Tragédia do Sarriá, um dos mais tristes momentos da seleção brasileira, completa 35 anos

Por Luís Curro

Efeméride. Eis uma palavra que pouco se ouve no dia a dia. Significa um fato importante ocorrido em determinada data.

Minha memória geralmente não me ajuda a lembrar de aniversários de eventos relevantes.

Mas há uma gritante exceção. Conhecida como A Tragédia do Sarriá. Que forjou o maior carrasco da história da seleção brasileira. Mais que o uruguaio Ghiggia na final da Copa de 1950, o Maracanazo. Seu nome é Paolo Rossi, e ele é italiano.

Paolo Rossi vibra com o segundo de seus três gols contra o Brasil na Copa da Espanha, há 35 anos; atrás, Graziani (19), Júnior e o goleiro Waldir Peres (5.jul.1982/Associated Press)

Há exatos 35 anos, em um 5 de julho, no estádio Sarriá, em Barcelona, o Brasil era eliminado da Copa do Mundo da Espanha. Perdeu por 3 a 2 da Itália (três gols de Paolo Rossi, que até então não tinha feito nenhum em quatro partidas na competição) um jogo que podia empatar para avançar à semifinal.

Resultado que deixou o Brasil de luto. Não só o time, mas toda uma nação de 120 milhões de habitantes, chorou – eu, ainda garoto, incluído.

Waldir Peres; Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho e Éder.

Essa é a melhor seleção de futebol que vi jogar ao vivo, pela TV, em uma Copa, e provavelmente não verei outra que considere superior.

Em 1982, eu tinha 9 anos e, do segundo andar de um apartamento na rua Conselheiro Brotero, em São Paulo, na TV a cores cujos canais eram mudados em um seletor, empolgava-me como todo o país, na narração de Luciano do Valle, com a magia futebolística do escrete dirigido por Telê Santana.

Saudade. Se não tivesse assistido aos jogos da seleção naquele Mundial, talvez não tivesse passado a gostar tanto de futebol. Influenciou, e como.

Um time que jogava para a frente, sempre, e que jogava bonito, sempre. Encantava.

O meio de campo transbordava talento. Cerezo (Atlético-MG), Sócrates (Corinthians), Falcão (Roma), Zico (Flamengo) – este último, o melhor deles, pois mais artilheiro.

Eu gostava também dos apelidos, que lhes davam um charme a mais: Zico (que já era o cognome de Arthur Antunes Coimbra) era o Galinho de Quintino; Falcão, o Rei de Roma; Sócrates, o Doutor.

Afora o fato de Cerezo ter atuado antes de ser jogador como palhaço de circo, histórico que o tornava uma figura curiosa e para lá de simpática.

Eram ases esses quatro. Habilidosos, inteligentes, técnicos e envolventes, evitavam dar mais que dois toques na bola. A movimentação era constante, e as defesas rivais ficavam atordoadas.

Não havia no meio-campo dessa seleção um volante, um cão de guarda. Ninguém dava pancada. Pelo contrário, apanhavam dos oponentes com frequência, pois esses não sabiam como contê-los sem agarrá-los ou derrubá-los.

X

Os laterais, Leandro e Júnior, ambos do Flamengo, tinham como característica inerente o apoio ao ataque. Leves, ágeis e destemidos, davam o suporte ofensivo necessário para os craques meio-campistas.

Não havia um ponta-direita, e muitos cobravam a falta de um. Era famoso o quadro do programa “Viva o Gordo”, de Jô Soares, no qual o personagem Zé da Galera berrava em um orelhão: “Bota ponta, Telê!!!”.

Ora, ponta-direita para quê? Numa hora Zico estava ali; noutra, Falcão; numa, Cerezo; noutra, Sócrates… E existia o suporte de Leandro, que surgia como ponteiro para fazer cruzamentos precisos.

Mas havia um ponta-esquerda. E não era qualquer um.

Éder (Atlético-MG), para mim, era o que diziam ter sido José Macia, o fantástico Pepe, que atuara na mesma posição algumas décadas atrás, por Santos e seleção, e que tinha no pé esquerdo um “canhão”. Pois a canhota de Éder igualmente emanava potência. Qualquer falta batida por ele, mesmo de muito longe, virava uma ameaça ao goleiro.

Completavam o time um zagueiro de futebol clássico, Luisinho (Atlético-MG), que apesar de não ser muito alto tinha grande poder de antecipação, e um trio de são-paulinos, Waldir Peres, Oscar e Serginho Chulapa.

Esse trio, em uma análise fria, destoava da equipe.

Oscar? Era alto, durão, bom cabeceador, mas não tinha habilidade – para um zagueiro, ok.

Serginho? Era alto, durão, bom cabeceador, mas não tinha habilidade – para um centroavante rodeado de talento, não parecia ok. (Careca seria o titular, mas teve uma lesão antes da Copa e foi cortado.)

Waldir Peres? Não era durão, não era bom cabeceador e não tinha habilidade – à época, um goleiro não precisava de nada disso; precisava ser unanimidade, e ele não era. Nem alto para a posição Waldir era (1,81 m).

Porém eu gostava de todos do time titular, sem exceção. E passei a gostar mais e mais no decorrer da Copa.

Os resumos dos jogos, a seguir, exibem os porquês.

