Se o futebol adotar certas regras, jogo atual terá ares de lembrança

Por Luís Curro

Esporte historicamente resistente a mudanças, o futebol se rende à modernidade e deve presenciar em breve uma pequena, ou talvez grande, revolução.

A International Board, órgão responsável por gerenciar as regras do jogo, tem se mostrado nos últimos anos mais aberta a alterações.

Especialmente as que, segundo a entidade, tornam o  espetáculo mais dinâmico ou menos sujeito à cera, que é a retenção da bola com o intuito de levar vantagem.

Entre as propostas, que estão documentadas e ainda serão analisadas, há algumas radicais. Se aprovadas, o futebol como é conhecido terá ares de lembrança.

Uma das mudanças mais agudas é interromper a contagem do tempo sempre que a bola sair do campo, sendo que a partida duraria 60 minutos, com dois tempos de 30 minutos cada um. Haverá comparações inevitáveis com o basquete, um dos esportes em que o cronômetro para quando a bola não está em jogo.

Outra alteração drástica é permitir ao jogador que sofre uma falta batê-la para si mesmo – os fominhas agradecerão. Atualmente, quando uma falta é assinalada, é obrigatório passar a bola para um companheiro antes de poder tocá-la.

Há, ressalte-se, ideias boas, como a que permite só ao capitão de cada time se dirigir ao árbitro para questionar algum lance (impedindo que o juiz seja constantemente pressionado pela maioria dos jogadores) e a que determina que o árbitro só encerre a partida, tendo o tempo se esgotado, quando a bola sair do campo (o que evita o apito final durante uma jogada que pode resultar em gol).

Independentemente da simpatia ou não pelas sugestões (são quase 20, divididas nos temas comportamento/respeito, tempo de bola em jogo e justiça/atratividade), o essencial é que todas passem por um período de testes adequado, em competições menos importantes, como campeonatos de categorias de base.

Pois a pressa para mudar, aliada a possíveis decisões de incluir grandes torneios como laboratório, pode resultar em indesejáveis dúvidas e discussões – a videoarbitragem (VAR) é prova disso.

Telão no estádio de Sochi (Rússia), em Austrália x Alemanha na Copa das Confederações, informa que a arbitragem está recorrendo ao vídeo para esclarecer lance duvidoso (Martin Meissner – 19.jun.2017/Associated Press)

O recurso experimental, visto no Mundial de Clubes de 2016 e na Copa das Confederações em andamento, que teoricamente foi implantado para corrigir ou impedir erros crassos, tem confundido jogadores, treinadores, torcedores e jornalistas.

Por exemplo, em Chile 2 x 0 Camarões, no domingo (18), teve gol comemorado que foi anulado e gol não comemorado que foi validado, depois da consulta ao árbitro de vídeo. Ambas as jogadas envolviam situações de impedimento. O acontecimento, aliás, não foi inédito.

As autoridades do futebol, se adotarem o bom senso, devem esperar que todos se acostumem com a videoarbitragem, o que pode levar muitos meses, antes de lançar uma avalanche de novas regras.

A não ser que o objetivo seja estar, mais do que nunca, no centro das discussões, fazendo jus a um velho ditado: “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

Não deve ser assim, especialmente às vésperas de uma Copa do Mundo – daqui a menos de um ano, a Rússia abrigará o Mundial.

Implementadas com parcimônia, alterações podem ser benéficas e bem-vindas. Os personagens do esporte mais popular do planeta acabarão, cedo ou tarde, acostumando-se a elas.

Só não se pode chegar ao ponto de o futebol perder seu âmago.

Enquanto ele for praticado com os pés, será futebol, palavra aportuguesada do inglês “football” (bola no pé).

Se chegar o dia em que, além dos pés, se permitir o uso das mãos para os jogadores de linha (parece absurdo acontecer, mas vai saber), aí que se troque também o nome do jogo.

Pois sua essência terá morrido.