Por ‘respeito’ e ‘valentia’, técnico se interna em hotel em Gana

Por Luís Curro

Foram 40 dias de confinamento voluntário.

No melhor estilo “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, o treinador Gerard Nus decidiu se internar em um hotel de Acra, a capital de Gana, na África.

No início de fevereiro, depois do encerramento da Copa Africana de Nações, disputada no Gabão e vencida por Camarões (o vice-campeão foi o Egito), a delegação de Gana terminou com a quarta colocação – 16 países participaram.

Gerard Nus (dir.), com Avram Grant, em treino de Gana durante a Copa Africana de Nações, no Gabão (Reprodução/Site Gerard Nus)

Na volta ao país, houve a desmobilização do plantel e o encerramento das atividades da comissão técnica liderada pelo técnico israelense Avram Grant, ex-Chelsea.

Assistente de Grant na Copa Africana de Nações, Nus, porém, decidiu permanecer em Gana em vez de regressar à Espanha, sua terra natal, e reencontrar a família.

Motivo: falta de pagamento do que fora combinado com a federação ganense.

Ao término da competição no Gabão, a entidade comunicou que não poderia pagar, ao menos não imediatamente, o bônus prometido à comissão técnica devido a problemas financeiros. E pediu a todos que voltassem para suas casas e seguissem suas vidas.

Nus discordou e bateu o pé.

Instalado em um hotel, o treinador de 32 anos ficou por lá, e dias e mais dias se passaram até que se chegasse a um entendimento. No total, seis semanas, até perto do fim de março.

Só saiu quando dirigentes quitaram a dívida – não completamente.

De volta à Espanha, onde trabalha como auxiliar no Rayo Vallecano, de Madri, Nus concedeu entrevista a “O Mundo é uma Bola” na qual detalhou as razões que o levaram ao “internato”.

Gerard Nus é auxiliar técnico do Rayo Vallecano, equipe da 2ª divisão do Campeonato Espanhol (Reprodução/Site Gerard Nus)

Quanto a federação de Gana lhe devia? 

Gerard Nus: Nunca disse quanto a federação me devia. Pois nunca foi o mais importante. O mais importante era defender os princípios envolvidos na questão. Não se pode tolerar certas atitudes, é necessário se fazer respeitar. Que tipo de treinador eu seria se caísse fora? Se tenho um grupo de jogadores sob meu comando passa por uma fase ruim, com maus resultados, eles vão querer um covarde ou alguém valente, disposto a defender os interesses do grupo?

Fizeram o pagamento integral?

Nus: Não me pagaram tudo, ainda há dívida. Não deixarei de cobrar.

Você não teve problemas por ficar tanto tempo em um mesmo hotel? Não houve tentativa de expulsá-lo?

Nus: Não. Não tentaram me expulsar.

Qual sua conclusão sobre esse caso?

Nus: Que em Gana, infelizmente, no futebol o dinheiro está sempre acompanhado de más notícias. Calotes, atrasos, promessas não cumpridas, falta de contratos… enfim, espero que o sistema melhore nos próximos anos.

Sobre seu futuro no futebol, o que almeja?

Nus: Atualmente estou no Rayo Vallecano, como assistente técnico. Minha recente experiência como treinador principal, antes da Copa Africana, nos Estados Unidos, com o Rayo Oklahoma, da NASL (North American Soccer League), equipe que tem o mesmo dono que o Rayo Vallecano, foi muito boa. Tenho vontade de ter novas oportunidades, não importa onde seja, para que eu possa mostrar a experiência acumulada nos últimos anos, com o Liverpool, o Brighton (Inglaterra), o Rayo OKC, o Rayo Vallecano, o Elche (Espanha), o Melbourne City (Austália) e o Jeonnam Dragons (Coreia do Sul).