Jogo 1 (URSS) – Cerezo não pôde jogar devido a uma suspensão, e Dirceu começou a partida de estreia. A União Soviética surpreendeu e saiu na frente, no 1º tempo, depois de Waldir Peres levar um frangaço em um chute de fora da área de Bal. O tempo passava, passava, e o goleiro Dasaiev mostrava-se uma muralha intransponível. Até que, aos 30 minutos do 2º tempo, Sócrates recebeu a bola na intermediária, passou lateralmente por dois rivais e mandou no ângulo. Dasaiev ainda resvalou na bola, mas era um chute sem defesa. O Brasil seguiu em cima. A dois minutos do fim, Paulo Isidoro, que substituíra Dirceu, rolou a bola da ponta direita para o meio, Falcão a deixou passar entre as pernas e surgiu Éder, que a ergueu com um toque antes de disparar um torpedo que deixou Dasaiev estático. 2 a 1. Vitória de virada, épica.

Jogos 2 e 3 (Escócia e Nova Zelândia) – Essas partidas serviram para despertar nos jogadores e nos torcedores uma confiança exacerbada. Duas goleadas. A primeira, contra os escoceses, mostrou mais uma vez o poder de reação da equipe: 4 a 1, após sair perdendo. Zico fez de falta, Oscar, de cabeça, Éder, encobrindo o goleiro, e Falcão, em chute de fora da área. A segunda, diante dos frágeis neozelandeses, foi um 4 a 0 arrasador. Só deu Brasil, o tempo todo – podia ter sido 8 a 0. Zico somou mais dois gols, Falcão, mais um, e Serginho fez seu primeiro.

Na segunda fase, o Brasil teria pela frente os campeões mundiais Argentina, de Maradona (então com 21 anos), e Itália, desacreditada após se classificar com três empates na primeira fase. Não importavam os adversários. Qualquer um parecia fácil. A confiança exacerbada dos brasileiros já havia se transformado em um “já ganhou”.

Jogo 4 (Argentina) – O Brasil mostrou superioridade do início ao fim… e venceu com folga, por 3 a 1, o seu arquirrival. Zico pegou rebote de falta cobrada violentamente por Éder no travessão e abriu o placar. No 2º tempo, Falcão cruzou para Serginho fazer o que mais sabia: cabecear para as redes. E Júnior, em investida-surpresa, recebeu lindo passe de Zico para fazer o terceiro – e celebrar com uma sambadinha (adepto do samba, o lateral gravou antes da Copa o hit “Povo Feliz”; e estávamos mesmo). Com o jogo perdido, e a classificação idem (os argentinos já tinham perdido de 2 a 1 para os italianos), Maradona apelou e deu, aos 40 minutos, uma voadora em Batista, que substituíra Zico. Foi expulso. O gol de Ramón Díaz, pouco depois, passou quase despercebido.

Jogo 5 (Itália) – O Brasil mostrou superioridade do início ao fim… mas perdeu, dolorosa e dramaticamente. Paolo Rossi, o camisa 20 da Azzurra, jogou o jogo da vida. Fez 1 a 0, o Brasil empatou (Sócrates, em tabela primorosa com Zico); fez 2 a 1, o Brasil empatou (Falcão, depois de Cerezo atrair a marcação de três italianos, em chutaço da meia-lua; sua vibração ao comemorar é daquelas de arrepiar); fez 3 a 2. Porém dois dos gols saíram de falhas clamorosas. No segundo, Cerezo errou de modo ridículo um passe na defesa; no terceiro, após escanteio, Luisinho, que estava perto de Paolo Rossi, deixou inexplicavelmente de marcá-lo, e Júnior, estático na pequena área, deu condição de jogo ao artilheiro. Nos instantes finais da partida, quase o 3 a 3 salvador, em cabeçada fulminante de Oscar, para o chão, que o quarentão goleiro Zoff salvou em cima da linha.

No apito final do árbitro israelense Abraham Klein, restaram comoção e lágrimas dignas de um funeral de um ente querido.

X

Quis rever esse jogo, inteiro, para analisar em detalhes, mas não encontrei disponível no YouTube. Vi então “A Tragédia do Sarriá – Uma Lição de Vida”, documentário de 50 minutos com direção e roteiro de André Moreira Neves. É um relato fiel e emocionante dos acontecimentos, com entrevistas com jogadores e jornalistas e a lembrança de quase todas as jogadas mais importantes da fatídica partida.

Entre elas, houve um gol feito perdido pelo Brasil no 1º tempo, quando Serginho e Zico ficaram cara a cara com Zoff, e o primeiro foi mais rápido para chutar de pé direito (o ruim), bisonhamente, para fora. Também no 1º tempo, houve um pênalti não marcado para o Brasil, pois Gentile, carrapato de Zico no jogo, rasgou a camisa 10 amarela, na área. Do outro lado, a Itália, já com 3 a 2 no placar, teve gol de Antognoni anulado por impedimento mal marcado (esse lance não aparece no filme).

Entre tantas as frases pós-eliminação ditas no documentário, elejo uma, de Sócrates, o capitão do time, que resume tudo o que significou aquela seleção brasileira: “Nesta Copa do Mundo, apesar de não termos ganho, o Brasil deu uma lição do que é jogar futebol”. Assino embaixo.

No dia 5 de julho de 1982, a pragmática porém eficaz Itália, que depois venceria a Alemanha Ocidental na decisão, ganhou do Brasil e derrotou também um conceito valiosíssimo, que foi minguando até praticamente desaparecer nos anos que se sucederam: o futebol-arte.

Em tempo: Sempre haverá os que dirão que o Brasil perdeu porque foi taticamente ingênuo, pois deveria ter se defendido, administrado o empate (que teve três vezes nas mãos) diante da Itália. É um argumento, mas não daria certo. Aquela seleção não sabia jogar defensivamente, atacar estava no seu DNA. A verdade é esta: a seleção brasileira perdeu a Copa de 1982 jogando lindamente, e por isso é uma equipe apaixonante e inesquecível.