 2: Beckham foi indicado em maio ao Hall da Fama do futebol dos Estados Unidos. Indicado. Pode ou não ser eleito. Se for, terá um espaço dedicado a ele no museu localizado em Oneonta, leste dos EUA. Seus mais famosos homenageados são Pelé, Carlos Alberto Torres e o alemão Franz Beckenbauer.