Ganso rompe silêncio e diz querer empolgar torcida do Sevilla e ir à Copa de 2018

Por Luís Curro
O meia Ganso, em estúdio preparado para entrevista na qual rompeu silêncio de vários meses (Divulgação Sevilla FC)

Paulo Henrique Ganso, ex-Santos e ex-São Paulo, estava em baixa no Sevilla.

Encostado pelo treinador argentino Jorge Sampaoli, há quase quatro meses sem entrar em campo pela equipe espanhola, seu destino parecia certo: ao término da temporada, ser negociado, em definitivo ou por empréstimo, a fim de poder ter espaço para mostrar seu futebol.

Seu ocaso no Sevilla fez o Sevilla blindá-lo, evitar que falasse com jornalistas. Tentei via assessoria de comunicação do clube entrevistar o meia canhoto de 27 anos, e a resposta foi esta, lacônica: “Ganso não dará entrevista, já que não joga”.

Minha conclusão: não querem deixá-lo falar porque, insatisfeito com a reserva (às vezes nem para a reserva era selecionado), certamente falará mal do clube e/ou do treinador. Fazia sentido esse raciocínio.

O repórter Alex Sabino, da Folha, até escreveu uma reportagem, publicada no dia 21, para abordar o “não voo” de Ganso na Espanha. A razão de o jogador não ser escalado teria sido um entrevero com Sampaoli no início deste ano: ele queria saber por que não jogava e questionou o chefe, que se irritou e, consequentemente, o marginalizou.

O meia Ganso em partida do Sevilla contra o Alavés, em outubro, pelo Espanhol (Jesus Spinola – 1º.out.2016/Divulgação
Sevilla FC)

É, contudo, curioso como no futebol as coisas mudam repentinamente e, às vezes, sem haver uma lógica.

Súbito, logo após a publicação da reportagem, nesse mesmo dia 21, Ganso estava em campo. E nem saiu da reserva. Voltou como titular.

E bem. Marcou os gols da vitória por 2 a 0 sobre o Granada, o primeiro logo aos 4 minutos do 1º tempo, o segundo no primeiro minuto do 2º tempo. Ou seja, desde o início de cada etapa, estava ligado, interessado, ativo.

Na quinta (27), de novo começou jogando. Não fez gol nem deu assistência, mas teve boa atuação e jogou quase até o fim – foi substituído apenas aos 42 minutos do segundo tempo.

Sampaoli, nesses jogos, escalou Ganso mais avançado, na função de organizador, e não como segundo volante.

Ele teve liberdade para receber a bola com frequência em uma boa posição e armar o time, que é o que faz melhor. Apesar de lento com o corpo, Ganso é rápido com a mente, sempre foi. Tem criatividade e visão de jogo privilegiada.

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Com Ganso de volta à ativa, o Sevilla baixou o cerco. O bom momento levou o setor de comunicação do clube a expô-lo sem preocupação. E, nesta sexta (28), exibiu no site uma entrevista com o jogador, gravada em estúdio.

Ele não foi questionado sobre a relação com Sampaoli. Tampouco entrou no assunto. No geral, deu respostas burocráticas, em um espanhol básico, com elogios ao clube e à cidade.

Afirmou que esperava ter tido mais minutos na primeira temporada da equipe, porém justificou que a adaptação dos jogadores brasileiros à Europa costuma não ser imediata, o que explicaria os minutos de menos.

(Abro um parênteses: nem sempre é assim. Há jogadores que causam impacto de imediato. Vide Gabriel Jesus no Manchester City, talvez o exemplo mais recente.)

Aparentemente com as energias renovadas, Ganso disse ainda que espera continuar no Sevilla. E mostrar à torcida muito mais do que mostrou até agora. Que, diga-se, foi muito pouco.

“Posso fazer mais coisas, fazer mais gols, mais jogadas que possam empolgar o estádio… muitas coisas”, declarou.

O meia, ex-Santos e São Paulo, concede entrevista em espanhol ao site do Sevilla (Reprodução Site do Sevilla FC)

Na versão em português da entrevista (não a localizei no site, mas chegou até mim via assessoria), que não é totalmente igual à em espanhol, Ganso mostra-se otimista a ponto de sonhar com algo atualmente impensável: disputar a Copa do Mundo de 2018.

“Esse é um objetivo que tenho na minha carreira. Fazer uma boa temporada, a próxima, e poder estar presente no Mundial.”

Tite já fez elogios ao futebol de Ganso, mas jamais o convocou desde que assumiu a seleção brasileira, na metade do ano passado.

Na gestão Dunga, antecessor de Tite, Ganso esteve no elenco da Copa América Centenario, em junho de 2016, mas não atuou em nenhuma partida.

A última vez que ele vestiu a camisa da seleção principal foi em fevereiro de 2012, em um amistoso contra a Bósnia, na Suíça. Entrou no segundo tempo do lugar de Ronaldinho Gaúcho e jogou por 27 minutos. O técnico do Brasil, que ganhou por 2 a 1, era Mano Menezes.

Em tempo 1: Crescem os rumores de que Jorge Sampaoli será o novo treinador da seleção da Argentina, que neste mês demitiu Patón Bauza – o presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino) declarou que o comandante do Sevilla é a prioridade. Caso isso ocorra, é relevante observar quem o clube espanhol escolherá para dirigir a equipe (que está em quarto lugar no Campeonato Espanhol e luta por uma vaga na próxima Champions League), e se será um técnico que aprecia ou não o estilo de Ganso.

Em tempo 2: Considero difícil haver espaço para Ganso na seleção brasileira atual, que está bem estabelecida, e obtendo ótimos resultados, com a formação Casemiro (ou Fernandinho), Paulinho e Renato Augusto no meio-campo. Aparentemente, Tite não precisa de alguém com as características de Ganso para fazer seu time funcionar.